Rui Miguel Tovar está no Maisfutebol com a rubrica LOAD " " ENTER. Para ler todas as semanas e saborear conversas por vezes improváveis com as principais figuras do futebol. Já sabe, basta escrever LOAD " " ENTER para entrar neste mundo maravilhoso de Rui Miguel Tovar.

Top 3 de figuras futebolísticas ideais para passar a quarentena. Então, porquê? Porquê?, essa é boa. Dou-vos duas ordem de razões (como diz a malta): o número ilimitado de histórias do ‘eu’ e a graça do contar essas mesmas histórias. Repito-me: top 5 de figuras futebolísticas ideais para passar a quarentena? Então, é top 3 ou top 5? Olhem, fazemos assim, top 10 e não se fala mais disso: Futre, Jaime Pacheco, Carlos Manuel, Diamantino, Quaresma, Fernando Mendes, Jokanovic, Inácio, Queiroz e Neno. Ai mete guarda-redes? Então inclua-se um 11. Pronto, está bem: Octávio Machado.

É que Octávio reúne tudo e mais alguma coisa ao longo de quase meio século de futebol, sempre em cima do acontecimento, seja como internacional português pelo Vitória e Porto, seja como adjunto do Porto, seja como treinador principal do Sporting. Uma quarentena voluntária ou obrigatória com Octávio até seria pouco para o manancial de histórias. A nossa ideia inicial, pré COVID-19, até é falar dos tempos gloriosos do Vitória FC na Europa dos anos 70. Só que durante a viagem de comboio entre Entrecampos e Palmela, toma lá morangos. Que é como quem diz, apanho uma fotografia de Octávio vestido à Atlético Madrid numa primeira página d’A Bola. Whaaaaaaaaaaat? Octávio apanha-nos à porta da estação, entramos no smart e vamos para os Bombeiros de Palmela. Fooogo.

 

Tenho aqui uma fotografia espectacular. Nem sabia desta história.

Do Atlético Madrid? Ai não sabias?

Nem ideia.

Assinei um pré-contrato em Madrid, tudo porreiro e tal.

Quando?

Verão 1975. O Luis Aragonés era o treinador e viu-me aqui ao Bonfim.

E conheceu o Luis?

Nunca. Conheci foi o Vicente Calderón, presidente do Atlético.

A sério?

Sériiiio. Assinei o pré-contrato na casa dele.

E que tal?

Uma figura carismática, e também descontraída.

E porque é que nunca jogou no Atlético?

Eles tinham dois estrangeiros, Heredia e Ayala. Queriam naturalizar um deles para permitir a minha inscrição. E queriam também que eu voltasse a Madrid para escolher casa e tal. Só que disse-lhes que, naquele momento, nem pensar.

Ahahahaha. Porquê?

Tinha sido convocado por Portugal, íamos jogar com Escócia e Chipre, um era particular e o outro para a qualificação do Euro-76. E os gajos do Atlético a insistir para que fosse a Madrid. Nã nã, nem pensar. Havia pressão, claro.

De quem?

Do Vitória FC, sempre era uma transferência por 12 milhões de pesetas. Disseram-me ‘vais para lá, escolhes casa, ambientas-te e tal.’

E o Octávio?

Sempre na minha. Nãããã, nada disso, ‘então alguma vez ia faltar à selecção?’ Não, não, não, nem pensem nisso. ‘E se vocês não resolvem isto, nunca mais cá meto os pés’.

E?

Não meti.

Nunca?

Em Madrid, no Atlético? Nunca mais. Ainda se falou nesse Verão do Saragoça. Com o mesmo ordenado do Atlético e tudo. Para quê, se não havia voos directos de Saragoça para Lisboa? É que de Madrid para Lisboa ainda havia e aí era como estar em casa. Ou quase. Agora de Saragoça? Ná ná ná, nada disso, nada feito.

E?

Esse Verão já tinha sido bem movimentado. Porque havia o Porto e o Benfica.

Interessados no Octávio?

Siiiiim, ahahahahah. O interesse do Porto já vinha do ano anterior, o do Benfica era recente. Um dia, fomos jogar à Luz e o presidente Borges Coutinho veio falar comigo. Perguntou-me se queria. Disse-lhe que sim, mas primeiro estava o Porto.

E o Sporting, nada?

Sabes que fui treinar, uma vez, ao Sporting.

Nããããã?

O César Nascimento [figura do alto no mundo sportinguista] disse-me ‘é pena, porque você está no último ano de júnior e já é sénior para o ano’. Ou seja, as possibilidades eram reduzidas.

E o Octávio, o que lhe disse?

‘Tudo bem, encantado da vida’.

Arrepiou caminho?

Fui treinar ao Benfica.

Nãããããã?

Estudava na Escola Marquês de Pombal e fui treinar com as feras, na Luz. Faltei às aulas e lá fui com os livros debaixo do braço. Equipei-me sozinho, no balneário dos minhocas.

Minhocas?

Era assim que chamavam os estagiários, vá. Ahahahahah.

E?

Nada de inibições, tudo porreiro. Chegou ao fim e disseram-me que estavam em negociações com o Praia e o Toni. Se caso alguma dessas contratações falhassem, chamavam-me. Mais uma vez, porreiro, encantado da vida e fui à minha.

Jogava onde, o Octávio?

No Palmelense. Tinha um tio todo vitoriano, dono de uma loja de electrodomésticos. Chamava-se Setupal, a junção das cidades Setúbal e Palmela. Um dia, veio cá a casa e agarra em mim para ir treinar ao Vitória. E eu a fazer uma birra.

Porquê?

Não queria pá. Jogava no Palmelense, estava bem. E fomos directos para o restaurate Reno, na Praça do Cais, onde se reuniam muitos ilustres do Vitória, como Sequeira Jorge e Francisco Nascimento.

É tudo?

Qual quê, o Vitória esteve ali a discutir com o Palmelense. Às tantas, já farto das negociações, subi as escadas e disse de minha justiça: ‘acabem lá com esse jogo do estica, deixem-me sair para o Vitória’.

E?

O Palmelense recebeu 27 contos.

No Vitória, por fim.

O treinador era o Fernando Vaz. Queria que eu crescesse mais uns centímetros e ganhasse mais uns quilos. Vai daí, pôs-me a saltar a corda em bicos de pés. Ahahahahahahah.

E o início?

Jogava na reserva do Vitória, chamada laranjinha. Ganhámos duas Taças Ribeiro dos Reis, uma delas à Académica de Manuel António, Crispim e Cª, na Tapadinha. No ano seguinte, chegou o Pedroto. Subi eu à equipa principal mais o José Mendes e o Rebelo.

