Mais longe e mais alto é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades

Em maio de 2017, Dulce Félix fez uma pausa numa carreira que já tinha mais de 20 anos. Era altura de a fundista, que começou no atletismo «muito novinha», se dedicar a uma nova fase da vida: a gravidez. Longe da competição e com o afastamento do atletismo que o corpo e a cabeça já pediam, aproveitou o tempo de gestação para recarregar energias. A paragem e os 23 quilos ganhos na gravidez não a impediram de voltar em força e, com a pequena Matilde como mais um fator de motivação, olhar para um futuro ainda cheio de metas, apesar dos 35 anos. A primeira delas: Tóquio 2020.

Falámos com a atleta do Benfica dois dias depois da meia maratona de Lisboa, prova em que Dulce conseguiu o 8.º lugar e foi a melhor portuguesa com 1:11.50. Nada mau para quem foi mãe há apenas nove meses, não é?

«Acho que foi um regresso em grande. É uma das minhas melhores marcas. Trabalhei muito para obter este resultado. Foi muito tempo afastada da competição e dos treinos, mas depois entrei a querer voltar a ser a atleta que era antes de ser mãe e treinei muito para obter este resultado», diz Dulce Félix, entusiasmada.

E é possível ser a atleta que era antes? «É óbvio que olho para o atletismo de maneira diferente porque tenho um ser que precisa e depende de mim e que vai estar sempre em primeiro lugar», admite. «Mas acho que agora consigo sofrer mais, vou buscar forças na pequenina», conta a atleta, que admite que «a vida mudou radicalmente», obrigando a uma gestão diferente do dia-a-dia.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O meu primeiro dia da “Mãe “ O melhor da vida... Feliz dia a todas as Mãe...💖💖😘

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A paixão pelo atletismo, a mesma que a fez conciliar o desporto com um trabalho de «oito horas de pé em frente a uma máquina numa fábrica de confeção», e que a levou depois a deixar a segurança desse emprego para se dedicar inteiramente ao seu sonho, mesmo contra o conselho da família – a minha mãe disse-me na altura: ‘És tola, rapariga. Então vais deixar o trabalho que é seguro por causa do atletismo?’ – também foi o motivo para ir adiando o sonho da maternidade.

«Queria ser mãe mais cedo - fui mãe já com 35 anos -, mas somos um bocadinho egoístas e pensamos mais na carreira primeiro. Nós mulheres temos que parar por causa da maternidade e estarmos algum tempo afastadas da competição, por isso pensamos duas vezes. Mas chegou o momento em que teve que ser», conta a atleta, que explica que o timming foi planeado.

«Tenho um objetivo e um sonho que é voltar a estar presente nuns Jogos Olímpicos, e os próximos são já em 2020, por isso tinha que ser mãe antes para poder fazer a preparação e conseguir chegar a Tóquio».

O medo de perder apoios e patrocínios também pesa por vezes na decisão das atletas. «Quando decidi ser mãe tinha que estar preparada para tudo», diz Dulce Félix, mas ressalva: «Quando estamos bem entregues e temos os melhores do nosso lado, eles não nos abandonam, e foi o que aconteceu», frisa a atleta, que não esquece a atitude do clube. «O Benfica esteve a 100 por cento comigo e até renovou contrato quando eu estava grávida. Isso deixou-me mais segura».

Durante a gravidez, Dulce Félix esteve afastada da competição, mas não parou totalmente. «Sempre estive no ativo. Fiz ginásio, piscina, caminhada… corri até aos quatro meses, entretanto tive que parar porque me apareceu uma dor numa perna. Mas engordei 23 quilos, o que não foi nada fácil para depois poder voltar», admite, explicando em seguida: «O nosso corpo é mesmo assim, não foi o caso de me ter baldado… foi o que teve de ser. O corpo estava habituado a correr duas vezes por dia e, de repente, parou».

Aproveitou também para se afastar do mundo que a absorve desde a adolescência. «São muitos anos dedicados à competição, só vemos atletismo, passamos muitas semanas e fins de semana fora de casa… Estava a precisar dessa descarga e estou feliz por ter conseguido isso. Desfrutei muito da minha gravidez, desfrutei os três meses com a Matilde quando ela nasceu, e só depois voltei ao ativo. Deu para recarregar baterias, que era o que estava a precisar».

