Mesmo para quem é relativamente indiferente à mitologia do boxe - que, em especial nos Estados Unidos, originou alguns dos melhores exemplos de cultura popular, em texto, filme ou imagem - a figura de Muhammad Ali é incontornável para se entender a história do desporto como reflexo dos movimentos sociais no século XX.

Para além da dimensão puramente competitiva de uma carreira gloriosa (resumidamente: 61 combates, 56 vitórias, 37 das quais por KO, campeão olímpico em 1960 e mundial de pesados em várias ocasiões, entre 1964 e 1979), que levou à consagração quase unânime como maior pugilista da história, Muhammad Ali, falecido na madrugada deste sábado, com 74 anos, marcou o imaginário do século passado como poucas outras estrelas o fizeram.

Como Cassius Clay começou a carreira a «sovar» um polícia

Daí que, uma vez feita a evocação da lenda, seja ainda altura para exemplificar até que ponto o seu legado permanece na cultura contemporânea. Desportista, figura pública e ativista, Muhammad Ali foi também um excelente relações públicas de si próprio - um dos pioneiros na arte da exposição e encenação mediática, a começar pela forma como, ao renegar o «nome de escravo», Cassius Clay, criou para si uma nova identidade cheia de significado.

E se há inúmeros exemplos de filmes ou textos essenciais para se conhecer o campeão, talvez as suas citações, em discurso direto, sejam a forma mais imediata de travar conhecimento com o mito. Bem para lá da incontornável «Float like a butterfly/Sting like a bee/Your hands can’t hit/what your eyes can’t see», eis 12 exemplos de Ali por Ali. O Maior.

«Muhammad Ali foi o campeão de pesados em tudo: hype, Relações Públicas, media, showbiz, teatro de rua, humor negro, angariação de receitas, política, rap, além do maior pugilista de todos e, seguramente, a superestrela que pôs a um canto todas as outras superestrelas, o resumo do superestrelato num só nome: O Maior»

George Lois, autor do livro «Ali Rap» (ed. Taschen, 2006)

1- Contando como foi o primeiro encontro com o seu ídolo de infância, Sugar Ray Robinson

«Tinha 21 anos quando fui ao clube de Sugar Ray. Esperei à porta o dia todo, mas teria esperado toda a semana, se fosse preciso. Eram umas 10 da noite quando ele apareceu. Fiquei tão nervoso que pela primeira vez na vida fiquei sem palavras. Quando me recompus fui ter com o senhor Robinson e disse-lhe que tinha vindo de muito longe para o ver, e que ele era o meu herói. Ele nem olhou para mim, só disse: “mais logo, miúdo, agora estou ocupado”. Fiquei a ver Sugar Ray Robinson virar-me as costas e desaparecer. E nesse momento jurei a mim mesmo que nunca iria desprezar um fã»

2- Comentando um incidente num restaurante em Miami, pouco depois de ganhar a medalha de ouro olímpica em Roma, em 1960

«O homem disse-me: “não servimos pretos!” e eu respondi: “não faz mal, eu também não como disso”. Depois vieram outros homens e gritaram-me: “rapaz, põe-te na rua!”. Quando cheguei a casa olhei para a medalha e pensei: “esta coisa não vale mesmo nada, se nem um hambúrguer me dá direito a comer”»

3- Respondendo às críticas sobre o seu estilo provocador e fala-barato antes dos combates

«Onde pensam que eu estaria agora se não gritasse e provocasse? Estaria pobre e esquecido, em Louisville, a lavar janelas e a engraxar sapatos, dizendo “sissenhor” e “nãssenhor” e sabendo qual era o meu lugar»

4- Explicando as razões que o levaram a mudar de nome de batismo após tornar-se muçulmano

