Mais longe e mais alto é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

Bernardo e Leonardo Martins ou Bê e Léo Martins, como são mais conhecidos, estão há apenas oito anos no futebol de praia, mas já ganharam tudo o que havia para ganhar, quer a nível de seleção, quer a nível de clubes.

Os gémeos luso-brasileiros, que espalham talento pelas areias com as camisolas da Seleção Nacional e do Sp. Braga, contaram ao Maisfutebol que chegaram à modalidade para manterem a forma e confessam que no início até nem tinham muito jeito, mas rapidamente o apanharam. O passaporte português abriu as portas para um mundial de clubes e, desde aí, nunca mais pararam.

Desde a infância que a bola é companheira de Bê e Leo, que a viam como tendo um papel preponderante no futuro profissional, só não esperavam que envolvesse areia. «Era o que nós fazíamos e amávamos desde pequeninos. Não nos imaginávamos a fazer outra coisa», contam.

Nascidos no Rio de Janeiro, foi em Belo Horizonte, Minas Gerais, que começaram a jogar. Primeiro futsal, depois futebol, desporto que os levou aos 18 anos para Espanha, numa passagem que durou pouco. Até que se mudaram para a praia.

Bê e Léo Martins (foto arquivo pessoal)

«Até 2011, aos 21 anos, jogávamos futebol de onze. Tínhamos acabado contrato em Espanha e voltámos para o Brasil para tentar algo lá. Enquanto não encontrávamos clube, fomos para o futebol de praia para manter a forma. Até nem tínhamos muito jeito quando começámos, mas fomos ganhando o gosto, treinando todos os dias para nos prepararmos bem e, como não chegou nenhuma proposta para o futebol, começámos a caminhada a sério no beach soccer», recordam.

«Foi preciso uma adaptação porque é diferente. No início tínhamos as dificuldades normais de conduzir a bola na areia, mas o que nos ajudou muito na adaptação foi que quando começámos havia no Brasil futebol de onze na praia. Como havia espaço, não precisávamos de estar a levantar a bola para jogar. Acabámos por nos adaptar rapidamente e tudo aconteceu de forma muito rápida para nós desde então», contam os irmãos.

Passaporte valioso e as meias calças de mulher

Começaram no Vasco da Gama, mas rapidamente se mudaram para o Flamengo e foi aí que a dupla cidadania que tinham, por terem um bisavô português, lhes começou a abrir portas. O Flamengo precisava de um jogador europeu para o mundialito de clubes de 2012, porque na altura as formações participantes tinham que ter um atleta de cada continente, e encontrou um no plantel: Bê Martins.

«O passaporte português abriu-nos as portas do futebol de praia, como já tinha feito no futebol de onze quando fomos para Espanha».

A boa prestação do atleta na prova, que levou o clube brasileiro à final frente ao Lokomotiv Moscovo, valeu a Bê uma oportunidade na Rússia. «Foi uma grande aventura, uma grande aprendizagem, mas graças a Deus deu tudo certo», recorda o jogador.

«Eu ainda não falo inglês muito bem, na altura ainda falava menos… e russo menos ainda!», contou a rir. Mas a língua até nem foi o pior. Mesmo só havendo jogos no final da primavera e no verão, foi o frio o maior obstáculo de Bê na Rússia.

«No fim de maio, início de junho, e em setembro, em que tive de jogar com 10 graus, com a areia gelada, foi muito difícil. Ainda para mais vindo do Brasil. Mal começava a ficar frio, eu jogava com manga comprida, calças, roupa térmica e até tive de jogar com as meias calças de mulher para poder tapar os pés. Não funcionava bem porque rasgava, mas eu punha duas e tentava dar um jeito… e eles na boa, tranquilos, e riam-se de mim quando eu dizia que não estava a aguentar».

Mas aguentou. Tanto que voltou no ano seguinte e até levou o irmão Léo.