Espectáculo.

O Vitória era um clube diferente e o Pedroto um treinador especial. A nossa equipa era uma máquina. Há uma cena inesquecível, com o Olhanense. Eles vieram jogar ao Bonfim para o campeonato e chegaram na véspera, como era costume. Tinham um central chamado Guaracy, lembro-me agora. Ora bem, eles queriam treinar na relva e o Pedroto ‘na relva? nem pensar, é pelado e mais nada’. Eles ficaram doidos e calhou cruzarem-se connosco no estádio, ainda na véspera do jogo. Diziam à boca cheia ‘amanhã vocês vão ver’. Coitados, sabes quantos levaram?

Diga.

Nove-zero. Ahahahahahahahah. Nós éramos uma equipa diferente, Rui. Era só nomes de selecção: Duda, Arcanjo, Jacinto João, Guerreiro, Arcanjo, Torres, José Maria, Vagner, Matine. Era um passeio, às vezes. Até na Europa. Chegámos duas vezes aos quartos-de-final final da Taça UEFA. Um dia, eliminámos o Inter de Facchetti e Mazzola. Esta história é boa.

Conte lá.

Ahahahahah. Íamos a entrar em campo, era eu o capitão. Os mais velhos a falarem-me do prémio do jogo.

Antes mesmo mesmo de entrar em campo?

Mesmo, mesmo. Ahahahahahahah. Fizeram-me a cabeça e eu fui perguntar ao Pedroto como é que era de prémio de jogo e ele ‘hein, prémio de jogo? Tu já não entras é em campo’.

Entrou?

Entrei, claro, sem discussão. E ganhámos 2-0.

Com o estádio cheio?

A única vez que o vi cheio foi com o Spartak Moscovo. Cheio, não. A abarrotar. Nunca vi o Bonfim assim. Marquei o segundo golo, com o pé esquerdo. Ganhámos 4-0.

E em Moscovo?

Foi a 1.ª mão, 0-0.

Que tal a URSS?

Restrições, muitas restrições. O médico do Vitória levou a esposa e não a deixaram estar no mesmo hotel que a equipa. Anos depois, já como adjunto do Porto, em 1987, fui a Kiev por duas semanas. Para mim, turista e estrangeiro, tudo e mais alguma coisa. Para os locais, zero. Havia hotéis para soviéticos e hotéis para estrangeiros. O próprio director desportivo do Dínamo Kiev não podia estar comigo dentro do meu hotel. E era um tipo sensacional. Ia-me buscar e levar todos os dias. Porta aberta para tudo, inclusive os treinos do Dínamo. E ainda me dava uma prenda. Todos os dias.

E o Octávio?

Só quando fomos jogar a 2.ª mão da meia-final final da Taça dos Campeões em Kiev é que tive oportunidade de lhe retribuir as prendas. Olha, o café desapareceu quase todo no primeiro dia. Também lhe dei queijos flamengos. Inteiros. Tinha era de os levar ao carro, lá fora, porque ele não podia sair do hotel com aquilo na mão.

...

Outra engraçada naquelas duas semanas de prospecção em Kiev, houve um almoço com esse director técnico e o Luciano D’Onofrio. No fim, vodca. Disse que não. Em vão. Porque tinha de beber, porque era tradição, porque isto, porque aquilo. Se não bebesse, a nossa relação não seria mais a mesma. Bom, bebamos então.

Imagino.

Bebi de penálti e veio aquele friozinho pelo corpo inteiro. Bebemos mais um e tive de ir à casa de banho, aflito. Uma empregada do hotel passou por mim e dizia para meter água na cara, ahahahahahah. Fomos para o aeroporto logo a seguir, de táxi. Tudo coberto de gelo e a malta com a cabeça de fora, ahahahahahah.

Nada de vodca no Spartak Moscovo-Vitória FC, certo?

Ahahahahahah. Zero. Nós éramos uma família. Estou a dizer-te isto de coração. Éramos uma família e não bebíamos. Não bebíamos, atenção, não bebíamos nos dias de jogo nem na véspera, só depois. Há uma história do caraças com o José Maria, hoje radicado nos EUA. Ele enchia a banheira de cerveja. Depois do jogo, bebia-as todas. O Pedroto tinha uma coisa engraçada. Uma não, muitas coisas engraçadas. Esta é só uma delas: nos dias de jogo, autorizava jarros de vinho na mesa do buffet e virava-se de costas para nós. Achas que alguém se atrevia a beber? Ninguém. Nós queríamos era ganhar, ganhar e ganhar. A jogar bem. Sempre a jogar bem.

Outras coisas engraçadas do Pedroto?

Fazíamos os torneios de Verão, fosse depois ou antes de uma época. A maioria desses torneios era em Espanha. Às vezes, havia pouco para comer. Para um atleta, digo. No primeiro dia, pollo. Tudo bem, na boa. No segundo, mais pollo. Vá, siga. No terceiro, pollo? Epá, já é demais, não? Então o que fazíamos?

Vocês, jogadores?

Siiiiim, ahahahah. Levávamos conservas. À hora do almoço, sentávamo-nos na mesa só o tempo para embrulhar o pão no guardanapo e encher um copo de água. Saíamos rapidamente, adeus mister. O Pedroto percebeu a cena. Um dia, ahahahahah, vira-se para nós: ‘arranjem-me lá umas latinhas de conserva’. Estavámos todos fartos de pollo, pollo, pollo.

Ahahahah, grande Pedroto. Davam-se com ele ou havia uma certa distância?

Distância? Nãããããã. Ele jogava dominó com a gente. O ambiente era de confiança. Absoluta. Vê bem: jogávamos aos domingos e almoçávamos no dia seguinte, com as famílias, independentemente do resultado e da deslocação. Só para veres, o núcleo dessa equipa ainda se encontra todos os meses para jantar. Não há ninguém no país que faça isso. Ainda houve um jantar na semana passada, foram 34 jogadores. De outras gerações, também. No Natal, vamos todos jantar a um hotel em Setúbal. É uma demonstração de força e união.

Uauuu.

Por essa razão, houve uma época em que não perdemos nenhum jogo em casa e houve outra em que nunca perdemos fora, as únicas duas derrotas foram com o Benfica, para a 3.ª jornada, e com a CUF, na última. O grupo era espectacular, o treinador mais ainda. E fizemos história na Europa. Os ingleses, coitados, iam sempre a andar. Foi Liverpool, foi Tottenham, foi Leeds.

O Leeds, grande Leeds?

O central era o Jack Charlton, aquele alto e desengonçado. O gajo era lixado nos cantos. E não é que o Pedroto mandou-me marcá-lo? Ahahahahah. Eu todo aflito e o Pedroto na boa: ‘não precisas de saltar, encosta-te nas pernas dele e ele nem faz o movimento’.

