Após a longa travessia do deserto, a história recente do FC Porto começou a mudar a 8 de junho de 2017.

Nesse dia, Sérgio Conceição foi formalmente apresentado como treinador do FC Porto. Fez então questão de dizer que não vinha para aprender, mas sim para ensinar. E disse mais: «Penta do Benfica? Não vai acontecer. Vai coincidir com o nosso campeonato.»

No parque de estacionamento do Dragão, junto ao acesso para os balneários (inusitado local escolhido para a apresentação), apareceu um treinador determinado, de discurso frontal, focado no título.

O contexto, porém, não era fácil. Com o FC Porto intervencionado pela UEFA, o investimento em reforços seria praticamente nulo, inversamente proporcional à pressão de vencer após quatro épocas de seca.

O anúncio do treinador demoraria longos 17 dias… Conceição acabaria até por ser uma solução inesperada. Eram outros os nomes badalados para o cargo. Sérgio até tinha acabado de renovar com o Nantes e dobrado o salário de dois para quatro milhões de euros anuais.

O que fazer perante as dificuldades? Sérgio decidiu avançar e consigo trouxe o quarteto, que compõe a equipa técnica, Siramana Dembelé, Vítor Bruno, Diamantino Figueiredo e Eduardo Oliveira.

Forçou a saída do Nantes, comprando a guerra com o presidente Waldemar Kita, aceitou baixar o salário substancialmente para vir para o Dragão, abraçou um projeto de elevado grau de dificuldade e… venceu.

O discurso frontal da apresentação tornou-se também imagem de marca nas conferências de imprensa.

A determinação que mostrou na sala de imprensa, esteva ainda mais patente no banco. Sérgio pegou num grupo de jogadores e fez uma equipa. Resgatou emprestados – Ricardo Pereira, Reyes, Aboubakar, Marega… Criou um sistema de jogo marcadamente ofensivo; deu metros e músculo ao FC Porto e tornou-o dominador, muitas vezes avassalador, até. Inventou a roda com os jogadores no relvado, que se fez impreterivelmente no final de cada jogo e durou a época inteira.

Sérgio é um duro. Assim ditou o destino. Na adolescência perdeu os pais – o pai morreu num acidente com a mesma mota que usava para o levar aos treinos no dia a seguir a tornar-se dragão e a mãe viria a falecer pouco depois. Casou-se aos 20 anos com a atual mulher.

Foi forçado a crescer antes do tempo e o futebol acabou por dar-lhe tudo aquilo que nunca imaginou, ao crescer numa família humilde de Ribeira de Frades, freguesia do concelho de Coimbra.

Formou-se na Académica, cresceu no FC Porto, onde acabaria por sagrar-se campeão nos anos do penta e voltaria para fazer parte do plantel que sob o comando de José Mourinho venceu a Liga dos Campeões. Brilhou em Itália (Lazio, Parma, Inter) e pela seleção nacional, com mais de meia centena de internacionalizações A, passou pelo Standard de Liège e pendurou as chuteiras no PAOK, em 2008/09.

Haveria de seguir-se a carreira como treinador, primeiro no Olhanense, em 2012/13, depois, na época seguinte, na sua Académica. Antes de treinar os rivais do Minho (Sp. Braga e V. Guimarães) em 2014/15 e 2015/16, respetivamente, e da aventura em Nantes, onde salvou a equipa da descida de divisão e guindou-a até ao sétimo lugar na última época.

Temperamento, franqueza e detalhe: os seus ex-pupilos apontaram-lhe essas características, em declarações ao Maisfutebol, aquando da sua contratação pelo FC Porto.

No foro privado, Sérgio mostra-se devoto e solidário, como o Maisfutebol mostrou numa reportagem publicada em abril de 2013.

Outra das suas facetas é a de homem de família, que revelou em entrevista ao jornal francês «Ouest France», em março do ano passado.

«Os meus filhos [cinco rapazes] nasceram no meio do futebol. O de 17 anos joga no Benfica e também está na seleção sub-17, é extremo como eu. O mais novo, de 14, também é extremo e joga no Sporting. O mais velho está na universidade, está a tirar gestão desportiva e joga na 3.ª divisão. É duro estar longe da família, não poder acompanhá-los. É o meu ponto fraco.», disse então, meses antes de assinar pelo FC Porto.

O resto já se sabe. Qual bom filho, regressou a casa para fazer história, e, mesmo sem o reclamar, merece uma «fatia de dragão» no mérito pela conquista do título do 28.º título de campeão nacional conquistado pelo FC Porto.

Que façanha! Sobretudo tendo em conta o ponto de partida.

Sem extraordinários recursos, Sérgio Conceição fez uma revolução tranquila e tirou o FC Porto do marasmo, reconciliando-o com os adeptos e com o bom futebol.

Que extraordinário progresso! Tão genialmente simples como a invenção da roda.

Sérgio Pires