«Ali bomaye! Ali bomaye!» O grito – qualquer coisa como «Ali, mata-o» em dialeto local – tem 42 anos mas continua a ecoar nas memórias do desporto mundial com a mesma força como que a projetada por milhares de vozes em torno do ringue daquele dia 30 de outubro de 1974.

Chamaram-lhe «O Combate do Século» e não era caso para menos. Tudo aquilo soava a momento histórico. Num canto, George Foreman; no outro, Muhammad Ali, apostado em voltar a ser The Greatest, “O Maior” do boxe mundial.

Mais de 80 mil pessoas acorreram ao Stade 20 Mai, em Kinshasa, no ex-Zaire, para verem Ali derrotar o jovem campeão mundial de pesos-pesados George Foreman.

O público africano estava com Ali, não só pelo estilo mais elegante e inteligente que o antigo campeão apresentava para contornar a potência de cada golpe do jovem Foreman, o que o levou a resistir oito assaltos até desferir o knock-out que valeu o cinturão mundial.

As razões da preferência eram mais profundas do que uma predileção da técnica pela força. Ao contrário do seu adversário, visto como símbolo da alienação do negro americano, o veterano era visto como um herói da luta anticolonialista, capaz de se colocar ao lado das lutas dos seus «irmãos africanos».

Ali era especial pelo que lutava dentro e fora do ringue.

No desporto, iniciou a construção da sua lenda como “O Atleta do Século” XX e maior pugilista de todos os tempos ainda como Cassius Clay. Começou a lutar como amador aos 12 anos e aos 18 venceu a medalha de ouro em pesos-médios nos Jogos Olímpicos de Roma 1960.

Quatro anos mais tarde, sagrar-se-ia pela primeira vez campeão mundial de pesos-pesados, ao derrotar Sonny Liston. «Flutuo como uma borboleta e pico como uma abelha», advertiu o adversário antes do combate com o seu habitual sentido de humor – que mais tarde o levou até a “comprar guerras” com adversários inusitados como o treinador de futebol inglês Brian Clough (ver vídeo).

Nascido em Louisville, no Kentucky, a 17 de janeiro de 1942, descendente de uma família de escravos, Clay tornar-se-ia em meados da década de 1960 Muammhad Ali, um ícone do desporto que além do talento como lutador despertava uma consciência política aliada a uma coragem invulgar.

No final de 1964, já como campeão do mundo, juntou-se à Nação Islâmica, organização muçulmana fundada nos EUA, e mais tarde tomaria uma posição política que lhe viria a marcar a carreira.

Contestatário da Guerra do Vietname, recusou-se a pegar em armas para combater pelo exército norte-americano. «Nunca um vietcong me chamou de negro. Por que haveria de lutar contra ele?», justificou, numa tomada de posição que viria a custar-lhe a perda do título mundial e uma condenação de cinco anos de prisão, anulada em 1971.

Três anos mais tarde, Ali reconquistaria título de campeão do mundo de pesos pesados perante uma multidão em delírio no tal «Combate do Século», voltaria a perdê-lo e a recuperá-lo em 1978 (aos 36 anos). Terminou em 1981 uma carreira me que venceu 57 (37 por KO) dos 62 combates que disputou.

Ao longo dos anos, mesmo consumido pela doença de Parkinson, Ali pronunciou-se pela libertação de prisioneiros políticos e por causas humanitárias. A última das suas intervenções foi em divergência com o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos Donald Trump. 

Muhammad Ali morreu na sexta-feira aos 74 anos, num hospital em Scottsdale, no estado do Arizona, onde estava internado devido a problemas respiratórios.

«Depois de um combate de 32 anos contra a doença de Parkison, Muhammad Ali morreu», anunciou o porta-voz da família.

Na memória do desporto mundial permanecerá a lenda do «Atleta do Século».

Ali morreu, mas o mito sobreviverá pelo exemplo que representou não só para o desporto, mas também como referência política, pelo pacifismo ou pelas críticas à segregação racial nos Estados Unidos. Tal como quem por ele se sentiu representado fez questão de fazer ecoar num grito que continua a ecoar desde as profundezas de África tantas décadas depois «Ali bomaye!»...

Chegou a vez de «O Maior» voltar a flutuar como uma borboleta. Para a eternidade.

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Sérgio Pires