E então?

Era verdade, o Jack não conseguiu sequer saltar uma única vez. O Pedroto tinha coisas que só visto. Uma vez, com o Hajduk, estávamos empatados 0-0 no Bonfim. Diz para mim ‘aquece, vais jogar a ponta-de-lança’.

Ponta-de-lança?

Isso foi o que lhe disse, espantado.

E ele?

‘Só vais fazer uma coisa. Quando o José Maria arrancar, recua no terreno e tira o central do seu sítio.’ Feito. O José Maria pegava na bola perto do meio-campo e ia por ali fora, eu recuava e ganhámos 2-0. Em Split, os gajos estavam todos doidos com o José Maria, porque ele partiu a perna a um jugoslavo numa normal disputa de bola. Quanto mais eles gritavam contra ele, mais ele corria por ali fora. Perdemos, mas passámos pela regra dos golos fora. E o golo salvador foi do José Maria.

Por cá, há aquele 3-2 ao Benfica na Luz, não é?

O Benfica não perdia em casa há uma série de anos. A cinco minutos do fim, 3-0 para nós. Até marquei um dos golos. De repente, eles fazem o 3-1 de penálti. O árbitro era o Garrido e eu ‘acaba lá com isso pá’. E ele, ‘calma’. Ainda fizeram o 3-2. Não podia ficar 3-0, era um escândalo. Na semana seguinte, perdemos 2-1 em Alvalade. Ainda me lembro do título d’A Bola: 'Vitória dono da bola, Sporting dono da sorte'. Atenção, também há o reverso da medalha. Também há jogos em que levámos baile e sorrimos.

Como por exemplo?

Racing White Molenbeek, equipa de Eddy Merckx. Levámos um massacre, poxa. No último minuto, com 2-0 para eles, o central belga De Brie pára mal a bola com o peito e o Vicente pumba lá para dentro. Acontece a todos. Acabámos por passar a eliminatória. Há dias assim.

E finais da Taça de Portugal?

Que me lembre, uma. Com o Sporting, em 1973. Na semana anterior ao Jamor, ganhámos 2-0 ao Sporting no Bonfim. O Vitória acabou em terceiro, o Sporting em quinto, a pior classificação de sempre. No Jamor, o Jacinto João já estava fora de campo aos cinco minutos. O Bastos, a lateral-direito, limpou-lhe o sarampo e eu levei dois ou três jogos de castigo.

Porquê?

Estávamos no parque das viaturas, o árbitro ia para o carro e eu gritei-lhe ‘Ó Leite [Fernando leite], és um g’anda palhaço’. Levei dois, três jogos no início da época seguinte. Fomos comidos de uma maneira nessa final, tssss.

Acabaram em terceiro.

Éramos assim. Na época anterior, acabámos em segundo. E o prémio de jogo era brutal, porque subia 600 escudos por cada vitória.

E se empatassem?

Ficava na mesma. Ou seja, o empate não fazia descer o prémio. Agora vê, acumulámos uma série de 23 jogos sem perder nessa época 1972-73. Ahahahahahah. Era o mais lógico, por objectivos. É uma fórmula vencedora.

Pois é.

Quando cheguei ao Sporting, disse aos gajos ‘desculpem lá, vocês são a equipa com prémios mais elevados e não ganham nada; vamos fazer uma coisa: se ficarmos em primeiro, temos este prémio; se ficarmos em segundo, este aqui; e se formos à fase de grupos da Liga dos Campeões, este extra.’

E o plantel?

A maior prova de confiança foi eles terem aceitado tudo. O costume era o presidente chegar ao balneário durante o intervalo e aumentar o prémio. Isso não se faz. Cheguei e mudei aquilo tudo. E fomos mesmo à Liga dos Campeões.

Lembro-me, pré-eliminatória com o Beitar.

Primeira jornada da fase de grupos com o Monaco, 3-0 em Alvalade. Bela equipa: Oceano, Lang, Leandro. No final do ano passado, fui ver o Goiás-Flamengo do Brasileirão e encontrei o Paulo Nunes, que chegou a Portugal na mesma altura que o Carlos Miguel e o Leandro. Quando treinava o Sporting, entro um dia no balneário e a notícia era que o Paulo Nunes tinha sido caçado na noite e tal. O Carlos Janela vira-se para mim e diz-me ‘temos de estar calados’.

Então porquê?

‘O Carlos Miguel estava com o Paulo Nunes, mas não se sabe de nada’. E eu fiquei atravessado, então o Carlos Miguel não esteve no jogo do Monaco? Porque eu convoquei-o, apesar de lesionado. Convoquei-o à mesma para se sentir integrado, entendes?. E o Janela, ‘pois, mas ele não viu o jogo, nem sequer veio ao estádio’. Adiante. Encontro agora o Paulo Nunes, que não me conhecia de todo. ‘Tu não me conheces, pois não?’ ‘Não.’ ‘Pois eu conheço-te bem.’ ‘De onde?’ ‘Quando estavas no Benfica, era eu o treinador do Sporting.’ E ele logo de seguida: ‘Carlos Miguel, Carlos Miguel’. Ahahahahahahahah.

Ahahahahahah. O Octávio tem um golo de placa em Goiás, não tem?

Tu nem queiras saber. Os gajos do Goiás homenagearam-me, deram-me camisolas, o governador chamou-me para uma entrevista. Parecia o dono daquilo tudo.

Esse golo é pela selecção.

Foi um Brasil-Portugal transformado em Goiás-Portugal.

Como assim?

Fomos convocados para jogar com o Brasil. Quando chegámos a Goiás, percebemos que era uma selecção estadual e não a selecção brasileira.

Que desastre.

Podes crer. Disseram-nos que era a selecção brasileira e enganaram-nos. Ainda por cima, foi a meio da época desportiva. E, vê bem, Rui, estavam 40 graus. Jogar ali era como fritar na frigideira. Marquei eu o primeiro golo desse estádio, o da Serra Dourada, e o Lincoln, que tinha jogado no Belenenses, fez o empate.

Lembra-se bem desse jogo?

Passámos um calor, dassss. O governador falou durante meia-hora e a gente a estrelar ovos na cabeça.

Vocês estavam a ouvi-lo?

Ali no campo, perfilados.

E o golo do Octávio?

Saiu-me bem, um golo giro. Onde a coruja faz o ninho.

Marcou mais algum pela selecção?

Um outro, à Dinamarca, numa vitória por 4-2 em Copenhaga.

Ahhhh, já sei. Esse jogo está no youtube, a cores e tudo.

