Natural de um pequeno município brasileiro onde 96% da população fala alemão, Fabiano chegou no início desta época ao Bessa como um desconhecido e pegou de estaca. No entanto, o «Alemão», como é conhecido, representou históricos emblemas brasileiros, como Cruzeiro, Internacional e Palmeiras.

O lateral-direito, de 27 anos, cresceu em São João do Oeste e iniciou o percurso como profissional na Chapecoense. Após cinco anos em Chapecó e dois anos no Cruzeiro, Fabiano mudou-se para o Verdão e apontou o golo que deu o título de campeão brasileiro precisamente frente à Chapecoense. Volvidos dois dias, grande parte dos membros do clube de Santa Catarina sofreram um trágico acidente de aéreo.

Esta entrevista dividida em três partes é uma viagem pelo passado, mas também pelo presente. Desde os conselhos do ex-axadrezado Paulo Turra e do antigo selecionador nacional Luiz Felipe Scolari – que anunciou a sua transferência para Portugal antes do tempo – ao primeiro mês e meio no Boavista.


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Maisfutebol: O Fabiano é natural de São João do Oeste, no estado Santa Catarina. Foi aí que começou a jogar futebol?

Fabiano: Comecei a jogar desde muito novo. Passava a manhã na escola e à tarde ajudava os meus pais na agricultura. Eles produziam leite durante o ano e tabaco, de agosto a dezembro. Assim que acabávamos o serviço, eu e o meu irmão gémeo íamos para o campo que há no centro da comunidade. O primeiro campeonato que disputei foi num projeto do Internacional chamado «Genoma Colorado».

Que servia de trampolim para o Internacional de Porto Alegre, certo?

Sim. O Internacional selecionava os melhores para irem fazer testes ao clube. Durante o campeonato, éramos observados e no final dois ou três eram recrutados para irem fazer testes. Cheguei a fazer dois no Internacional e reprovei em ambos. Fui para o São Luís de Ijuí e passei. Quando cheguei a casa, o meu irmão queixou-se ao meu pai de que nunca teve a oportunidade de fazer testes. Levei-o lá e ele também passou, mas dois ou três dias depois, sentiu saudades de casa e fez as malas.

O seu irmão desistiu do futebol. O que faz ele hoje?

Ele tem metade de uma empresa de equipamentos agrários, uma das áreas de negócio mais fortes da região. Também é sócio de uma outra empresa.

E o Fabiano? Teria seguido essa área caso não fosse jogador?

Joguei no São Luís, completei a formação de juvenis e voltei a casa. Os responsáveis do clube disseram-me que só iam ficar com os jogadores da região de Ijuí na equipa profissional e queriam que jogasse pelos juniores. Recusei e estive sem jogar durante oito meses. Ajudava os meus pais durante a semana e ao fim de semana jogava no campeonato amador. Até que o meu pai me disse que tinha de optar: jogar futebol, estudar ou continuar a ajudá-lo. Eles nunca tinham folgas e queriam que ajudasse no fim de semana. Surgiu, nessa altura, a oportunidade de jogar na Chapecoense.

Foi, portanto, na Chapecoense que começou verdadeiramente a sua carreira?

Decidi tentar mais uma vez o futebol para ver se dava certo. Não tinha nada definido na minha vida. Não sei que área poderia seguir. Cheguei a Chapecó e só havia mais um dia de testes, mas consegui ficar. Joguei dois anos nos escalões de formação e subi à equipa principal em 2012 na Série C (terceiro escalão do futebol brasileiro).

Subiram consecutivamente até chegaram à Série A.

Sim. O meu último ano foi o melhor dos cinco que vivi na Chapecoense e acabei por ser vendido ao Cruzeiro. Estive ano e meio no Cruzeiro e depois fui cedido ao Palmeiras, clube pelo qual fui campeão brasileiro em 2016... Precisamente frente à Chapecoense.

O Fabiano fez o golo que deu o título ao Palmeiras frente à Chapecoense dois dias antes daquele trágico acidente com a sua ex-equipa. É uma história dramática.

A equipa mudou muito, houve jogadores que eu conhecia e que eram meus amigos, felizmente, não foram convocados para esse jogo da Taça Sul-Americana frente ao Atlético Nacional, da Colômbia: Rafael Lima, Neném, Hyoran, Valdo... Outros foram, claro, infelizmente. Como o Danilo, o Bruno Rangel, o Alan Ruschel, que foi um dos sobreviventes. Conhecia também muitos elementos da direção e da equipa técnica.

Lembra-se de como recebeu a notícia?

No dia seguinte [à conquista do título], numa segunda-feira, fomos aos Espaço das Américas comemorar. Fiquei até ao final da festa com um amigo que trabalhava em São Paulo. Os meus empresários e outros dois amigos também lá estavam, mas saíram mais cedo. Eles precisavam de voltar para Santa Catarina no dia seguinte e foram dormir para o meu apartamento. Tinha ideia de ainda ir sair a outro sítio continuar a comemorar aquele meu primeiro grande título. Eu e o meu amigos não tínhamos bateria no telemóvel e precisávamos de usar o GPS. Carreguei o telefone num ponto da cidade e quando o liguei, tinha várias mensagens. Fui ao Google e vi que o avião tinha desaparecido. Fiquei sem cabeça para nada e voltei para casa. Ao chegar lá, todos estavam em frente à TV angustiados. Ninguém dormiu nessa madrugada.

Mantém contacto com os colegas que sobreviveram?

Falei com o Alan há pouco tempo, jogámos juntos. Falava também com o Rafael [Henzel], um jornalista que sobreviveu ao desastre aéreo e que algum tempo depois acabou por falecer num jogo de futebol com amigos...

Outro golo marcante na sua carreira foi um que marcou ao serviço do Palmeiras frente ao Peñarol, aos 90m+10, que valeu o apuramento na fase de grupos da Libertadores... Recorda-se?

Claro! Foram dois golos marcantes. Marcava mais pela Chapecoense. Em três anos, marquei 15 golos, até porque jogava como defesa-central e tinha oportunidade de subir para a área. Isso mudou um pouco quando passei para lateral.

Qual a posição que prefere?

Aqui no Boavista já joguei contra o Sporting e Gil Vicente como defesa central. Essa é a minha posição de origem e pelas minhas características não tenho dificuldade em jogar aí. No entanto, desde 2012 que jogo como lateral-direito e agora sinto-me bem nessa posição.

Sérgio Pires Vítor Maia / Estádio do Bessa, Porto