Mais longe e mais alto é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

São 9h30 da manhã de segunda-feira, hora combinada para a entrevista. A jornalista liga e do lado de lá responde uma voz… ensonada talvez? «Não, não estava a dormir. Já fui treinar às 7 horas. Estou só um pouco cansado», conta Braima Dabó.

E com razão. Há um mês que a vida do atleta guineense, que vive em Portugal há oito anos, deu uma volta que não esperava e o que menos tem tido é tempo para descansar. A 23 de setembro partiu para Doha, no Qatar, para representar o seu país nos Mundiais de Atletismo. Não trouxe as medalhas, nem ouviu tocar o hino no topo do pódio, mas o seu feito foi falado em todo o mundo e regressou a casa como um campeão, o campeão do fair play, apenas (!!) por ter sido quem genuinamente é.

A imagem de Braima Dabó, a perceber que Jonathan Busby, de Aruba, estava em evidentes dificuldades físicas, quase a desfalecer em plena pista, e a carregá-lo até à meta, perante uma estrondosa ovação do público do Estádio Internacional Khalifa (tantas vezes pouco entusiasta nestes Mundiais), foi como um fósforo nos media e nas redes sociais.

 

É o lado mais bonito do desporto. O momento em que os valores humanos se colocam à frente dos tempos, dos recordes, dos egos... A história que todos gostamos de ver e de contar, mas que tão raramente aparece. E por isso tantos adeptos do desporto, jornalistas, e até alguns que nunca viram uma prova de atletismo na vida, vibraram com aquelas centenas de metros percorridos. E é também por isso que Braima Dabó é esta semana o protagonista desta rubrica.

Desde que terminou aquela prova, Braima Dabó tem sido o protagonista muitas vezes. As entrevistas começaram logo de imediato, continuaram nos dias em que esteve no Qatar e sucedem-se desde que chegou a Portugal, como por exemplo aquela que pode ver no vídeo acima.

Não lhe passou pela cabeça naquele momento que o seu gesto teria toda esta repercussão, pois não? «Não, não», garante. «Estou surpreendido porque pensei que fosse uma coisa temporária, que passaria no dia seguinte, porque o que eu fiz é uma coisa perfeitamente normal», diz o atleta do Maia Atlético Clube, adiantando: «Mas estou grato por este reconhecimento que as pessoas me têm dado.»

«Quando falei com os meus amigos em Portugal, eles disseram-me que eu não tinha a noção do que tinha acabado de acontecer, que isto iria gerar um grande impacto na sociedade e disseram-me para ter calma e paciência porque os dias iriam ser um pouco mais complicados, no bom sentido», conta a rir.

Talvez nem os amigos tenham imaginado a dimensão do impacto. Nos dias que se seguiram, Braima Dabó foi nomeado para o Prémio Fair Play pela Federação Internacional de Atletismo, recebeu um voto de Louvor do Instituto Politécnico de Bragança, onde estuda, e foi nomeado embaixador honorário da boa-vontade pela primeira-ministra de Aruba.

Braima veio para Portugal há oito anos, pela mão da ONG «Na Rota dos Povos», que trouxe um grupo de estudantes de Catió, Guiné-Bissau, para estudarem na Escola Secundária de Carvalhais, em Mirandela.

A família continua no país natal, incluindo os nove irmãos (mais novos e mais velhos do que ele), mas não está alheia a este momento que o jovem está a viver. «Eles têm acompanhado lá através das notícias, da rádio, e os meus irmãos pelo Facebook.»

«Estão orgulhosos, mas teriam estranhado se eu não tivesse tido este comportamento, ficariam preocupados. Diriam: ‘Não estamos a reconhecer ali o nosso Braima’», conta. E o mesmo têm dito os amigos e a família de coração que o acolheu em Portugal, em diversas entrevistas, que este é o autêntico Braima.

Por várias vezes o atleta disse que, no seu lugar, qualquer pessoa faria o mesmo, mas, até pelas reações ao seu gesto, já terá percebido que não seriam muitos a ter esta atitude. «Eu ainda continuo a achar isso. Não conseguiria deixá-lo. O que posso dizer, porque agora não podemos voltar atrás e testar isso, é que acredito que há pessoas que são capazes de ajudar quem precisa.»