Pois está, o meu neto já me mostrou. O Murça fez dois penáltis nesse dia. Coitado do Murça, já não lhe bastava isso como ainda meteu dois autogolos em Old Trafford, com o United.

O famoso 5-2, bis de Seninho?

No segundo golo do Seninho, eu páro a bola com o peito e dou-lhe de trivela. O Seninho isola-se e faz golo.

É a noite em que o Seninho assina pelo NY Cosmos?

Pois é, eles foram ver o Oliveira e saíram com o Seninho, ahahahah.

Isso já é o Octávio no Porto. Porque é que saiu do Vitória?

Deu-se o 25 de Abril e já não havia dinheiro no Vitória. Chegaram a estar dois e três meses sem pagar os ordenados. E nós, jogadores, nada de queixar: sempre a jogar, bem, e a ganhar, bem. Repara, a gente treinava agressividade até dizer chega. Debaixo da bancada, inventávamos dois cestos de basket e aquilo valia tudo, nem querias saber: chapadas na cara que até fervia e rasteiras naquele cimento. Depois, apostávamos dinheiro nos remates à baliza, nas corridas. De repente, sai uma notícia no jornal a dizer que não recebíamos.

E?

Os dirigentes inventaram de fazer um regulamento interno. Nós não podíamos sair a 50 km de casa sem pedir autorização, não podíamos dar entrevistas sem pedir autorização. Não podíamos fazer quase nada. Para cúmulo, não nos pagavam. Como a ideia do regulamento interno era da direcção e o Pedroto não foi tido nem achado, o Pedroto pediu para sair.

Assim, sem mais nem menos?

Tinha de ser. A sua responsabilidade foi beliscada. Ainda me lembro, ahahahahahah, do dia em que ele nos reuniu para dizer de sua justiça. Todos sentados, no balneário, com a porta fechada. Aparece o Rogério de Lima e abre a porta, para ouvir tudo. Vai o Pedroto e fecha-lhe a porta. O Rogério abre, outra vez, e o Pedroto fecha, outra vez. Às tantas, o Pedroto diz-nos ‘quem quiser ouvir-me que vá para debaixo da bancada, falamos lá’. Fomos todos e o Rogério de Lima a falar sozinho ‘eu é que pago aos homes, aos homes’, ahahahahah. Ai ai.

E depois?

Mal acabou essa reunião com o Pedroto, disse a mim mesmo ‘se algum jornalistas estiver lá fora e pedir-me uma entrevista, dou’. E dei, ao Record. Os dirigentes todos atrapalhados e eu na boa. Agora não podia falar, queriam ver?!

Repito-me, e depois?

Veio o José Augusto para treinador e pagaram logo dois ou três meses de atraso mais prémios de jogo.

Voltou tudo à normalidade?

Nãããã, nada. Como não havia dinheiro, começou a não haver estágios e começámos a comer em casa dos dirigentes. Nós é que assávamos a carne e tudo. Perdemos dois jogos seguidos e os índios partiram umas janelas lá no estádio. Fomos de uma ponta à outra. Com o Pedroto era outra loiça. Ele tinha coisas.

Mais?

Dava para fazer uma entrevista só com coisas dele. Uma vez, fomos fazer um estágio aos EUA e era importante lançar dois reforços, um era o Bio, ex-Palmeiras, e o outro era o Cipó, que se fartava de marcar golos nos treinos. No primeiro jogo, fui suplente e só joguei a segunda parte. O Pedroto vira-se e diz ‘estás a fazer 45 minutos muito bons’. No jogo seguinte, com o Cerro Porteño, do Paraguai, nem estou na equipa titular. Deitei-me na marquesa e ele questionou a minha cara. Palavra puxa palavra, acabei por jogar porque alguém se lesionou. Ganhámos 4-0 e fiz uma fissura na mão. De seguida, fomos para o Canadá. Antes de um jogo, ele vira-se para mim e pergunta-me se estou bom para jogar. Sempre, respondo-lhe, com a mão engessada. ‘Ai estás? Então dá-me lá uns murros na mão.’ E dei, tau tau tau. Aquilo doía-me, mas dei-lhe forte e fui a jogo. Ahahahahahah. Outra, outra.

Conte, à vontade.

Ainda nessa digressão, ainda no Canadá. Um emigrante oferece-nos o almoço num barco, com marisco e o catano. Bar aberto e tal. Entramos todos no autocarro e o Pedroto vira-se para o motorista: ‘leve-nos a um campo de futebol’. O autocarro estacionou à frente de um. Sai o Pedroto, sai o enfermeiro, sai o adjunto e mais um ou dois jogadores.

E o resto?

Tudo a dormir, dentro do autocarro. Ahahahahahah.

E foram todos treinar?

Claaaaro, que remédio. O Pedroto deu-nos um treino, a malta a vomitar e o caraças. ‘É para aprenderem a comer’, dizia ele. Ahahahah. Aprendia-se assim.

Apanhou o Pedroto no Porto?

Apanhei, sim. Mas quando cheguei às Antas, em 1975, era o Stankovic.

O Porto não era campeão desde 1959.

O Porto não era nada e havia mau profissionalismo. Falavam da ponte e tal. Qual quê, eles eram maus profissionais. Gastava-se dinheiro a contratar craques como Flávio e Cubillas. Havia equipas competentes para lutar pelo título de campeão, só que havia muita desorganização e mau profissionalismo.

Culpa de?

O Stankovic, por exemplo, era mau demais. Se jogássemos em Lisboa, íamos de avião, almoçávamos na Churrasqueira do Campo Grande e enchíamos as garrafas de sumol com vinho branco. O Stankovic só dizia ‘bebe-se muito Sumol’. Depois, o Stankovic tinha métodos inexplicáveis como 40 minutos a subir e a descer bancadas. Nos remates à baliza, tínhamos de partir do meio-campo e rematar à entrada da área. Se a bola fosse ao lado ou por cima, tínhamos de ir buscar a bola e voltar ao meio-campo. Era de doidos.

Mesmo.

Um dia, o Cubillas passou-se. Saiu de um treino a meio, estávamos a subir e a descer as escadas das bancadas. O Stankovic a dizer-lhe ‘come on, come on’ e o Cubillas ‘come on, nada, acabou o treino’. E acabou mesmo. Outra dele. Como o Stankovic tinha sido internacional jugoslavo umas 60 vezes, era bom de bola. Nos remates à baliza para treinar os guarda-redes, ele metia de bico E metia bem, claro. Sabia o que fazia. O Tibi chamava-lhe tudo. Filho da puta e tudo isso.

E o Stankovic?

