Mais longe e mais alto é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

Pode uma simples prenda de Natal mudar a vida de uma criança?

A resposta pode ser não.

Por exemplo, se estivermos a falar do par de meias que, ano após ano, aquela tia embrulha toscamente e oferece porque «este ano nem houve tempo para nada».

Mas atenção que a resposta também pode ser sim.

Por exemplo, se falamos do skate que aquele tio ofereceu no Natal de 2006 a dois miúdos de cinco anos.

E calma. Não é de dentes partidos que falamos quando nos referimos a «mudar a vida».

Pelo menos, não foi esse o caso de Gustavo Ribeiro.

Ele que, hoje, aos 19 anos, é número 3 do ranking mundial, tem um lugar quase assegurado na primeira presença de do skate numa edição dos Jogos Olímpicos, e é reconhecido por todos como um dos maiores prodígios mundiais da modalidade.

E tudo começou com aquele skate desembrulhado em família, com o olhar cúmplice e arregalado que, seguramente, terá trocado com o irmão gémeo naquela noite de consoada.

Gustavo Ribeiro e o irmão, Gabriel Ribeiro, atual número 51 do ranking mundial

«Logo na primeira semana o nosso pai começou a construir uma pista de obstáculos em casa, depois fomos para uma escola de skate e aos seis anos participámos no primeiro campeonato nacional de sub-8: o meu irmão ganhou e eu fiquei em segundo», relata Gustavo para início de conversa com o Maisfutebol.

Uma paixão sem obstáculos intransponíveis

Tal como a paixão pelo skate, o sucesso para Gustavo foi imediato.

E não falamos apenas daquele primeiro campeonato que teve os dois irmãos no pódio.

Por volta dos 10 anos, Gustavo começou a ir ‘de’ skate por essa Europa fora, passou a ser um atleta patrocinado e a evolução nunca mais parou.

Aos 16 anos já era considerado uma das maiores promessas europeias de street skate e isso motivou uma decisão difícil, mas que considera ter sido a mais acertada: suspender os estudos.

«No 11.º ano congelei a matrícula. Eu quero muito acabar os estudos, mas estava numa fase em que precisava de me dedicar a 1000 por cento ao skate», explica, garantindo ter tido, «como sempre», o apoio da família.

Nesse sentido, de há um ano e meio para cá, o jovem skater tornou-se profissional. E os resultados estão à vista. E até dificultam a vida… a jornalistas.

Isto, porque só ao fim de duas semanas de contactos foi possível avançar com a conversa. Porque neste momento Gustavo a gravar um documentário para a Red Bull… sobre o que tem sido o seu percurso.

Afinal, falamos de um skater que está a disputar provas com atletas que, há bem pouco tempo, via pela televisão. Mas desengane-se quem achar que isso o faz deslumbrar-se.

«Agora a minha responsabilidade é muito maior. Lembro-me de ver muitos deles em campeonatos e hoje são meus rivais», sublinha.

 

E como é afinal a vida de um skater profissional?

«Apesar de ser algo de que gosto muito, e trabalhar no que gostamos é muito bom, requer muito trabalho. Todos os dias faço ginásio de manhã, fisioterapia à tarde e, claro, pratico para estar sempre a evoluir», explica.

Tóquio aqui tão perto…

No momento em que qualificação olímpica foi suspensa, Gustavo era terceiro do ranking e a presença nos Jogos Olímpicos de Tóquio é quase uma realidade.

«Quando surgiu a pandemia, faltavam cinco etapas para o fim do apuramento. Como sou terceiro classificado tenho algumas regalias, como ao apuramento direto para todas as provas, sem ter de passar nas qualificações. E como se apura todo o top-20 mundial, era preciso uma grande reviravolta para não estar nos Jogos», defende.

Gustavo diz que gosta sempre de olhar para o lado bom de tudo. E se é verdade que a competição foi interrompida quando ele estava em grande forma – e a poucos meses das olimpíadas -, mais um ano de espera significa também… «mais um ano de treino e evolução», aponta.

Até porque, o sonho de Gustavo para Tóquio não é curto.

«Participar ser muito bom e o meu objetivo no skate é sempre, mas sempre, divertir-me. Mas é óbvio que quero trazer uma medalha. A medalha é algo que está na minha cabeça», assegura.

O topo do mundo é o objetivo… haja joelhos

Caso se confirme a presença nos Jogos Olímpicos, Gustavo ficará com pouco por conquistar no skate, com apenas 20 anos. Mas isso é que o nós dizemos. Ele pensa de forma distinta.

«Ainda me falta ser o melhor do mundo, ter a minha pro-model em calçado e noutras componentes. E chegar a número um. É para isso que trabalho todos os dias. Mas sem pressa. A pressa é uma grande inimiga do sucesso», acredita.

Claro que o mundo do skate não é fácil. Gustavo Ribeiro diz que tem «tido sorte» por não ter muitas lesões. Ainda assim, já partiu a cabeça quando o skate de um amigo lhe acertou, teve uma lesão no pulso e outra num joelho.

Nenhuma delas o fez pensar sequer em parar. «Nada disso. O skate é a minha vida, o meu escape e a minha paixão. É uma sensação de liberdade incrível», descreve.

E até quando é que pensa continuar a correr atrás desta paixão?

«Até aos 40 anos, ou assim. Enquanto os meus joelhos aguentarem, vou continuar», garante, num sorriso.

E pensar que tudo começou com uma prenda de Natal…