Braima Dabó e Jonathan Busby (AP Photo/Morry Gash)

Tanto Braima Dabó como Jonathan Busby estavam a participar nos 5000 metros a convite, ou seja, não tinham feito os mínimos de apuramento. O atleta guineense seguia em último, com o de Aruba já com algum avanço, quando este se deixou apanhar devido às dificuldades físicas. Braima, em vez de ter visto ali uma oportunidade de não ser o último a cruzar a meta, reconheceu alguém com o mesmo sonho e a lutar para o conseguir.

«Todos os atletas, quando vão para uma prova, fazem uma grande preparação, e depois têm só um dia para a competição. E nesse dia podem estar bem, ou não, ou podem começar bem e terminar mal. Interessa é fazer o mínimo, que é terminar a prova». Por isso resolveu ajudá-lo, mesmo tendo deixado de cumprir um dos seus objetivos.

«Em primeiro lugar eu queria representar o melhor possível o meu país, depois vinha o objetivo de bater o meu recorde pessoal e, se fosse possível, bater o recorde da Guiné», conta Braima.

«Nas últimas duas, três voltas, já estava em grande desgaste e sofrimento, e pensei que não iria conseguir bater o meu recorde pessoal. Só depois é que os meus amigos me disseram: ‘por acaso ainda estavas dentro do teu recorde’. Mas isso não faz nenhuma diferença. A partir do momento em que o vi em dificuldades, não estive lá a pensar se batia o recorde ou não», garante.

Estes foram os primeiros Mundiais de Braima, e logo num ambiente particularmente desafiador, quer pelo clima, quer pelo facto de ter ido sozinho e não dominar muito bem o inglês, para poder comunicar.

«Estava muito calor e muita humidade. Na pista ainda havia o ar condicionado, mas na zona de aquecimento não», explica, acrescentando: «E foi a primeira vez que corri com ar condicionado no estádio.»

«Foi uma experiência bastante enriquecedora e agora tenho que trabalhar para melhorar o meu inglês», remata.

Braima conta ainda que o convite da Federação de Atletismo foi uma surpresa. «No início até me custou a acreditar porque eu não tinha os mínimos. Mas eles disseram-me que, como a Guiné-Bissau não tinha nenhum atleta com os mínimos, iriam escolher o melhor atleta que têm. Falei com o meu treinador e ele disse: vamos agarrar a oportunidade e vamos à luta. E assim fizemos.»

«Os meus pais ficaram todos orgulhosos quando lhes disse que ia aos mundiais e eu também porque quem corre gosta de representar o seu país ao mais alto nível. Foi um enorme orgulho ter a bandeira da Guiné-Bissau no peito e representar o meu país. Foi um sonho que acabou por aparecer mais cedo, mas vamos continuar a trabalhar para eu poder entrar nas grandes competições internacionais com as minhas marcas», promete.

O atletismo ainda é uma coisa nova na vida de Braima. «Na Guiné-Bissau não tinha aulas de educação física porque morava longe da escola. Ia todos os dias a pé, fazia cinco quilómetros para cada lado.»

Em Portugal começou a correr nas aulas de educação física e a participar nos corta-matos escolares. «Depois disse aos meus responsáveis cá que queria participar na meia maratona do Porto. Então comecei a ir de vez em quando, aos fins de semana, participar no programa de corridas e caminhadas da Federação Portuguesa de Atletismo, no Parque da Cidade, no Porto», recorda.

«Acabei por fazer amigos, criámos ali um grupo, e depois fizemos essa meia maratona e correu perfeitamente. Esses amigos começaram a incentivar-me: ‘Se te empenhares, és capaz de evoluir e poder sonhar’», conta. Foi há cinco anos e ainda não parou de correr e de sonhar.

Com o fim do ensino secundário, mudou-se para Bragança, onde está a fazer a licenciatura em Gestão. «Treino durante a semana em Bragança e ao fim-de-semana vou para o Porto para treinar.» Pelo meio ainda arranja algum tempo para ajudar os voluntários da ONG que o trouxe para Portugal. E mesmo com o recente corrupio de entrevistas, já participou em algumas provas desde que regressou a Portugal.

