Procurar culpados é sempre mais fácil fora de casa. Bater a porta, guardar a chave no bolso e apontar o dedo aos outros. O FC Porto pode ter razão em muitas das acusações feitas nos últimos dias, mas ninguém resolve os problemas do mundo sem antes perceber o que se passa dentro das suas quatro paredes.

O FC Porto tem questões mais urgentes do que as arbitragens – muitas vezes más, sim – com que se preocupar. A primeira parte do dérbi contra o Boavista (podemos voltar a tratá-lo por Boavistão?) tratou de provar ao mundo azul e branco precisamente isso.

Até ao intervalo, o FC Porto montou o Rocinante, deu duas de letras com o Sancho Pança desta vida – um amigo imaginário, provavelmente -, suspirou pela Dulcineia (leia-se título nacional) e lançou-se sobre moinhos de vento que mais não eram do que fantasmas inofensivos.

Cervantes escreveu-o melhor do que ninguém. É provável que Sérgio Conceição e respetivo plantel não leiam os grandes clássicos da literatura, e que Dom Quixote lhes seja um nome estranho, mas a analogia pode muito bem explicar o que foi, ou não foi, o campeão nacional no primeiro tempo.

FICHA DE JOGO E AO MINUTO DO DÉRBI

Disso não teve culpa um Boavista de pose intelectual e perfeitamente conhecedor dos seus direitos e deveres. O professor Jesualdo enjaulou o 4x4x2 desinspirado dos dragões num 5x3x2 elástico e prático, fortíssimo a defender e venenoso a atacar. Com a bola no pé, havia apenas duas alternativas: o conforto do pé direito de Angel Gomes e a busca da profundidade nos piques irresistíveis de Alberth Elis.

Anotem bem isto: em 45 minutos, o Boavista fez dois golos – Jackson Porozo de cabeça após um canto e Elis, claro, depois de uma fuga de Ricardo Mangas na esquerda – e o obrigou Marchesín a duas grandes defesas. O FC Porto, insistimos, andou a investir de lança em punho sobre nada nem ninguém, a não ser os seus próprios fantasmas.

Sérgio Conceição foi o primeiro a percebê-lo e no balneário mudou tudo. Não deve ter ficado pedra sobre pedra na palestra do treinador. Saíram três jogadores (Diogo Leite, João Mário e Fábio Vieira), entraram outros três (Grujic, Zaidu e Otávio), mas as mudanças foram muito além disso.

O FC Porto passou a sentir o coração a bater, acusou o chamamento da realidade e a urgência da responsabilidade. Atacou, arriscou, obrigou um grande Boavista a baixar linhas e a sofrer. Consequência: os dragões marcaram por Taremi (54 minutos), por Sérgio Oliveira (82, penálti) e ficaram com mais 13 minutos pela frente para agarrarem os três pontos.

DESTAQUES DO JOGO: Elis, o diabo do xadrez

Aí, já com o jogo estendido ao comprido em direção à baliza de Léo Jardim, e o FC Porto de Conceição a exibir a melhor versão, foi a altura de entrar o drama e a emoção em campo.

Agarrem-se com força, pois poucos aguentariam dois socos assim: primeiro, Sérgio Oliveira disparou um segundo penálti ao poste de Léo Jardim; depois, o FC Porto marcou mesmo e festejou, antes de o VAR identificar uma mão de Evanilson e alertar o árbitro Manuel Mota para a ilegalidade da celebração azul e branca – a imagem do rookie Francisco Conceição agarrado ao pai a chorar será, certamente, uma das mais fortes da época.

Nada a dizer ou a fazer: o FC Porto foi castigado pelos primeiros 45 minutos horríveis e já não teve forças para mais neste dérbi de loucos; o Boavista resistiu ao ataque total do vizinho sobre si, devidamente amparado numa vantagem que fez por justificar no primeiro tempo.  

Um ponto é pouco, muito pouco, para qualquer um dos lados. Sabe a pão e água em época de fome e sede. Longa se torna a espera quando se persegue o que dificilmente existe.  

Pedro Jorge da Cunha / no Estádio do Dragão, Porto