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

orgulhosa pelos passos que dei, juntamente com os meus...💕💕#slbenfica #slb #adidas #goldnutrition #goldathletes “filha Matilde”

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Com o pai e a mãe atletas [o companheiro de Dulce Félix é Ricardo Ribas, maratonista olímpico] estará a pequena Matilde destinada a seguir o mesmo caminho? «Ela vai ter sempre um bichinho dentro dela porque vê o pai e a mãe a fazer desporto, e provavelmente vai querer também. Claro que gostava que ela seguisse as nossas raízes, mas ela é que vai ter de decidir, e seja qual for a decisão, estamos aqui para a apoiar», diz a atleta, embora admita que a modalidade não é fácil. «Sofremos muito».

«Agora que sou mãe, entendo a minha mãe que tantas vezes me dizia: ‘Vais treinar com esta chuva? Fica em casa.’ Para uma mãe, ver a filha sair de casa para ir correr à chuva é um bicho de sete cabeças».

Olhando para trás, Dulce Félix recorda esse caminho, desde os tempos em que trabalhava na fábrica e acordava às «6:00 da manhã para treinar, depois às 8:00 ia para o trabalho, saía às 16:00 para voltar à corrida».

«Foi duro. Chegava ao trabalho cansada e nem tinha paciência para as pessoas e na corrida também não conseguia ter o rendimento que queria. E ainda bem que decidi abandonar o trabalho. A minha carreira começou logo a evoluir de dia para dia».

O segredo? «Ter os melhores ao nosso lado. Eu posso ter talento, mas sozinha não vou a lado nenhum. Quando fui campeã da Europa tinha uma grande treinadora, a Sameiro Araújo. Tive bons clubes, começando pelo clube mais pequenino, FC Vizela, que foi o que me deu uma grande formação, passando pelo Maratona Clube de Portugal, pelo Braga, até chegar ao Benfica», diz a atleta, que confessa: «Eu, que não gosto de correr sozinha, sozinha não ia a lado nenhum».

Campeã da Europa de 10.000 metros em 2012

Os primeiros Jogos Olímpicos [Londres 2012] e a vitória nos Europeus são momentos marcantes na carreira. «Quando fui campeã da Europa em 2012 foi tudo tão rápido. Ser campeã da Europa era um sonho. Poder ouvir o nosso hino, subir ao lugar mais alto do pódio, é óbvio que isso está marcado. E ainda tenho sonhos para realizar e conquistas que ainda acredito estarem ao meu alcance», diz Dulce Félix.

«As derrotas também fazem parte do sucesso porque nos fazem crescer e melhorar», garante Dulce, que recorda outro episódio-chave no seu percurso. «Tive um treinador do FC Vizela, na altura em que trabalhava e não tinha tanto empenho em ir treinar, que me disse: ‘Ou treinas ou tenho que te mandar embora.’ A partir daí eu comecei a dar muito mais. Se calhar, se ele não me tivesse ameaçado, perdia-se uma Dulce Félix, porque acabaria por deixar andar e mais tarde abandonar o atletismo».

O foco agora é «ir aos próximos Jogos Olímpicos», com a ressalva de que não têm necessariamente que ser os últimos. «Se as pernas me deixarem, ainda poderei fazer outros, mas vamos indo e vamos vendo».

E o que procura Dulce Félix em Tóquio? «Primeiro tenho que conseguir marcar presença, mas depois é óbvio que gostava de ficar nos lugares finalistas», explica, acrescentando: «Nos Jogos Olímpicos nunca consegui realizar o que queria. Nos primeiros, em 2012, fui 21.ª, não corri o que realmente treinei. Depois, no Brasil, não me adaptei bem àquela temperatura, e também não me correu muito bem, apesar de ter saído de lá com um 15.º lugar. Mas acho que tinha tudo para fazer melhor».

Nos Jogos Olímpicos de Londres

«A maratona é um bocadinho ingrata. Treinamos tanto e podemos chegar ao dia e até termos uma dor de barriga e não conseguirmos realizar a prova, ou ter outro contratempo. É naquele dia, tem que ser naquele dia, e ponto final. São 42 quilómetros sempre a correr, duas horas e tal, tudo pode acontecer. Queremos é que no dia corra tudo bem».

Dulce Félix regressa com a vontade de fazer «mais meia dúzia de anos na competição». «Tenho ainda muito para dar ao atletismo e a Portugal. Tenho aqui um talento e tenho que mostrar que nós paramos para ser mães, mas voltamos com força», diz a atleta que aponta vários exemplos na modalidade a alto nível com 40, 41 e 42 anos. «Depois começamos a ficar exaustos. São muitos quilómetros todos os dias».

E depois de terminar a carreira? «Sinceramente, ainda não pensei nisso, mas tenho que começar a preparar o futuro para não ter de ir outra vez para uma fábrica, que era o que eu não queria».

Vice-campeã da Europa de 10.000 metros em 2016