«Cassius Marcellus Clay era um branco do Kentucky, dono do meu bisavô, a quem passou o nome. Depois veio o meu avô, e a seguir o meu pai, e depois eu. Todos nós tivemos o nome de escravos do nosso dono. Cassius Clay é um nome de escravo, Clay quer dizer lama. Eu não o escolhi e não o quero. Sou Muhammad Ali, um nome livre: Muhammad quer dizer “louvável”, e Ali quer dizer “altíssimo”. E insisto que as pessoas o usem quando falam comigo ou se referem a mim»

5- Assumindo a militância pelos direitos do negros no auge das tensões sociais dos anos 60

«Eu sou a América. Eu sou o passado que recusam conhecer. Mas habituem-se: negro, confiante e arrogante. O meu nome, e não o vosso. A minha religião, não a vossa. Os meus objetivos, não os vossos. Habituem-se!»

6- Acerca dos sacrifícios necessários para se ser um campeão

«Há muitos miúdos mais fortes do que eu e que poderiam chegar a campeões, mas não resistem às tentações. A tentação está à nossa volta, miúdas giras com grandes peitos em todo o lado. Quando as coisas te correm bem, meu, até caem do céu, é uma chuva de brasas. E eu odiava cada minuto do treino, mas dizia a mim mesmo: “não desistas. Sofre agora, e vive o resto da vida como um campeão”»

7- Explicando a recusa em alistar-se no exército e em combater no Vietname, apesar da ameaça de prisão

«Nenhum vietnamita alguma vez me chamou “preto!”. Querem que vá fazer o que me diz o homem branco e travar uma guerra com um povo que não conheço – libertar pessoas quando o meu próprio povo não tem liberdade aqui? Se pensasse que ir para a guerra daria liberdade e igualdade de direitos a 12 milhões dos meus não teriam de recrutar-me, amanhã seria voluntário. Mas não tenho nada a perder em assumir esta posição e seguir as minhas crenças. Já estivemos presos durante 400 anos»

8- Respondendo às críticas que o acusavam de ter perdido velocidade e de falar demasiado antes dos combates

«Sinto-me tão rápido que, só para terem uma ideia, ontem à noite cheguei ao quarto, desliguei o interruptor e quando me meti na cama ainda não tinha ficado escuro. Gabar-me? Não estás a gabar-te se podes provar o que dizes. A humildade não te leva muito longe se nasceste em Louisville»

9- Comentando a extrema dureza do seu segundo combate com Joe Frazier, que Ali venceu, em 1974, desforrando-se da derrota em 1971

«Sammy Davis Jr. disse-me que foi o combate mais bonito que viu em toda a vida, e atenção que ele só tem um olho. A verdade é que acertamos golpes capazes de deitar edifícios ao chão. O que vocês puderam testemunhar foi uma experiência de quase-morte. E se Frazier me tivesse matado ainda assim eu levantava-me e ganhava-lhe, tornando-me o primeiro campeão morto na história do boxe»

10- Num texto escrito antes do terceiro e ultimo combate com Joe Frazier, nas Filipinas, que ficou conhecido como The Thrilla in Manila, e exprimindo toda a admiração pelo seu adversário, que em público dizia detestar

«O que estou aqui a fazer, enfrentando este homem tremendo? É tão doloroso, devo ser louco. Eu costumo trazer à superfície o melhor dos meus adversários, mas Joe Frazier, tenho de dizê-lo ao mundo, tira de mim o que eu tenho de melhor. É um homem do caraças, Deus o abençoe!»

11- Ao ser-lhe perguntado se alguma vez se tinha sentido apaixonado

«Por outra pessoa, não»

12- Descrevendo o que sentiu ao ser o escolhido para acender a chama olímpica nos Jogos de Atlanta, em 1996, já visivelmente afetado pela doença

«Tinha a mão esquerda a tremer com Parkinson, e a direita a tremer com medo. Entre uma e outra, lá consegui acender a coisa. Ganhei títulos, tornei-me campeão, e depois Deus testa-me: faz com que seja difícil andar, difícil falar. E eu estou grato, por perceber que é um teste: a doença é para me lembrar que o número um não sou eu, é Ele».

Nuno Madureira