A Rússia tem coisas estranhas. É um país absolutamente obcecado com as questões de segurança, em todo o lado existem revistas e detetores de metais, máquinas de raio-x e polícias a pedirem-nos o passaporte. Os agentes aparecem sempre com cara de maus e não admitem tentativas de diálogo.

Nota-se, por isso, que são rigorosos e totalmente intransigentes com a segurança.

Apesar disso, são capazes de cometer erros tão primários como trocar a identidade de uma pessoa. Neste caso, de trocar a identidade deste que vos escreve com tanto carinho.

Aconteceu na viagem de regresso de Sochi para Moscovo. Depois de entrar no avião, dirigi-me ao meu lugar, que o papel de check-in feito online indicava ser o 12 E.

Quando cheguei à fila 12, reparei que o lugar já estava ocupado. Avisei o senhor, por acaso um português e colega da beIN Sports, que aquele lugar era o meu. Ele procurou o ticket do check-in feito no balcão e respondeu que não, que aquele lugar era o dele.

Disse que não podia ser, que o meu comprovativo de check-in dizia que o meu lugar era o 12 E e insistiu que o dele também dizia que era o 12 E. Pedi para o ver e nessa altura reparei que o nome indicado no ticket dele era Sérgio Pereira. Perguntei-lhe se também se chamava Sérgio Pereira.

«Não, o meu nome é Vasco Pereira Mendonça», respondeu.

Mas era um facto, estava a viajar no meu lugar e com o meu nome. «Sérgio Pereira».

Como é que alguém no balcão de check-in lhe deu um bilhete com um nome que não era o dele, não sei. Como é que ele passou por todos os controlos do aeroporto com um nome que não era o dele, e que nem sequer batia com o do passaporte, também não sei.

Mas há uma coisa que sei: agora faz muito mais sentido o tempo que na porta de embarque a menina demorou a olhar para o meu comprovativo de check-in e para o computador, antes de me pedir o passaporte e de falar alguma coisa em russo com um colega. Provavelmente o computador estava a dizer-lhe que já tinha entrado alguém com o meu nome e para o meu lugar.

Apesar disso, mandou-me seguir.

O Vasco, esse, foi explicar o erro a uma assistente de bordo, dizendo-lhe que lhe deram um bilhete com um nome e um lugar que não era o dele.

A assistente disse-lhe para se sentar num lugar vago...

«Czar ao jogo» é um espaço de opinião do editor Sérgio Pereira, enviado-especial do Maisfutebol ao Mundial 2018, na Rússia

Sérgio Pereira / Enviado-especial à Rússia, em Kratovo