‘Eu perceber’. E o Tibi, ‘percebes é o c*******’. Também havia coisas inexplicáveis dentro do balneário. Aquilo não era para mim e o Rui, guarda-redes do Porto, é que me impediu de sair do Porto naqueles primeiros tempos. O Rui e também um dirigente chamado Alfredo Borges, que me levou a passear. Estava passado. Nos treinos, a malta agredia gratuitamente os reforços. Levávamos pancada até mais não. Malta que, depois, nos jogos, não fazia nada aquilo, não exercia aqueles níveis de agressividade. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Vinha eu do bife do lombo em Setúbal para levar com aquilo nas Antas? Nããããã, não aguentava.

Qual era a solução?

A meio da época 1975-76, sai o Stankovic, por maus resultados, e entra o Monteiro da Costa, um histórico do Porto. No Verão de 1976, o Porto contrata Pedroto. Que chega com o professor Cunha. Tudo começou a mudar.

Porquê?

O Pedroto impunha respeito e disciplina, com futebol ordenado e bons resultados à mistura. A malta tinha um medo dele que se pelava. Uma vez, falhei o jogo com o Benfica, por gripe. Fui para a bancada e vieram dizer-me que um jogador disse aos outros que ganhavam sem mim, que eu não fazia falta naquele dia.

Qual jogador?

O Rodolfo [Reis]. Bem, nem queiras saber, o Pedroto meteu-o na ordem. E quando fazia isso, era remédio santo. A sua primeira decisão foi acabar com o bar nas Antas.

O bar?

Entrávamos no estádio, o nosso balneário era à direita e o bar à esquerda. As pessoas que frequentavam o bar ouviam tudo o que se dizia no balneário. O Pedroto fechou o bar, os velhotes todos ficaram torcidos. Nem imaginas, ahahahah. Tinham de ir ao bar da piscina, a uns bons 400 metros. Um dia...

Isso é outra história?

É, pois. Um dia, perdemos 6-1 com o AEK em Atenas para a UEFA. O González, um paraguaio ex-Belenenses, não jogou em Atenas e começou a cantar ‘as meninas de Atenas’ no balneário. O Pedroto estava a entrar, ouviu aquilo e o Gonzalez nunca mais jogou. Fui à final de Basileia [em 1984 vs Juventus], como convidado. E digo-te, sem desprimor do António Morais: se o Pedroto estivesse lá, o resultado teria sido outro. Fui ao hotel na véspera e nem calculas as discussões entre os jogadores com os dinheiros oferecidos pelas empresas das chuteiras.

Como é que foi em 1987?

Primeiro, todos os equipamentos utilizados nos últimos 15 dias têm de ser usados nas finais, seja em Viena como em Tóquio. Tóquio, queres saber esta?

Claro.

A Puma patrocinava o Peñarol e também o Gomes, nosso capitão. Cheguei ao pé do Ivic e disse-lhe que havia um vendedor da Puma dentro do hotel a incomodar os jogadores com propostas disto e daquilo. Bem, o Ivic subiu ao andar desse gajo e bateu-lhe à porta. Ele abriu e, mal se apercebeu de quem era, quis fechar. O Ivic meteu o pé.

Ahahahahahah.

Ai meteu, meteu. E disse-lhe: ‘Se vejo algum jogador do Porto a entrar neste quarto, atiro-te pela janela’. Nem queiras saber, o gajo não abria a porta a ninguém, com medo. Em Viena, tenho uma história com o Juary.

Antes do Bayern?

No dia do jogo, Rui. O nosso hotel era uma pirâmide, lindíssimo. E parecia que estávamos na Amazónia. De repente, vejo o Juary a descer de elevador no hall e a desaparecer. Vou atrás dele e apanho-o na sauna, sentado no bar. O barman era brasileiro. Dei-lhe uma bronca e saí de cena. À hora de almoço, o Juary vê-me e diz-me ‘você já me fodeu, não já? já foi dizer ao Artur Jorge, não já?'.

E o Octávio?

‘Não fiz queixa nenhuma, não. Isto fica entre os dois, mas se tu falhares quando o Artur Jorge te chamar, tens o destino marcado’ Não é que o gajo entra e marca o golo do título? Ahahahahahah, há coisas.

Obra do Madjer.

O Madjer, ai ai. A seguir ao golo de calcanhar, o Madjer caiu fora do campo, junto à linha lateral. ‘Aaaaai, estou a morrer’, dizia ele. Fui quem o meteu dentro do campo. Recebeu a bola do Celso ou do Eduardo Luís, correu, fintou e cruzou para o 2-1 do Juary. O Madjer, ai ai.

O Maior. Ou...?

Ma tête, ma tête, ma tête.

Que é isso?

É o Madjer.

A queixar-se?

Ahahahahahahah. Saiu o Artur Jorge e entrou o Ivic.

Correcto e afirmativo.

De repente, o Porto parecia os Globetrotters. Um torneio em Amesterdão, o Mundialito em Milão, o Joan Gamper em Barcelona e a apresentação do Inter em Rimini. O Ivic, velho sabido, dizia aos jogadores ‘meus amigos, não há sprints para ninguém, é só tocar a bola’. Primeiro jogo é com o Ajax, 0-0. Esse jogo é engraçado, porque dão uma porrada valente ao Sousa. Ele fica estendido e o árbitro manda seguir. Quando a bola sai de campo, é canto. Eu vou lá e fico com a bola. Ahahahahah. E digo gestualmente que só recomeçamos quando virmos o estado do Sousa. Isto tudo para dizer que fizemos três ou quatro jogos de pré-época e nada de Madjer.

Como assim?

Em Itália, durante o Mundialito, o Madjer continuava ausente. Nem saía do quarto. O Domingos Gomes fala com o Ivic. ‘O Madjer tem de ir para casa, ele diz que lhe dói a tête, que vai morrer.’ E o Ivic ‘deixa mourrir, deixa mourrir, morre no quarto.’ Não ia treinar nem nada. Nem saía do quarto.

Que personagem.

Bem, o Ivic foi espiar o Vardar Skopje e eu fiquei encarregue da equipa. Lá bati à porta do quarto do Madjer. O mesmo de sempre: ma tête ma tête ma tête. Dizia-lhe ‘Madjer, não vais treinar; eles jogaram ontem, vão fazer banhos e massagens e nós vamos andar à volta do campo, hein?!’. E ele repetia-se ma tête ma tête. ‘Anda lá comigo, vamos dar uma volta. Qual é o mal? Vamos andar um bocadinho’. E ele repetia ma tête ma tête. Lá o convenci. Primeiro a andar, depois a correr. Chegamos a Barcelona para o Joan Gamper.

Espectáculo.

