A variante Ómicron vai representar "mais de 90% dos casos" no final do ano, afirmou João Paulo Gomes, investigador do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge (INSA), já depois de a ministra da Saúde ter estimado uma prevalência de "mais de 80%" nos casos de covid-19 a seguir ao Natal.

Marta Temido falou hoje ao país para fazer um ponto da situação da pandemia, assumindo um cenário de "agravamento" dos serviços de saúde, que levaram já o Governo a contactar os setores privado, social e militar para reforço de meios.

"A utilização de serviços de saúde começa a ressentir-se, com uma procura mais intensa", indicou, sublinhado, porém, que os níveis são ainda "estáveis".

"Esperamos não ter necessidade de pedir mais meios, de não cancelar mais atividades (...). O São João reativou uma zona de contentores e temos de estar preparados para este efeito: muito mais casos com menor gravidade, mas com maior afluxo aos serviços", apontou.

Desta reunião não saíram medidas restritivas de combate à covid-19, como, aliás, se previa, apenas recomendações para enfrentar uma nova variante que tem já uma "prevalência de 20%" em Portugal, num período particularmente sensível, não só pela influência da gripe nas idas às urgências como pelo maior contacto social devido às festividades.

Neste momento de "incerteza", como classificou Baltazar Nunes, o outro investigador do INSA presente na conferência de imprensa, em que a resposta à vacinação de reforço no grupo etário dos mais de 70 anos se afigura como essencial - "vai ser o nosso grande indicador para perceber se vamos ou não ter problemas" - para determinar o que vai acontecer em Portugal em termos de hospitalizações/cuidados intensivos e de modo a evitar "medidas não farmacológicas", o Governo apelou ao cumprimento de cinco recomendações.

São elas a vacinação, a utilização da máscara, a testagem antes de eventos sociais, evitar contactos sociais e espaços aglomerados e arejar os espaços interiores, como se pode ver na informação disponibilizada pela tutela.

Mais testes gratuitos

A ministra da Saúde anunciou, igualmente, que o Governo vai aumentar o número de testes covid-19 gratuitos por pessoa, que está agora fixado em quatro por mês, uma medida que avança já "na próxima semana".

Neste momento em que decorre a vacinação de reforço, avaliações preliminares apontam para uma efetividade vacinal de "70 a 75%", indicou a ministra, com uma "aparente menor gravidade da doença e da letalidade" da variante Ómicron quando comparada com a Delta, no entanto é ainda muito cedo para fazer contas.

Marta Temido explicou que "as curvas das incidências" da Ómicron na maior parte dos países são substituídas "por uma parede de casos, um arranha-céus", o que preocupa as autoridades de saúde em termos de afluência às urgências.

Os próximos dias vão, por isso, "ser decisivos" para perceber o impacto da nova variante e "da resposta proporcional" que deve ser tomada.

"Mas o que já sabemos leva-nos a dizer que se a variante se transmite mais cada um tem de fazer mais. Mais uso de máscara, mais testes, mais vacinação, mais controlo de fronteiras, todos temos de estar preparados para fazer mais", pediu Marta Temido.

A ministra enalteceu a "adesão dos cidadãos" portugueses às medidas de contenção da pandemia, ao contrário do que sucede em muitos países, mas alertou que "o período de 2 a 9 de janeiro não pode ser visto como um momento de compensação, mas de um esforço".

No fundo, relembram os três, esta variante "é muito mais transmissível".

Mais transmissível devido ao tipo de mutações, ou seja, "infeta mais" e algumas dessas mutações que "afetam a ligação aos anticorpos".

Catarina Machado