Bê e Léo Martins (foto arquivo pessoal)

Da Rússia foram depois para Itália, o que obrigou a mais um afastamento. Léo foi jogar para o Milan, Bê para o Catânia. «Víamo-nos nos jogos, mas estávamos sempre separados. Estar afastados custa-nos porque nós sempre estivemos muito juntos, compartilhávamos tudo. E também fora de campo porque estávamos habituados a ter o outro. Conhecemo-nos como a ninguém, comunicamos só com o olhar, e sentíamos a falta um do outro, mas fomo-nos adaptando até porque começámos a jogar sempre separados desde aí, até chegarmos ao Sp. Braga».

E como era jogar um contra o outro? «Ah, nós tentámos sempre fugir um do outro em campo para não termos de nos bater, mas se tivermos de dividir uma bola é como com qualquer outro jogador, sem maldade, mas é cada um a defender o seu», respondeu Bê.

Os dois irmãos garantem que não têm nenhuma competição um com o outro. «Bem pelo contrário. Nós ajudamo-nos. Às vezes eu até digo: ‘Já marcaste, ajuda-me aqui, dá-me um espacinho para eu fazer golo. E ele faz igual’», contou Léo.

Chamada para Portugal e o hino aprendido em três dias

No final de 2014 chegou a chamada à Seleção Nacional. Primeiro estreou-se Bê, que até já tinha representado o Brasil num torneio no Paraguai em 2012, mas não voltou a ser convocado para a Canarinha. Com a seleção de Portugal foi para o Dubai disputar a Taça Intercontinental de futebol de praia de 2015.

A ligação familiar por parte do bisavô paterno sempre os aproximou de Portugal e quando jogavam na Europa aproveitavam para visitar o país.

«Eu senti que na seleção do Brasil não teria muito seguimento. Havia muita troca de treinadores e também tinha este desejo de coração de defender este país. Sempre acompanhámos a seleção portuguesa, tínhamos ídolos, tanto no futebol, como no futebol de praia. Madjer, Alan… sempre os acompanhámos», explicou Bê.

Bê e Léo Martins (foto arquivo pessoal)

Léo estreou-se na formação das Quinas pouco depois do irmão, depois de escolher qual a camisola que queria vestir. «O selecionador brasileiro perguntou-me se eu gostaria de ser convocado ou optaria por Portugal e eu disse que escolhia Portugal», contou, dizendo que a decisão de ambos foi tomada em conjunto com a família.

A convocatória apanhou-os um pouco de surpresa e, por isso, não estavam totalmente preparados, acabando por ser submetidos a uma espécie de praxe para aprenderem o hino nacional.

«Naquele estágio o capitão era o Bruno Torres e uma das exigências que nos fez, na brincadeira, foi que cantássemos o hino nacional todinho no terceiro dia. Já tínhamos ouvido, mas não imaginávamos que tivéssemos de o aprender a cantar em três dias. Então estávamos com os fones quando estávamos no quarto, nas reuniões, íamos almoçar de fones com o hino no ouvido. No terceiro dia, eles ajudaram um pouquinho, mas conseguimos. E agora nunca mais esquece».

Títulos e mais títulos

Foi com a camisola de Portugal, e já com o hino na ponta da língua, que viveram o ano mais dourado da carreira até agora: 2015. Foram Campeões do Mundo, e logo a seguir Campeões da Europa, e Bê trouxe ainda de Baku uma medalha de bronze nos Jogos Europeus. «Entrámos com um pé direito», contaram.

Bê e Léo Martins (foto FPF)

Se esse título mundial foi, para já, o ponto mais alto da carreira a nível de seleção, 2019 trouxe o mesmo, mas a nível de clubes, com o Sp. Braga, formação que representam desde 2015.

Em fevereiro o Sp. Braga tornou-se na primeira equipa portuguesa a vencer o Mundialito de futebol de praia, com os gémeos a terem um papel preponderante nesse título. Entre os dois marcaram sete golos (três de Bê e quatro de Léo, que bisou na final), e Bê foi mesmo distinguido como melhor jogador do torneio.