Caaaalma. Chegamos ao hotel em Barcelona e logo uma grande bronca. Que bronca. Recebo a lista dos quartos e vejo Delane Vieira como manager. Estava presidente em primeiro como chefe da comitiva, depois Teles Roxo e depois Delane Vieira como manager, depois Ivic, depois eu. Viro-me para o Álvaro Braga Júnior e digo-lhe ‘nem pensar, esse gajo tem de sair daí’. Ele diz-me que foi o presidente. ‘Quero lá saber, esse gajo tem de sair. Se não sair, apanho o avião e vou-me embora. Estou em Barcelona, estou perto de casa. Vais reunir toda a gente numa sala, entre jogadores, roupeiro, médico e enfermeiro, e és tu quem vai riscar o nome’.

E o Álvaro Braga Júnior?

Foi falar com os gajos, os maiores, e eu porreiro. Na reunião, o Álvaro risca o nome do Delane. Pergunta-se depois se ele toma as refeições com o resto da equipa. ‘Nem pensar, não mete lá os pés’, digo eu. E se for convidado pelo presidente? ‘É a mesma coisa, nem pensar. Temos de actuar desde o início para evitar problemas.’

E?

No primeiro jogo, o Ivic dá a tática. O Ivic era do caraças, ahahahah. ‘Senhores, há um jogador do Barcelona que tem de ser travado, ele é bom de bola e também é lento. Se lhe roubarmos a bola, o Barcelona acabou’. E acabou mesmo. Dois-um para nós. O Madjer, claro, a partir a loiça toda. Mais ainda na final, com o Bayern. Ai não, com o Bayern? O Madjer do ‘ma tête, ma tête’ partiu aquilo tudo.

Quando perguntei ‘e?’, era mais sobre o Delane?

Quieto no seu lugar. Só voltei a ter problemas com ele em Tóquio, na final da Taça Intercontinental. Chego à sala de jantar e o Delane está sentado no meu lugar. Tudo bem. Olhei e sentei-me numa mesa com adeptos, embora o Domingos Gomes e o Teles Roxo me tenham oferecido o seu lugar. Acabo de jantar e digo a quem de direito ‘isto, amanhã, não se repete; este senhor não faz parte da comitiva nem se senta aqui à mesa.’

Qual foi a resposta?

Que era convidado. ‘Ai é convidado? Os convidados sentam-se no outro lado. Eu, amanhã, quero o meu lugar.’

E?

Delane fora, mais uma vez. Chegámos ao hotel, já com a taça. No hall, é só fotografias para aqui e para ali. O presidente chama-me para tirar uma com ele e a taça. Aparece o Delane e rouba a taça. Olha que c******. Já em Portugal, ainda em clima de festa pela conquista da Taça Intercontinental, fomos jantar ao Manjar do Marquês. Numa mesa, o presidente e o Guilherme Aguiar. Numa outra, Valentim Loureiro. E o Guilherme Aguiar diz-me que o presidente está fodido. Está o quê? Dirijo-me ao Reinaldo Teles e digo-lhe ‘vou-me embora, dizem-me que o presidente esta fodido. Fodido? Ganhou tudo e ainda está fodido?’ Nessa época, o Porto ganhou tudo, só não revalidou a Taça dos Campeões porque fomos eliminados estupidamente pelo Real Madrid. Estivemos a ganhar nos dois jogos. Em Valencia, campo neutro, foi o Sousa quem atrasou mal a bola para o Mly. Nas Antas, o Llorente entrou e partiu aquilo tudo com o Barriga a lateral-esquerdo. De resto, ganhámos tudo. O Reinaldo quis acalmar-me e tal. Marcaram uma reunião e mandei-os para o etecetera. Ahahahahahahah, era o que faltava.

Como é que desatou esse nó?

No dia em que o Carlos Carvalhal assinou pelo FC Porto no Hotel Sheraton, reuni-me finalmente com o presidente e disse-lhe que não aceitava interferências de ninguém nem aceitava que aquele gajo, o Delane, provocasse problemas. Porque faz mal à equipa, porque eu não aceito nem o Ivic aceita. O presidente decide ‘então [o Delane] está proibido de entrar’. Porreiro da vida.

A sério?

Achas? Em Fevereiro, fomos jogar ao Bessa e o Teles Roxo diz-me que o presidente quer voltar ao banco de suplentes. Diz-me ele, ‘tem de sair o Octávio, porque o presidente não quer que seja eu a sair para evitar invenções e cochichos de que a direcção está mal e tal’. E eu, ‘está bem, só espero que não sejam coisas do Delane’. Estou a sair do Sheraton pela porta rotativa e quem é que vejo a entrar? O Delane. Beeeeem.

No Bessa?

Palestra no hotel e o presidente explica aos jogadores o seu regresso ao banco. Só que o Ivic não percebeu nada daquilo. Nem percebeu o regresso do presidente nem percebeu que eu já não ia para o banco. Como o Sheraton é perto do Bessa, fui a pé para o estádio, acompanhado pelo médico, enquanto os jogadores foram de autocarro, como era natural. Aquecimento e tal. No balneário, começo a desequipar-me. ‘Onde é que vai o Octávio?’, pergunta-me o Ivic. ‘Para a bancada’. E ele ‘não não, o Octávio tem de ficar ao pé de mim’. E eu, ‘Ivic, não posso, o presidente quer voltar ao banco’. E o Ivic, ‘então não vai o médico’. Ahahahahahahah. E eu, ‘é obrigatório o médico, mister’. Ele sempre intransigente, ‘eu quero o Octávio ao meu lado’. Então acalmei-o, ‘mister, mister, vou para trás da baliza’. O Ivic acalmou. ‘então está bem, quero falar com o Octávio ao intervalo’. Encantados da vida.

Ganharam?

Um-zero, golo do Rui Barros. E ainda mandámos duas ou três bolas à trave. Não sei se sabes, mas o balneário do Bessa tinha duas entradas, uma pelo campo de treinos e outra pelo lado do túnel, das duas equipas. Estou a falar com o jornalista Trindade Guedes quando ele, Delane, tenta entrar pela porta lateral. ‘eh, onde é que vais? Isto é um local sagrado, ninguém entra aqui, nem presidente nem vices nem nada’. O Delane sai porta fora. Passados uns minutos, o presidente entra pela outra porta e pede um chocolate ao Luís César, era já é uma tradição a seguir aos jogos, e o gajo entra a seguir. Meto-me à frente dele, de mãos nas algibeiras e de costas para o presidente. E o gajo diz assim [Octávio começa a falar abrasileirado] ‘presidente, temos de resolver isto’ [Octávio transforma-se em pugilista]. Tau tau tau, pumba, está resolvido.

