Diz-se que a história do futebol é uma viagem triste do prazer ao dever. Ainda que a espaços, o Boavista provou-nos que o futebol pode ser prazeroso e que nem sempre é preciso viajar até ao passado.

Além disso, nada dá mais prazer que jogar bem e vencer tal como os axadrezados fizeram frente ao Vitória de Setúbal (3-1).

Tão solta, tão confortável, a Pantera chegou a ter largos períodos de posse de bola, obrigando os sadinos a correrem de um corredor ao outro. Quase se viu um sorriso no rosto de Bueno e de Sauer, sobretudo, enquanto a bola andava junto à relva.

Porém, é justo dizer a vantagem de dois golos, conquistada na primeira parte, ajudou à descontração do Boavista.

Confiantes face ao triunfo em Braga, os axadrezados entraram na partida praticamente com o 1-0. Foi o primeiro grande desenho ofensivo do conjunto de Daniel Ramos: Carraça lançou a velocidade de Fernando Cardozo – fez a estreia a titular – que viu o movimento de arrasto de Cassiano deixar Bueno solto. Em castelhano os dois entendera-se: o paraguaio cruzou rasteiro e o espanhol marcou com a classe que se lhe reconhece (5m).

É verdade que os sadinos roubaram a posse de bola ao adversário e criaram três situações para igualar até ao intervalo. Hélder Guedes foi infeliz em duas ocasiões (14m e 35m). Se na primeira fez cabeceou à trave, na segunda estava alguns centímetros adiantados antes da finalização. Pelo meio, Artur Jorge ainda assustou Helton Leite (30m).

Ricardo Costa pediu mais aos companheiros e eles fizeram caso. Acordaram tarde, já em cima do intervalo, mas a tempo de assinarem uma bela jogada ofensiva. Fabiano rasgou a organização sadina e deixou a equipa a jogar no meio-campo ofensivo. Toque, toque, toque até Cardozo descobrir Marlon e isolar Sauer para o 2-0.

O passeio do Boavista começou na segunda parte. Os axadrezados pensaram que o Vitória de Setúbal tinha comprado bilhete para a volta completa, mas enganaram-se. Talvez por algum deslumbre, a pantera cometeu alguns erros e os sadinos aproveitaram. Mansilla aproveitou o mau passe de Fernando Cardozo e serviu Carlinhos que fez um o 2-1. Um belo golo, por sinal.

O jogo virou por completo. O Boavista arregaçou as mangas, sofreu como nunca e respirou de alívio várias vezes. Mansilha falhou um golo feito na pequena área (67m), Guedes voltou a mostrar-se perdulário na cara de Helton (78m) e Berto fez o mesmo (80m).

Na fase de maior fulgor, os sadinos sofreram o 3-1 da autoria de Heri (90+3). Após recurso ao VAR, verificou-se que o avançado estava cinco centímetros (!) em jogo e a partida ficou definitivamente fechada.

Inevitavelmente, o Boavista acabou por ir do prazer ao dever tal como a história do futebol mundial e somou o segundo triunfo seguido, garantindo quase em definitivo a permanência. O Vitória continua sem vencer desde a retoma da Liga, embora tenha feito o suficiente para sair do Bessa com um ponto.

Vítor Maia / Estádio do Bessa, Porto