Festa do título do Sp. Braga (foto Sp. Braga)

«Já tínhamos sido quatro vezes campeões nacionais pelo Sp. Braga, duas vezes Campeões da Europa, mas este era o título que faltava. Eu já tinha sido Campeão do Mundo com o Lokomotiv Moscovo, mas este, com os companheiros de vários anos, foi muito gratificante», assegurou Bê, recordando a distinção de MVP.

«Quando recebemos uma distinção individual passa sempre um filme na nossa cabeça de todo o trabalho, dedicação, por vezes de abdicar de estar com a família, muitas vezes a treinar ao frio e depois ser distinguido numa competição como os melhores do mundo… É muito gratificante. Foi muito especial e é o coroar destes nossos anos no Sp. Braga e estou muito grato pelo que o clube e os nossos companheiros têm feito por nós», frisou o jogador.

Depois de anos a viverem no Brasil e a virem para a Europa apenas para disputar as competições, no verão, e representar a seleção, os gémeos assentaram base por cá há ano, o que os faz enfrentar um clima menos ameno nos treinos.

«No verão não sentimos muita diferença porque aqui também é calor, mas a preparação do inverno - novembro, dezembro, janeiro, fevereiro -, no frio, com temperaturas mais baixas, é o nosso maior adversário», contaram os irmãos que têm que enfrentar o vento da Póvoa de Varzim, cidade que escolheram para morar. «Mesmo quando está sol, há vento», frisam. E sabemos bem do que estão a falar.

Mesmo assim tentam pôr os pés na areia diariamente. «Sempre que podemos, vamos para a areia. Só se estiver a chover muito é que não», revelam. E encontraram uma ajuda. «Temos umas botinhas de desportos aquáticos para podermos treinar porque o contacto da areia gelada diretamente com os pés não dá não».

Bê e Léo Martins (foto arquivo pessoal)

Diferentes, mas iguais

Gémeos idênticos, garantem que agora é fácil distingui-los, até por causa das tatuagens, mas, quando usam penteado igual, levam logo com queixas dos treinadores. «Agora vai ser difícil distinguir».

Quando eram mais novos, até faziam de propósito para serem confundidos. Trocavam a roupa um com o outro, e os chapéus, para baralharem os pais e, um dia, a semelhança saiu-lhes cara num jogo de futebol nas camadas jovens.

«Eu fiz uma entrada mais dura e o árbitro deu-me amarelo, avisando logo que na próxima seria vermelho. Logo a seguir, o meu irmão fez uma falta também para cartão amarelo e o árbitro achou que era eu e deu logo amarelo e vermelho. Tentámos explicar, mas não serviu de nada. O árbitro só dizia: ‘Para fora, para fora’. Até que, logo a seguir, num canto o árbitro olhou surpreendido: ‘Mas o que estás a fazer aqui se eu já te expulsei? E tivemos que ir buscar o meu irmão e mostrar, lado a lado».

Essa confusão foi acidental, mas, anos mais tarde, os dois fizeram de propósito para enganar os companheiros na altura em que jogavam no Brasil. Bê, jogador do Botafogo, fez-se passar pelo irmão Léo, no treino do Flamengo. E não é que ninguém notou? Veja aqui a reportagem publicada na altura no Brasil.

Bê e Léo Martins (foto arquivo pessoal)

A propósito desta entrevista, os dois jogadores fazem um balanço destes oito anos de sucessos no futebol de praia. «Quando começámos, de maneira nenhuma imaginávamos ter esta história, estas conquistas. Ficamos orgulhosos porque com humildade e trabalho estamos a conquistar esses títulos», diz Léo.

E ainda há alguma coisa para ganhar? «Com certeza», exclamam. «Quanto mais se ganha, mais se quer ganhar», dizem, lembrando que este é um ano recheado de competições e títulos para disputar. «Começámos com o pé direito com o Mundial pelo Sp. Braga, viemos agora de vencer o Torneio da China, com o Léo como melhor marcador, se pudéssemos terminar com a vitória do Mundial pela Seleção, não seria mau».

Bê e Léo Martins (foto FPF)
Sara Marques