Miguel Ângelo da Silva Rocha, Xeka no mundo do futebol. Aos 26 anos, o jogador formado no Paços de Ferreira e no Gondomar – e com uma curta passagem pelo Valência – é uma das caras que luta para dar o Lille o quarto título francês da história, dez anos depois do último.

Em entrevista ao Maisfutebol, Xeka assume que está no melhor momento da carreira e fala da ambição de representar a Seleção Nacional, o que, na sua ótica, já podia ter acontecido.

Já muito experimentado no futebol gaulês, o médio luso fala também do Lille, sensacional líder da Ligue 1 a seis jornadas do fim, dos portugueses com quem cruza ou já cruzou caminho, e até da curta experiência com Marcelo Bielsa.

Nesta conversa via zoom, ou não estivéssemos a meio de uma pandemia, Xeka recorda ainda os tempos do Sp. Braga e rasga de elogios um dos treinadores mais importantes da sua carreira: Abel.

--

PARTE I: Xeka: «Sinceramente, já esperava uma oportunidade na Seleção»

PARTE II: «Período com Bielsa foi muito difícil, percebi que não ia jogar»

PARTE IV: «Aprendi mais com Abel em dois meses do que nos três anos anteriores»

--

Em relação a esta época, o Lille foi durante muito tempo líder isolado, agora na última jornada foram igualados pelo todo poderoso PSG [entrevista foi feita antes do jogo com o PSG, a 3 de abril, em que o Lille recuperou o primeiro lugar de forma isolada]. Isso abala-vos de alguma maneira?

Nós temos o nosso objetivo bem traçado, que é continuar o mesmo trabalho que temos feito até ao momento. As coisas fazem-se no fim. É difícil, era um jogo menos difícil, acabámos por perder, coisa que não estávamos à espera. Mas temos de saber lidar com essas situações. Sabemos que vamos jogar contra eles e para mostrar as nossas qualidades, independentemente do valor do PSG. Não estávamos em primeiro lugar se não tivéssemos mostrado o nosso futebol. Foi uma espécie de wake up call, vai ajudar-nos a perceber que todos os jogos serão difíceis. Tudo pode acontecer. Da mesma maneira que aconteceu connosco, eles também podem olhar para nós como uma equipa teoricamente mais fácil, e nós podemos chegar a casa deles e surpreendermos de uma forma positiva. Mas se isso acontecer não ficaremos surpreendidos, porque temos noção do nosso futebol e das nossas qualidades e sabemos que podemos ter equipa para derrotar qualquer adversário no nosso campeonato.

Mas entre vocês o título é um tema que é falado? Ou ainda não pensam nisso?

Nós não damos muita importância ao que vai acontecer no futuro, pensamos no próximo jogo. Sabemos que se ganharmos voltamos a ficar isolados em primeiro, muita gente pode dizer que aí podemos assumir que seremos campeões, mas não vejo por aí, ficam ainda a faltar sete jogos e tudo pode acontecer no futebol. Esta mentalidade é a mais correta, temos de pensar jogo a jogo. No final faremos as contas.

Para quem está de fora, o projeto do Lille parece muito bem pensado e é muito por isso que o clube tem tido sucesso recentemente. Também sente isso?

Sim, sem dúvida. O projeto já vem de 2017. Houve um percalço na altura com o Bielsa, o que não ajudou muito a equipa, mas foi uma aprendizagem. Mas a partir de 2018, o Lille foi das melhores surpresas a nível europeu teve e isso deve-se inteiramente ao projeto, que foi bem delineado, na altura sobretudo pelo Luís Campos e pelo presidente. O que está a acontecer hoje é fruto de um trabalho contínuo de há cinco anos.

O facto de a equipa ter tido sempre vários portugueses – Éder, Rony Lopes, Edgar Ié, José Fonte, Renato Sanches... –, também é uma parte importante do sucesso do clube?

Todos os jogadores são uma parte importante do sucesso do clube. Quando chega um português tentamos sempre integrá-lo da melhor forma, para que mostrem as suas qualidades. No final o importante é a performance individual e coletiva, e nós temos de fazer tudo para que isso se demonstre o mais possível. Temos de trabalhar em conjunto, pouco importa se jogam mais portugueses ou mais franceses, ou o que seja, o importante é a equipa e gostamos de ter todos os jogadores disponíveis a 100 por cento para que o treinador possa tomar as melhores opções para conseguirmos a vitória em todos os jogos.

Falando agora especificamente do José Fonte, é um jogador que tem um trajeto muito particular. Só se estreou na Seleção Nacional aos 30 anos e aos 37 é capitão do Lille. Como se explica a longevidade dele? É um exemplo para si?

Claramente que é um exemplo, não só para mim, mas para toda a gente. O Fonte é um profissional exemplar, não conheci ao longo da minha carreira muitos jogadores que sejam assim tão exemplares como ele. É muito rigoroso, trabalha todos os dias e isso inspira os colegas de equipa, porque o facto de vermos um jogador que consegue estar no topo de forma física aos 37 anos faz com que nós, os mais jovens, pensemos: ‘Fogo, ele tem de dedicar-se a 200 por cento para estar assim’. Não é capitão por acaso, é um exemplo, dentro e fora do campo, e estamos muito contentes por tê-lo connosco. É um líder que nos mostra o caminho. O que queremos é evoluir e aprender com ele. É um motivo de orgulho para os portugueses também, e é um orgulho poder lidar como uma pessoa como o Fonte.

Xeka a falar com José Fonte durante um jogo

Depois há o Renato, um jovem que apareceu no Benfica muito de repente, depois teve umas épocas menos positivas, mas agora parece ter recuperado o melhor nível no Lille. Ainda vai a tempo de cumprir tudo o que prometeu?

O Renato é muito novo, tem 23 anos, e é outro jogador que é um profissional exemplar. Acho que o Fonte já tinha falado disso. O Renato está dentro da mesma gama do Fonte, é um exemplo em termos de trabalho e rigor, está sempre pronto para ir à luta. Fora todas as suas qualidades futebolísticas, que não se põem em casa. Pode ter tido alguns azares na carreira até ao momento, mas vejo o Renato ao mais alto nível não muito longe do momento em que estamos. Quando joga com regularidade demonstra verdadeiramente quem é o Renato Sanches que conhecemos, do Europeu. No que ele pode controlar, que é o trabalho que faz, é exemplar e de alto nível.

Xeka cumprimenta Renato Sanches (fonte: twitter Lille)
Rafael Vaz