Assim mesmo.

‘Inda os jogadores a rirem-se. O Teles Roxo doido ‘queres dar cabo desta merda toda, desestabilizas isto tudo’. Fui sentar-me. O gajo vira-se [Octávio abrasileirado] ‘isso não vai ficar assim, não’. [Octávio palmelão] Não me ameaces, porque ja te avisei para não te atravessares no meu caminho; sangro-te como um porco, ouviste? Sangro-te como um porco.’

E agora?

No dia seguinte, o presidente chamou-me. Era uma reunião com Teles Roxo, Reinaldo Teles, Álvaro Braga e eu. ‘Vamos fazer um inquérito’, diz o presidente. ‘Um inquérito, a mim?’. ‘Os acontecimentos’, responde-me ele.. ‘Quais acontecimentos, os do Bessa? Se alguém estava a mais, era ele’. ‘Então mas o Octávio não aceita que a direcção lhe faça um inquérito?’. ‘Em termos hierárquicos, aceito, mas posso dizer uma coisa?’ O presidente dá-me a palavra. ‘Quem aqui é que tem autoridade moral para me fazer um inquérito?’ Saio porta fora e o meu advogado à espera.

Uyyyyy.

Havia AG no sábado seguinte. Durante essa semana, não fui aos treinos. Sentava-me na bancada a vê-los correr e tal. Os velhotes que estavam sempre a ver os treinos começaram a olhar para mim e para aquela situação sem saber muito como a interpretar. E o Ivic a dizer do relvado para a bancada, ‘Octávio, desça, a sua família é esta, vamos ganhar, ganhar’. Isto uma semana inteiro. Na sexta-feira, véspera da AG, o presidente chama-me. Aí só estamos os dois na sala.

Mano a mano.

E ele diz-me, ‘pronto, Octávio, está tudo ultrapassado’.

Assim?

‘Presidente, acha mesmo que as coisas vão ficar na mesma?’ Diz-me ele, ‘só se o Octávio não quiser. Só lhe peço uma coisa: que defenda o FC Porto como tem defendido até aqui; não quero mais nada de si, seja igual a si próprio.’ Muito bem, estendo-lhe a mão e ele [Octávio ri-se que nem um perdido] diz-me ‘isto não pode ser assim, levanta-se e dá-me um abraço’.

Delane fora?

Nunca mais se aproximou de ninguém na era Ivic. Tentou depois, com o Carlos Alberto Silva.

A sério?

Aí começa a cena outra vez. O Carlos Alberto Silva dá duas entrevistas na pré-época. Numa, diz ‘vou ver se os meus adjuntos têm ritmo para me acompanhar’. Na outra, diz ‘faço de paus de vassoura jogadores de futebol’. Os jogadores do Porto, que faziam férias no Algarve e depois passavam por Palmela no caminho de volta para almoçar comigo, mostravam-me essas entrevistas nos jornais.

Para picá-lo?

Ah pois, metiam-se comigo. E metiam-se, e metiam-se.

E o Octávio?

Aqui em Palmela e o Carlos Alberto Silva à minha espera no Porto. Passou um dia, dois. Ele ligava-me e eu nada. Ao segundo dia, o Luís César liga-me a dizer ‘o homem está aqui há dois dias e tu nada’. E eu, ‘olha ò Luís, vou almoçar aqui e estou aí às 17/17h30. Quero falar com o presidente e diz-lhe que não quero falar com um gajo [Carlos Alberto Silva] que diz isto. Diz isso ao presidente’.

Foi asim?

Chego ao Sheraton e vou à casa de banho. Vêm ter comigo o presidente e o Reinaldo. Começamos a falar e eu digo de minha justiça. ‘ò presidente, vamos ver é se este treinador tem ritmo para esta equipa, feita de campeões europeus, nenhuns deles paus de vassoura’.

E que tal?

Disse mais, ‘só quero saber se isto foi feito para me mandar embora’. E o presidente, espeeeerto, ‘foi, foi, e se você se for embora, está a dar razão a essas pessoas’. Saio da casa de banho e está ali o Carlos Alberto Silva. Digo-lhe frontalmente, ‘não tenho prazer nenhum em conhecê-lo nem em cumprimentá-lo’.

Ai aiiiiii.

Sabes a resposta dele? ‘Você tem razão, fui um bobo, mas não é o Octávio que vai embora não. Estou há 3 dias no Porto e já deu para entender que o Octávio é património do FC Porto. Quem vai embora sou eu. Presidente, vou telefonar à mulher e vou-me embora.’

Fim da conversa?

Nãããã, qual quê. O Carlos Alberto Silva diz-me depois ‘venha jantar comigo, dê-me uma oportunidade’. E fomos jantar. Conversámos, té té té té. E quem o influenciou? O Delane. No dia seguinte, chego ao estádio com o Carlos Alberto Silva e ele continua a bater na mesma tecla. ‘Já percebi que entrei mal no futebol português e no FC Porto, dê-me uma oportunidade’. Disse-lhe que, por mim, o assunto estava encerrado. Entramos nas Antas e diz-me o roupeiro Brandão, ‘o Delane andou com ele aí dentro, diz que quer tirar a ardósia do balneário e ainda meter um picador’.

Picador?

Um relógio de ponto para os jogadores entrarem e saírem. Disse ao Carlos Alberto Silva que isso não fazia sentido porque os jogadores não se atrasavam, que eram responsáveis. ‘Então não chegam atrasados?’ perguntou-me, espantado. ‘Aqui, nada’ respondi-lhe. ‘Então, como fazem com um furo ou assim?’. ‘Isso é um caso expecional, aí falam comigo ou com alguém do corpo técnico’. Resumo: não houve picador nem merda nenhuma.

...

Já viste bem? Já viste as lutas que um gajo tem de ter. Agora escuta, escuuuta o que se passou a seguir.

Há mais, é isso?

O Lucescu era para ser o treinador do FC Porto. Antes da nomeação do Carlos Alberto Silva, quero dizer. Só que o Brescia não libertou o Lucescu. A meio do casamento do Vítor Baía, o Reinaldo ligou-me. Que era uma emergência, para falar com o presidente. Epá, estava no casamento. Não podia, nem queria. É um momento especial. O Reinaldo passou o telefone ao presidente e ele disse-me que estava em casa à minha espera, quando chegasse do casamento.

E foi?

A conversa foi rápida. Disse-me ele, ‘já sei que o Octávio não quer ser treinador principal, mas preciso de si e o Lucescu está na Póvoa de Varzim com o Hernâni Gonçalves’. Nessa altura, o Brescia ainda não se tinha manifestado. Quando o fez, o FC Porto teve de procurar outro treinador.

