O Presidente da República gosta de felicitar, verbo reincidente na sua conta oficial na rede social Twitter. Mas Marcelo também gosta de intervir. Mesmo quando não é felicitado por isso. Assim foi nas últimas horas antes da votação da proposta do Orçamento do Estado para 2022, cujo risco de chumbo levou o chefe de Estado a falar com meio mundo, irritando o outro meio. O Presidente esteve frenético em contactos, lançando jogo em várias direções.

A poucas horas da votação na generalidade do OE, Marcelo recebeu Paulo Rangel, Carlos Moedas e Fernando Medina, falou com Ferro Rodrigues, atreveu-se a uma negociação de última hora do governo com Miguel Albuquerque, telefonou e desassossegou vários atores políticos, incluindo deputados do PSD, e acabou acusado de desestabilização do Governo, do PSD e do Parlamento.

Várias fontes do PSD nacional e do PSD Madeira dizem à TVI que foi Marcelo Rebelo de Sousa quem desencadeou uma tentativa de negociação-relâmpago entre o governo e o presidente do Governo Regional da Madeira. Miguel Albuquerque até estava disponível, como tornou público, mas o chefe de Estado levou nega do primeiro-ministro. Segundo apurou a TVI, foi António Costa quem decidiu que não queria ficar refém - e a prazo - de três deputados regionais do PSD Madeira. A porta que Marcelo quis abrir já estava fechada.

Este é apenas um exemplo da atividade de Marcelo Rebelo de Sousa, que não escondeu que fez “diligências complementares” para evitar o chumbo do OE. Afirmou-o publicamente durante a tarde desta segunda-feira, assumindo que o tentou até ao início do debate na generalidade do Orçamento do Estado. O Presidente só não contou aos jornalistas que tentou trilhar esse caminho até receber sinais de que ele estava excluído por António Costa e pelo núcleo duro do governo. 

Rio furioso

Na mesma segunda-feira, quando recebeu Paulo Rangel, candidato à liderança do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa já sabia que a “alternativa madeirense” para a aprovação do OE já não seria a solução para travar a torrente que ele próprio desencadeou, quando há cerca de duas semanas quis pressionar o PCP a aprovar o Orçamento do Estado, lançando a ameaça de dissolução imediata do Parlamento.

Esta é aliás outra fonte de discordância pública entre o Presidente e o primeiro-ministro. Como voltou a deixar claro no Parlamento, António Costa não se demitirá caso a proposta de OE seja chumbada, considerando pois que poderia continuar em plenas funções e apresentar uma nova proposta de Orçamento nos 90 dias subsequentes. A decisão de dissolução da Assembleia é de Marcelo, como o primeiro-ministro deixou claro. E Marcelo já deu essa decisão como tomada.

Foi, no entanto, a conversa com Paulo Rangel que enfureceu Rui Rio. O líder do PSD disse esta manhã aos jornalistas achar “muito estranho” que o Presidente receba “um putativo candidato à liderança de um partido”, para “ainda por cima” tratar da data das legislativas e da sua compatibilização com as eleições internas do PSD: “Significa que vamos condicionar o país às diretas do PSD”, afirmou. Deputados do PSD na Assembleia vão mais longe, acusando Marcelo de intervir diretamente nas eleições do partido. 

A azáfama dos deputados, esta terça-feira, no Parlamento, foi evidente nos corredores. Ao fim da manhã, colecionavam-se assinaturas entre deputados e conselheiros nacionais do PSD para um requerimento lançado pelas hostes rangelistas para convocar um Conselho Nacional Extraordinário. O debate, que estava agendado para as dez da manhã, começou aliás atrasado, uma vez que os membros do governo só chegaram pelas 10:20. 

Moedas ao lanche, Medina ao jantar

A agenda de segunda-feira de Marcelo foi preenchida com muitos outros contactos, diretos e indiretos, incluindo uma reunião com Carlos Moedas, recém-eleito como presidente da Câmara Municipal de Lisboa pelo PSD, e que foi a Belém a pedido do Presidente. Para o jantar, também no Palácio de Belém, Marcelo convidou Fernando Medina, o socialista que liderou a autarquia da Capital até às últimas eleições. 

Pelo caminho, Marcelo contactou Eduardo Ferro Rodrigues, a quem terá pedido para medir a temperatura dos partidos com assento parlamentar. Ato contínuo, o presidente da Assembleia da República convocou os líderes parlamentares, para irritação de alguns membros do PS. 

A hiperatividade de Marcelo na segunda-feira transformou-o num ator da crise política, com críticas mais audíveis do líder do PSD e mais discretas do PS. Os canais oficiais revelam-no na linguagem própria do enquadramento institucional. Nos corredores da Assembleia da República, que no final da tarde desta quarta feira inesperadamente aprovará ou pela primeira vez chumbará uma proposta de OE, as palavras são menos formais. Marcelo tem orelhas a arder.