«Ouvem-se já os jogadores
Ouvem-se já os treinadores
Ouvem-se já os espetadores»

O futebol está de volta. Escusado seria frisar o quão diferente tudo ficou em três meses.

São as faixas colocadas pelo Boavista na bancada. «O Porto é a minha cidade, o Boavista é o meu clube». Pouco mais de uma dezena de adeptos em cartão, a simular a presença de quem sofre pelo grande ecrã. À escuta na rádio. A cada minuto pela internet.

É o grupo de adeptos do Boavista, no topo de um prédio junto ao Bessa, a cantar com bandeiras ao alto e a lançar fogo de artifício. Em paralelo, os cânticos no sistema sonoro a disfarçar as bancadas vazias. As gaivotas a sobrevoar a casa dos axadrezados: sabe-o quem já cá esteve.

Também é o estalar dos pitons da bota de Pasinato no poste, à meia hora de jogo. Os impropérios dos jogadores quando um lance não calha de feição. Os festejos tímidos, mas felizes, do golo. A raiva de um penálti falhado no fim.

A adaptação dos versos principais da «Canção da Primavera», de Zeca Afonso, pode ilustrar um futebol que implora pela liberdade de outrora. Já lhe mostrámos como tanto mudou nos estádios em tão pouco tempo. Mas joga-se em Portugal: já é um avanço em tempos de pandemia.

Ouvem-se já os jogadores. Ouvem-se já os treinadores. E ouvem-se os espetadores, ainda que lá fora.

No duelo de xadrez, fica para a história um golo caricato a dar mais liberdade ao Moreirense por novo bilhete na I Liga. Ao minuto 48, um cruzamento em esforço de Filipe Soares ressaltou em Ricardo Costa, ganhou altura e bateu Helton Leite. Segunda vitória do Moreirense no Bessa, 33 pontos e um respiro mais confortável pela certeza da permanência.

Isso e um final de loucos.

Na compensação, o braço de Sori Mané travou o remate de Carraça para penálti, mas o castigo máximo do número 17 do Boavista esbarrou no poste. Tal como a recarga de Yusupha. Depois, confusão: quatro cartões, Fabiano expulso e Fábio Abreu quase a dar outra cor ao triunfo minhoto.

O Boavista jogou mais, foi intenso e (muito) mais rematador (24-5), mas Pasinato deu mais uma prova de que é um dos melhores guarda-redes da I Liga: veja-se a defesa, ao minuto 20, ao remate de Heriberto. Ou as três tentativas negadas a Sauer, que veria o poste, já na segunda parte (59m) a negar o empate. Ainda que quase tenha comprometido o triunfo em três saídas arriscadas.

O Boavista, no tudo por tudo, estreou o paraguaio Fernando Cardozo e lançou Yusupha e Marlon pelo golo.

«Maltinha, ainda há muito jogo pela frente», ouvia-se da boca de um adjunto do Moreirense, ao minuto 81. Do outro lado, murros no banco de suplentes, na ânsia do empate. «Eiii cara***», reclamava-se do outro, por uma falta não assinalada.

Os instantes finais deram sabor apurado à vitória do Moreirense, que se livrou, ao todo, de três bolas nos ferros. Houve outra liberdade para festejar. Como Zeca Afonso cantou por ela, o futebol pede-a por um futuro mais risonho.

Ricardo Jorge Castro / Estádio do Bessa, Porto