A Amnistia Internacional disse esta segunda-feira que os sobreviventes de um massacre realizado por grupos rebeldes na Etiópia ocidental, este domingo, contaram 54 corpos no pátio de uma escola, após o ataque, em que membros de minorias étnicas foram deliberadamente visados.

O grupo de defesa dos direitos humanos pergunta porque é que os militares federais deixaram a área apenas horas antes de os atacantes terem ido para lá, visando atingir a etnia Amharas.

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, denunciou a morte de pessoas com base na sua identidade, acrescentando que forças de segurança já tinham sido destacadas para o local e começado "a tomar medidas".

A violência étnica na Etiópia está a tornar-se o maior desafio do primeiro-ministro, galardoado com o Prémio Nobel da Paz no ano passado pelas suas reformas políticas abrangentes.

"Os inimigos da Etiópia prometem governar o país ou arruiná-lo, e estão a fazer tudo o que podem para o conseguir", afirmou Abiy num post no Facebook.

O governo da Etiópia culpou um grupo rebelde, o Exército de Libertação de Oromo (OLA), pelos ataques no extremo ocidental de Oromia, numa zona de fronteira com o Sudão do Sul e a algumas centenas de quilómetros da capital, Adis Abeba.

O chefe da polícia da região de Oromia, Ararsa Merdasa, disse à emissora estatal que morreram 32 pessoas e "cerca de 200 famílias fugiram da área", por causa do ataque.

Os sobreviventes do ataque no distrito de Guliso, na Zona Wellega Ocidental, disseram à Amnistia Internacional que as tropas federais se tinham retirado inesperadamente e que os rebeldes tinham chegado horas mais tarde, identificando-se como o OLA e anunciando que agora controlavam a zona.

"Os atacantes reuniram pessoas que não conseguiram fugir, principalmente mulheres, crianças e idosos, e mataram-nas", disse a Amnistia em comunicado.

Os sobreviventes esconderam-se numa floresta próxima. Um deles disse ao grupo de defesa dos direitos humanos que encontrou os corpos do irmão, da cunhada e de três crianças no pátio da escola com ferimentos de bala.

"O facto de este incidente horrendo ter ocorrido pouco depois de as tropas governamentais se terem retirado abruptamente da área, em circunstâncias inexplicáveis, levanta questões que devem ser respondidas", disse o diretor da Amnistia Internacional para África, Deprose Muchena.

A Comissão Etíope dos Direitos Humanos, num comunicado, referiu o número de mortos revelado pelo governo, 32, mas disse que as provas preliminares que obteve "indicam que é muito provável que esse número seja ultrapassado".

Os atacantes contaram até 60, disse a comissão, citando fontes. Elementos de etnia amara "foram arrastados das suas casas e levados para uma escola, onde foram mortos".

Aquela comissão apelou ainda ao governo federal para que "lance luz sobre as razões por detrás da retirada dos militares de uma área há muito conhecida como vulnerável a ataques" em vez de assegurar que os civis sejam protegidos.

Os amaras são o segundo grupo étnico mais populoso da Etiópia, a seguir aos oromos. Foram também alvo de ataques nas regiões a oeste, de Benishangul Gumuz, e sul nas últimas semanas, que deixaram várias dezenas de mortos.

O gabinete de comunicações da região de Oromia, num comunicado, classifica o ato de "ataque terrorista brutal".

Getachew Balcha, o porta-voz da região, disse que o seu objetivo era criar caos e exercer pressão psicológica sobre os cidadãos.

O grupo armado reuniu 200 pessoas por volta das 17 horas, e depois começou a disparar contra elas", disse a emissora da região de Amara, Amhara Mass Media Agency, citando um sobrevivente. O sobrevivente disse que uma escola e cerca de 120 casas foram queimadas.

 

O governo falhou no seu dever de proteger a segurança dos cidadãos", disse Dessalegn Chanie, membro sénior do Movimento Nacional do Partido Amhara, da oposição, à agência de notícias internacional Associated Press, acrescentando que o sistema federal etíope, baseado na língua, é a principal causa dos assassinatos: "Os amaras étnicos residentes fora da região de Amara estão a ser rotulados como forasteiros e estão expostos a ataques repetidos".

Os falantes oromo vivem geralmente em Oromia, os falantes amáricos vivem geralmente na região de Amara e assim por diante. A estrutura dá aos habitantes locais mais voz nos assuntos locais.

O Exército de Libertação de Oromo não comentou os alegados ataques e negou relatórios semelhantes no passado.

O grupo rebelde, uma ala de fragmentação do partido da Frente de Libertação Oromo, utilizou a região ocidental da Oromia como base desde que os seus membros regressaram à Etiópia, depois de Abiy tomar posse, em 2018, e ter convidado grupos que outrora estavam impedidos de entrarem no país a regressarem do exílio.

/ HCL