A cidade saiu à rua, as ruas pintaram-se de verde e branco e o Vitória correspondeu com uma vitória sobre o Belenenses, por 2-0, que garante mais um ano no primeiro escalão. Mais uma vitória de um clube que, ano após ano, vai lutando contra todas as vicissitudes e, com mais ou menos dificuldades, vai aguentando-se na elite do futebol português. Uma vitória do pragmatismo, com o foco no resultado e que relegou o futebol para segundo plano. A equipa de Lito Vidigal sofreu a bom sofrer até perto do final do jogo, apesar da «simpatia» do Belenenses, mas Pirri sossegou os corações sadinos com o segundo golo em tempo de compensação.

Lito Vidigal preparou uma equipa de «guerra» para este último capítulo, com jogadores com missões bem definidas em campo, com Semedo a comandar a defesa, Carlinhos a gerir o meio-campo com Leandrinho, Éber Bessa a fazer compensações e Zequinha, no apoio ao ataque, mas com total liberdade para atuar em todas as zonas do terreno. No fundo, um Vitória que não queria bola, que entregou a condução do jogo desde logo ao Belenenses para depois jogar no erro do adversário e jogar sobre desequilíbrios.

O Belenenses, por seu lado, entrou em campo bem mais relaxado, depois de também ter sofrido na ronda anterior. A equipa de Petit, com o habitual sistema de três defesas, assumiu desde cedo o controlo do jogo, com uma posse de bola bem mais elevada do que é habitual, a jogar muito tempo no meio campo do Vitória.

Nos primeiros vinte minutos, o Vitória fez apenas dois remates, ambos de muito longe, primeiro por Zequinha, depois por Carlinhos. De resto, só deu Belenenses, com muito espaço para trocar a bola, mas sem necessidade de marcar golos. O Vitória, sem bola, recuava a em peso, fechando-se com uma linha de cinco, reforçada com outra de quatro, à espera de uma oportunidade para sair a jogar, como gosta, com transições rápidas. No entanto, o Belenenses não largava a bola e, neste quadro, estava difícil o Vitória aproximar-se da baliza de Koffi. Apenas de bola parada. Foi, assim, aliás, que chegou o golo, já depois dos trinta minutos. Canto de Éber Bessa e Jubal a subir ao segundo andar para cabecear à vontade. Festejou-se na relva e no exterior do estádio, com os adeptos sadinos a fazerem-se ouvir.

O Belenenses podia ter empatado logo a seguir, numa cabeçada de Nuno Coelho que proporcionou a Makaridze uma das defesas da noite, com uma grande estirada. No lance seguinte, o Vitória estava de novo a festejar, com Lito Vidigal a quebrar todos os protocolos e a festejar com a equipa. Um golo feito em três remates. Primeiro Carlinhos, do meio da rua, Koffi defendeu para a frente, Hachadi voltou a rematar para mova defesa do guarda-redes do Burkina, mas à terceira, Éber Bessa atirou a contar. Foi a grande a festa sadina, mas o VAR suspendeu a festa. Havia dúvidas quanto à posição de Hachadi no momento do remate de Carlinhos e, ao fim de cinco minutos de análise, o golo foi mesmo anulado, por cinco centímetros.

A verdade é que a receita estava a dar frutos, pelo que, até ao intervalo, o Vitória voltou a entregar o jogo ao Belenenses que montou um «meínho», ali mesmo, à entrada da bem guarnecida área de Makaridze, com um calafrio ou outro, mas nada que fizesse tremer o Vitória. A fechar a primeira parte, mais uma oportunidade flagrante para o Vitória. Alex embalou pela zona central, os adversários foram-se desviando para marcar os amigos de Alex e o lateral não se fez rogado e rematou forte, à entrada da área, com a bola a passar perto do poste.

Sofrer, sofrer, até ao golo de Pirri

Já no início da segunda parte, o Vitória procurou, finalmente, assumir a condução do jogo, com o objetivo de levar a bola para mais perto da área de Koffi com o objetivo de, tal como tinha feito no início do jogo, testar a meia distância. Foi, assim, que Carlinhos esteve perto de marcar, com um remate forte, fora da área, que obrigou Koffi a aplicar-se.

No entanto, quando perdia a bola, o Vitória tocava a reunir e colocava praticamente dez jogadores dentro da área, procurando fechar todos os caminhos ao Belenenses. Uma aposta arriscada, uma vez que os azuis, com muito espaço, pressionavam cada vez mais alto e chegaram a provocar alguns calafrios. Um deles, provocado por um erro crasso de Pirri que, logo depois de entrar, perdeu uma bola em zona proibida e permitiu um remate a Marcos Matias.

Novo calafrio num lançamento em profundidade de Agrelos, com Keita a surgir na cara de Makaridze e a falhar o desvio mesmo à boca da baliza, com um remate defeituoso que permitiu a defesa do guarda-redes sadino. O Vitória estava cada vez mais recuado, numa altura em que o Portimonense já vencia o Aves e colocava a permanência dos sadinos em risco.

Lito Vidigal apostava, agora, claramente todas as cartas na defesa do magro resultado, juntando, além de Pirri, também João Meira ao centro da defesa. Curiosamente, Petit acabou por trocar os três centrais que começaram o jogo, mas o Belenenses, tirando os calafrios já referidos, não voltou a incomodar muito mais e os minutos foram correndo céleres para o final ao som das buzinas e tambores que se ouviam no exterior do estádio.

O Vitória sofria por todos os poros mas, já em tempo de compensação, Pirri acabou com todas as dúvidas. Um golo que, em primeira instância, foi prontamente anulado por Artur Soares Dias, mas que depois acabou por ser validado pelo VAR. Um golo que resultou de uma transição rápida do Vitória, com o defesa a percorrer praticamente todo o campo, com Carinhos a fazer um compasso de espera, antes de o lançar para o segundo golo.

O jogo ainda não tinha acabado, mas em campo todos os jogadores trocavam abraços.

O Vitória, que só tinha vencido na primeira jornada da segunda volta, em Tondela, voltou a vencer na última, quando mais precisava.

Ricardo Gouveia / Estádio do Bonfim