A Comissão Política do PS para definir a linha dos socialistas nas eleições presidenciais foi este sábado marcada por intervenções a favor de Marcelo Rebelo de Sousa e também por manifestações de apoio à candidatura de Ana Gomes.

Fontes socialistas referiram à agência Lusa que o secretário-geral do PS, António Costa, abriu a reunião em defesa da orientação da liberdade de voto nas eleições presidenciais, fazendo elogios às relações institucionais entre o Presidente da República e o Governo desde março de 2016.

António Costa caracterizou depois a candidata presidencial Ana Gomes como uma "ilustre militante" e não fez qualquer crítica à diplomata e ex-eurodeputada socialista.

Apesar de ter salientado a importância das eleições presidenciais e de uma mobilização do eleitorado em relação a este ato eleitoral em janeiro próximo, o secretário-geral do PS voltou a defender que o partido deve concentrar-se na governação, definindo como prioridades o combate à pandemia de covid-19 e a recuperação económica.

Ainda em relação à questão das presidenciais, António Costa disse que tem consultado "vários militantes ilustres do PS", com uns a manifestarem preferência por Marcelo Rebelo de Sousa, outros por Ana Gomes, e contou que até ouviu quem esteja disponível para apoiar a candidatura presidencial do eurodeputado do PCP João Ferreira.

Nas intervenções que se seguiram, o ministro Augusto Santos Silva, o ex-ministro Vieira da Silva e a dirigente socialista Edite Estrela fizeram discursos a elogiar a forma como Marcelo Rebelo de Sousa tem desempenhado as funções de Presidente da República.

No lado contrário, de acordo com as mesmas fontes socialistas, colocaram-se o sindicalista Carlos Trindade e o líder da FAUL (Federação da Área Urbana de Lisboa) do PS e secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro.

Duarte Cordeiro justificou a sua opção por Ana Gomes sobretudo por motivos ideológicos, posição também acompanhada por Carlos Trindade, que, no entanto, criticou a diplomata por não ter falado com o secretário-geral do PS antes de ter apresentado publicamente a sua candidatura.

Na reunião, Augusto Santos Silva disse claramente que não se identificava com a candidatura presidencial de Ana Gomes e citou sondagens que apontam que a maioria do eleitorado do PS se inclina para votar em Marcelo Rebelo de Sousa caso o atual chefe de Estado se recandidate.

O dirigente socialista Daniel Adrião, apoiante de Ana Gomes, pegou precisamente neste ponto para contrapor que a maioria dos militantes do PS não está com Marcelo Rebelo de Sousa e que, por essa razão, se impunha uma consulta interna aos membros do partido sobre o candidato a apoiar.

Daniel Adrião rejeitou também a tese de comparar o atual quadro de candidatos com o de 2016 para assim se justificar o princípio da liberdade de voto, considerando que, no caso das anteriores eleições presidenciais, havia dois candidatos no campo da esquerda democrática, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, o que em janeiro de 2021 não vaio acontecer.

Durante a reunião, de acordo com dirigentes socialistas contactados pela agência Lusa, membros da Comissão Política do PS como Pedro Silva Pereira e Pedro Delgado Alves criticaram Ana Gomes pela sua alegada propensão "para a inversão do ónus da prova" em matéria de Estado de Direito, ou por ter criticado "de forma precipitada" a proposta do Governo para a revisão do Código de Contratação Pública.

Foi também observado que a ex-eurodeputada socialista Ana Gomes criticou já várias vezes o atual chefe de Estado por "encostos" ao Governo, o que indicia, segundo eles, que, se a diploma fosse eleita, criaria mais dificuldade ao PS.

Fora do quadro das eleições presidenciais, o antigo ministro socialista Jorge Lacão usou da palavra para criticar "um esvaziamento" dos órgãos do partido, principalmente a Comissão Política.

Desde a última revisão de estatutos no PS, os membros da Comissão Política deixaram de ter inerência na Comissão Nacional, o órgão máximo partidário entre congressos.

Críticas entre Pedro Nuno Santos e direção

O dirigente socialista Pedro Nuno Santos manifestou apoio à candidatura presidencial de Ana Gomes, criticou o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa e a forma como a direção do PS atuou em matéria de eleições presidenciais.

Estas posições foram transmitidas pelo atual ministro das Infraestruturas e antigo líder da JS na fase inicial da reunião da Comissão Nacional do PS, que se destina a aprovar a orientação política deste partido em relação às eleições presidenciais de janeiro próximo.

Tal como se esperava, Pedro Nuno Santos, da ala esquerda dos socialistas e apontado como potencial candidato à sucessão de António Costa na liderança do PS, demarcou-se do ponto de vista ideológico do atual Presidente da República e criticou a "centralidade" de Marcelo Rebelo de Sousa no plano político, considerando tratar-se de um fator de "instabilidade".

Na sua intervenção, Pedro Nuno Santos confirmou que vai apoiar a candidatura presidencial da diplomata e ex-eurodeputada socialista Ana Gomes, mas, segundo fontes do PS, surpreendeu pela veemência das críticas que fez à direção do seu partido em matéria de gestão do tema das eleições presidenciais.

Entre outros motivos, Pedro Nuno Santos lamentou que apenas hoje, a pouco mais de dois meses das eleições presidenciais, o PS esteja formalmente a debater este tema.

O antigo líder da JS e da Federação de Aveiro do PS também se demarcou "dos considerandos" constantes na proposta que a direção do partido está a submeter à Comissão Nacional em matéria de presidenciais.

