1. FC Porto muda estrutura para encaixar no Sporting

Ruben Amorim ainda tem uma curta carreira como treinador, mas tem já uma imagem de marca em termos de estrutura de jogo: o seu 1x3x4x3 a atacar (1-5-2-3 a defender). Com dinâmicas bem definidas em todas as equipas por onde tem passado, com ideias claras e que têm provocado problemas aos adversários.

Deste modo, há sempre algum interesse em perceber como os treinadores contrários vão reagindo a isso, como se adaptam e que soluções apresentam quando as equipas defrontam esta estrutura, que é um pouco diferente das estruturas mais habituais, pelo que pode exigir mais adaptações.

Neste jogo, em que ambas as equipas apresentaram algumas alterações nos onzes iniciais habituais, Sérgio Conceição optou por fazer uma mudança e apresentar-se em campo como uma organização muito similar para encaixar no Sporting. Assim, jogou com um sistema de três defesas a atacar (Mbemba, Pepe, e Diogo Leite), que se transformava numa linha de cinco a defender, com Zaidu e João Mario a fazerem os corredores laterais, e três avançados.

Com o Sporting a jogar na sua filosofia habitual, sem grandes surpresas, isto levou a um encaixe grande entre as estruturas, o que conduziu a um enorme equilíbrio, muito jogo na zona central do meio campo e pouca fluidez. Houve escassa circulação de bola e os ataques acabavam por ser tempos de ação curtos, com poucas situações de finalização.

Sérgio Conceição tentava levar o jogo para um registo no qual o FC Porto se sente mais confortável, com muitos confrontos, muitos duelos, muita pressão e muita imensidade, enquanto tentava anular os pontos fortes do adversário, que partem sobretudo da circulação na linha mais recuada de três e da colocação de muita gente no corredor central.  

2. Pressão alta de ambas equipas e formas de sair da pressão.

Um pouco à semelhança do último FC Porto-Benfica no fim de semana, as equipas tentaram anular a primeira fase de construção adversária de forma a tentar eliminar a partir desse ponto o jogo ofensivo do rival. Assim, apostaram numa pressão logo perto da área adversária e muitas vezes tentando impedir o primeiro passe curto a partir do guarda-redes.

Para que isso fosse possível utilizaram uma pressão 3x3 sob a primeira linha de pressão do opositor, com os três avançados a encostarem nos defesas. Nos corredores os alas encaixavam (ocasionalmente ficando 1x1) e no meio campo havia igualdade numérica (2x2). Com este encaixe total não era fácil sair de forma curta e apoiada. Era necessário inventar movimentos e dinâmicas para criação de superioridades numéricas e encontrar homens livres.

As equipas optaram então por deixar subir a linha de pressão adversária para jogar um passe longo sobre a linha defensiva contrária e tentar jogar uma segunda bola a partir daí, embora com dinâmicas um pouco diferentes.

No caso do FC Porto, a tendência foi usar claramente Marega como referência para uma bola longa, ou através do ataque à profundidade ou para uma disputa aérea de forma a tocar para Corona e Filipe Anderson entre linhas, ou até para um médio em aproximação, acabando por receber muitas bolas longa para tentar jogar em apoio. A ideia era clara, sair da pressão por cima, ganhar a segunda bola e jogar a partir daí, provocando um movimento posterior à profundidade (Uribe tentou algumas vezes) ou chegar por fora para depois conseguir um cruzamento.

No caso do Sporting, a saída acabou por ser também muitas vezes longa, embora sem uma referência tão clara (jogadores com características diferentes). A equipa apostou por isso, num primeiro momento, em mais movimentos à profundidade de Nuno Santos e Tiago Tomás, que tentavam arrastar a linha defensiva do FC Porto para abrir o bloco.

Além disso, ficou evidente que tinha como plano de jogo descobrir Pedro Gonçalves dentro do bloco portista. De facto, dos seus movimentos e posicionamentos interiores saíram as jogadas mais perigosas da equipa (como no segundo golo, mas já lá vamos). Partindo de uma ala, houve a intenção clara de o colocar muito por dentro (foi como um falso número 10), jogando nas costas dos dois médios portistas. A ideia era fixar os médios do FC Porto, para dar espaço a Palhinha e João Mário, e simultaneamente para receber uma bola ali para acelerar sobre a linha defensiva.

O Sporting tentava ao mesmo tempo colocar Palhinha e João Mário em linhas diferentes de forma a tentar encontrar mais ligações curtas entre defesas e médios. Embora não o tenham conseguido com muita consistência, foi quando isso aconteceu que a equipa assumiu um pouco mais o jogo (fim da primeira parte). O FC Porto responderia então com uma pressão mais intensa e acabaria por anular muito desse jogo mais curto, o que devolveu o encontro a um registo que controla melhor. No geral, mais uma vez a maioria das vezes a pressão superou a criação.

3. Substituições não mudam as estruturas, mas mudam o resultado jogo

O jogo manteve particamente sempre a toada de muito equilíbrio, de poucas finalizações e de raras situações de golo. Com o nulo no marcador não se esperavam grandes mudanças por parte de nenhuma equipa, mas o golo do FC Porto fez mudar a situação. A equipa portista em vantagem optou por manter a estrutura e refrescar alguns jogadores, tentando segurar o resultado.

Tal como tem sido hábito em Ruben Amorim, mesmo quando está em situação de desvantagem no marcador, não mudou a estrutura de jogo, mas mexeu, sim, nas caraterísticas dos jogadores. Pelo caminho mudou alguns de posição de modo a tentar acrescentar mais risco e capacidade ofensiva. Neste registo o Sporting normalmente abre um pouco mais o jogo e faz como que este seja um pouco mais partido.

Correu mais riscos, mas mostrou também alguma capacidade para aumentar os desequilíbrios, até pela maior irreverência de alguns jogadores.  Os minutos finais trouxeram por isso um jogo que se tornou um pouco menos fechado e encaixado, acabando a vitória por cair para o lado leonino com dois golos de Jovane acabado de entrar, com o segundo após o movimento frequente (e preparado) de Pedro Gonçalves, a receber entrelinhas.

João Pacheco