Quem?

Há um dia em que sai na primeira página d’A Bola: ‘Carlos Alberto Parreira, treinador do FC Porto’. Fomos para o Hotel Altis, onde estava o Parreira. Diz-me o presidente, só temos dois brasileiros e nenhum deles conhece o quadro competivivo da Europa, a única é que o Carlos Alberto Silva não traz equipa técnica’.

E o Parreira trazia?

Continua o presidente, ‘o Parreira tem uma equipa técnica, mas o Octávio é o meu homem’.

E o Octávio?

Disse-lhe que não, que o Octávio não treina com um treinador com equipa técnica. Se o Parreira vier, serei um peso a mais, não me vou sentir bem. Serei sempre aquilo que não quero ser, um pólo desestabilizador. E o presidente, ‘não pense nisso’. E eu, ‘com equipa técnica, não fico’. Convidou-me para jantar e lá fomos. Nas férias de Verão, encontro o Reinaldo e pergunto-lhe pelo Parreira. Diz-me que não, que é o Carlos Alberto Silva. Ah bom.

Carlos Alberto Silva, dois anos no Porto, dois títulos de campeão

Espera, ouve esta. É preciso planificar a época. Tenho o Luís César à minha frente e peço-lhe o calendário. Digo só isto, ‘se quisermos chegar ao fim com capacidade para discutir o título, porque vamos a Alvalade e à Luz na segunda volta, tenho que organizar as viagens logísticas nas dez primeiras jornadas, porque vamos a Chaves, Faro e Madeira antes de jogos europeus.’

Isso quer dizer o quê?

Só jogamos às 3 da tarde, nada de 8 da noite. Pergunto ao presidente se queria jogadores na noite, a chegar tarde a casa e a jantar qualquer coisa? É que se jogássemos à noite, íamos chegar a casa às tantas da noite. Não, não podia haver alterações do calendário por causa da televisão. Tínhamos de estar limpinhos para dar cabo dos gajos no último terço do campeonato. Sabes o que aconteceu?

Nem ideia.

Alteraram o jogo da Madeira para as 8 da noite. Fiquei doido. Para cúmulo, perdemos. Para cúmulo mais ainda, nevoeiro no porto. O Pintinho queria fazer levantar o avião de qualquer maneira, ahahahahahah. Em vão. Tivemos de ir para Lisboa, onde chegámos às 5 da manhã. E depois fomos de autocarro para o Porto. Fomos, não. Os jogadores foram de autocarro, eu apanhei um táxi e fui para Palmela. Nem fui depois ao jogo seguinte, em Malta, para a Taça das Taças.

Uyyyyy, a sério?

A sériooooooo. Ahahahahahah. O Carlos Alberto Silva estava doido. Quando chegou a Malta, disse só isto ‘a equipa está aqui, mas o coração está em Portugal’. Pensei para mim, bem, isto está a correr bem. O FC Porto joga em Malta e regressa a casa. Na 6.ª feira, vou ao hotel e está o Reinaldo. Pergunto-lhe ‘como é que é, já mudámos as horas dos jogos?’ Ele diz-me que tenho de falar com o presidente.

E o Octávio?

Falar com o presidente, eeeeuuuu? Ainda me abre a porta o José Caldeira e dou-lhe um murro. Tu queres isso?’

O José Caldeira?

Sim, o irmão do Adelino. Como eu e o Reinaldo opusemo-nos à sua entrada na estrutura do FC Porto, o Pintinho nomeou-o secretário.

Secretário de quem?

Dele, do Pintinho. E eu insisti junto do Reinaldo, ‘tu queres ver isso? queres que dê um murro no Caldeira? Se o vejo, leva com ele. Eu só quero ganhar, mais nada. Percebe isso, Reinaldo’

Resumo da história.

Fomos campeões nacionais com 10 pontos de avanço. Agora meus senhores, até amanhã se Deus quiser e saí de cena.

É o ano do 3-2 na Luz.

É o primeiro ano do Carlos Alberto Silva. No ano seguinte, o porco do Inácio vê o nome dele nos jornais como adjunto provável do FC Porto e vem ter comigo. ‘Octávio, não sou que te vou substitutir’. E eu, ‘Deus queira que sejas tu, um gajo da casa, porque o FC Porto só contratou treinadores sem equipa técnica nos úlltimos tempos.’

Seguiu-se o Inácio ou...?

Sim, foi ele o nomeado. E a primeira coisa que faz é morder-me os colhões. Em resposta, dou uma entrevista e digo que ‘um burro de óculos e livros debaixo do braço não é um doutor’. Ahahahahahah.

E o Inácio?

Teve de se calar, senão eu... ai ai.

E depois?

Já chegava de lutas. Entretanto, há uma festa de homenagem ao Pinto da Costa, na Exponor. Ahahahah. Quando lá chego, os jornalistas todos ‘o Õctávio aqui?’. O próprio presidente vê-me e pergunta ‘quando é que vai embora?’. Respondo-lhe ainda não sei, ele atira ‘amanhã passe no meu escritório que quero falar consigo’. Ainda hoje está à minha espera, ahahahah. Voltei, muito depois, mas vê bem o braço-de-ferro para ganhar campeonatos. Rui, alguém tem de se expôr em prol da instituição. Eu sabia que estava no caminho certo, em defesa do grupo, e era um grupo especial, um grupo de comandos. E tu, um oficial, não pode mostrar fraquezas, é a pior coisa que podes fazer. Tens de ter um grupo preparado constantemente para a guerra.

Guerra?

Quando o Artur Jorge sai para o Matra, fizemos um jogo particular com o Rio Ave e os jogadores encostaram-me à parede: ‘trabalhas aqui a ajudar toda a gente e não ficas como treinador principal? Tens medo de quê, de nós?’

E era?

Nada disso, era uma decisão minha. Simplesmente não queria. Nesse dia, saiu uma página inteira no JN a abrir a porta ao António Oliveira para treinador do FC Porto.

Onde é que andava o Oliveira?

Desempregado.

Quem é que entra, afinal: Ivic?

Isso, o Ivic. O Artur Jorge até me convidou para acompanhá-lo para o Matra, só que o pintinho telefonou-me e convidou-me a ir à sua empresa. Quando lá cheguei, dei com o Ivic. Pronto, fiquei agarrado. Ainda bem que foi assim. No dia seguinte, o JN, através do Hernâni Gonçalves, que conhecia a história toda, faz uma página em que diz ‘Pinto da Costa estende a passadeira azul a Octávio’.

E o Oliveira?

Ficou doido. Tinha preparado a história à sua maneira. E os jogadores a dizerem-me ‘a gente morre por ti’.