A reunião da Comissão Nacional do PS foi até ao momento também marcada pela recusa do presidente deste partido, Carlos César, de submeter a votos uma proposta do dirigente socialista Daniel Adrião no sentido de se promoverem eleições primárias para a escolha do candidato a apoiar nas eleições presidenciais.

Carlos César, de acordo com fontes socialistas, alegou que a proposta não tinha "enquadramento estatutário", o que foi recusado por Daniel Adrião, citando, para o efeito, o ponto dois do artigo 68 dos estatutos do PS.

Na reação, Daniel Adrião citou uma declaração proferida por António Costa em 22 de junho de 2014, quando desafiou a liderança de António José Seguro.

Não vai ser por razões estatutárias que não é devolvida a voz aos militantes e simpatizantes. Que o PS não esteja barricado com questões estatutárias que ninguém percebe no país", declarou Daniel Adrião, citando o atual secretário-geral socialista.

O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, manifestou apoio a uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa e o dirigente socialista Porfírio Silva acusou Pedro Nuno Santos de faltar às reuniões da direção do PS.

Fontes socialistas ouvidas pela Lusa, presentes na reunião da Comissão Nacional do PS que vai deliberar sobre a orientação do partido em relação às eleições presidenciais, referiram que Fernando Medina, também membro do Secretariado Nacional, elogiou a forma como Marcelo Rebelo de Sousa tem exercido o mandato de chefe de Estado e disse que tencionava votar nele caso se recandidate a Presidente da República.

Momentos depois de o antigo líder da JS e da federação de Aveiro do PS Pedro Nuno Santos ter manifestado o seu apoio à candidatura de Ana Gomes e de ter criticado a direção do PS, a resposta surgiu da parte do membro do Secretariado Nacional e vice-presidente da bancada socialista Porfírio Silva.

Porfírio Silva afirmou que, tal como Pedro Nuno Santos, também entende que a questão das presidenciais deveria ter sido discutida mais cedo no PS.

"O problema é que Pedro Nuno Santos não aparece nas reuniões do Secretariado Nacional" do PS, o que "é particularmente grave", atendendo às críticas que faz, afirmou o vice-presidente do Grupo Parlamentar socialista, citado por fontes deste partido.

Na sua intervenção, Porfírio Silva terá deixado ainda mais um recado a Pedro Nuno Santos: "És demasiado grande para te meteres na conversa de Daniel Adrião".

O dirigente socialista Daniel Adrião tem-se insurgido contra o facto de serem as "cúpulas" partidárias e não as "bases" a tomarem as principais decisões do PS e defendeu a realização de eleições primárias no partido para a escolha do candidato a apoiar nas eleições presidenciais - proposta que não foi hoje levada a votos por alegadamente não ter enquadramento estatutário.

Perante os membros da Comissão Nacional, Porfírio Silva terá feito ainda questão de dizer que não vai votar em Marcelo Rebelo de Sousa, nem em Ana Gomes.

Em matéria de presidenciais, o dirigente socialista terá declarado igualmente que não gostaria que saísse "engrandecida" das presidenciais "a candidata do partido que tem mais atacado o PS" (uma alusão a Marisa Matias do Bloco de Esquerda), afirmando esperar que as eleições para a Presidência da República não fossem más para o PCP.

PS faz “avaliação positiva” de Marcelo e saúda candidatura de Ana Gomes

A Comissão Nacional do PS aprovou uma moção sobre as eleições presidenciais, na qual refere expressamente a "avaliação positiva" do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa e se saúda a candidatura da socialista Ana Gomes.

Segundo o secretário-geral do PS, António Costa, a Comissão Nacional do seu partido aprovou esta moção de orientação política para as eleições presidenciais com "apenas duas abstenções e cinco votos contra".

O PS faz uma avaliação positiva do atual mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. Valoriza o entendimento que tem praticado da função presidencial, a proximidade com os portugueses, a solidariedade institucional com os demais órgãos de soberania, a ação na Europa e no mundo em prol dos interesses de Portugal", lê-se na moção que partiu do Secretariado Nacional do PS.

No documento, o PS destaca também a "correta cooperação institucional entre o Presidente da República e o Governo", considerando que "foi um importante contributo para que Portugal superasse a crise e retomasse o caminho do crescimento e da convergência com a União Europeia e reforçasse a sua credibilidade internacional".

É da lógica do nosso sistema de Governo que Presidente da República, Assembleia da República e Governo não tenham de estar alinhados senão na interpretação e defesa da Constituição e do interesse nacional. A diversidade e até a tensão democrática que ocorram entre órgãos detidos por personalidades de distinta proveniência doutrinária e política são normais numa democracia madura e consolidada, como a portuguesa, e podem contribuir para que todos se sintam integrados e representados na casa comum que é Portugal", salienta-se ainda no texto da moção que saiu da Comissão Nacional do PS.

Numa clara exclusão do líder do Chega, André Ventura, o PS entende que "são de saudar as candidaturas presidenciais já apresentadas que defendem a Constituição e querem consolidar e reforçar o regime democrático".

Destas candidaturas, a Comissão Nacional do PS considera que deve ser destacada, "naturalmente, a candidatura de Ana Gomes, distinta militante socialista".

As candidaturas presidenciais do campo democrático, na sua diversidade, proporcionarão seguramente um debate político plural, que contribuirá para afirmar a vitalidade e maturidade da democracia portuguesa, e a derrota clara da candidatura da extrema direita xenófoba", acrescenta-se. 

/ AG