Mas o que o levou ao atletismo? «Comecei a correr por gosto, porque me sentia livre. Por exemplo agora, enquanto estamos a falar, se calhar já comecei a pensar em coisas que tenho para fazer, mas quando corres ficas concentrado só naquilo. No ritmo que estás a fazer, nos passos, não pensas noutra coisa. Isso faz-me ficar tranquilo.»

«Quis juntar o útil ao agradável porque acho que só podemos ser felizes quando estamos a fazer algo de que gostamos», conta Braima, falando depois dos planos para o futuro.

«Agora vou terminar o curso, vou regressar à Guiné-Bissau e vou lá passar uns tempos com a família e os amigos e depois não sei muito bem se volto para fazer mestrado ou se vou ficar já lá, se conseguir trabalho.»

E gostava de trabalhar em que área? «Na Guiné há muitas áreas ainda para explorar, mas quando lá estiver vou aproveitar para ver como está a realidade porque eu nasci e cresci lá, mas passaram oito anos e certas coisas mudaram. Mesmo vendo as informações na internet, não é comparável a estar lá.»

«O que eu quero é vir a encontrar um trabalho que me permita também fazer os meus treinos e continuar a competir», acrescenta.

 

Braima explica como foi a adaptação a Portugal daquele menino que chegou cá com 18 anos. «Saí da minha terra e vim à procura de conhecimento e quando cheguei encontrei uma realidade muito diferente da minha.»

«Aqui há uma cultura diferente, também por causa do clima. Lá, na minha zona, na pouca capacidade que as pessoas têm, vão fazendo algumas obras de maneira a poderem viver melhor. Por exemplo, as casas de banho são à parte da casa, a cozinha também fica numa casinha ao lado. Almoçamos numa varanda ou debaixo de uma mangueira, jantamos na rua a apanhar o ar fresco... Aqui vive-se mais dentro das casas. Passa-se mais tempo dentro», conta.

«No início tive um bocadinho de dificuldade por causa do frio porque chegámos [ele os outros jovens que vieram de Catió] em setembro e já aqui estava a começar a ficar frio, mas tive várias pessoas que me acolheram, que me deram apoio, que me ajudaram no que foi preciso», ressalva.

«Com os professores, na Escola Secundária de Carvalhais, tivemos de trabalhar muito nas aulas de apoio, ao nível do português e matemática e outras áreas, para podermos depois acompanhar as matérias das aulas. As pessoas da Rota dos Povos, os meus padrinhos, todos me ajudaram e estiveram lá para puxar as orelhas para eu estudar e poder concretizar os meus sonhos.»

«E depois de oito anos sem ir a casa, arrepende-se de ter vindo?» A resposta é peremtória: «Não, não, não, não.»

«Aliás, nós viemos para fazer um curso profissional que duraria três anos, depois a ONG teve a proposta de nós fazermos um CTeSP (Curso Técnico Superior Profissional) no Instituto Politécnico de Bragança, com a duração de um ano e eu falei com os meus pais e eles disseram: ‘É apenas mais um ano e ficas com formação superior’. E eu também pensei: ‘É só um ano, passa rápido’. Mas depois vieram mais três anos para a licenciatura, que acabaram por ser quatro», conta.

«Estou muito orgulhoso e grato por este apoio. Cresci muito estes anos para poder chegar onde estou agora. Valeu a pena tudo isto», assegura.

Mas tem muitas saudades de casa. «Isso é verdade… O abraço do pai, o colo da mãe, a comida da mãe. Estar com os amigos, passear…»

«Quando éramos adolescentes íamos sempre, em noites de lua cheia, para uma zona de alcatrão. Durante o dia, dava lá o sol e ficava mesmo quentinho. E à noite deitávamo-nos lá a ver as estrelas… era brutal… brincávamos bastante. Quero poder voltar e estar com os meus amigos e reviver esses tempos.»

E o regresso está mesmo para breve, preso apenas pela conclusão de três cadeiras da faculdade.