Se na música dos Spiritualized somos felizes, hipnotizados e guiados numa viagem celestial, é nos poemas das canções de Father John Misty que encontramos realmente a salvação. Estes foram os dois grandes concertos que marcaram o terceiro dia do Vodafone Paredes de Coura.

Foi com "Come Together", do emblemático álbum "Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space", de 1997, que os Spiritualized começaram um concerto vigoroso, no palco principal, eram já 23:00.

A banda, cujo estilo combina o rock com influências do shoegaze e da dream pop, editou em setembro do ano passado o oitavo disco, "And Nothing Hurt", um trabalho soberbo.

"A Perfect Miracle" e "I'm Your Man" fizeram sonhar e, por momentos, saímos da praia fluvial do Taboão. Em "On the Sunshine" vivemos um momento apoteótico, de libertação coletiva.

É certo que Jason Pierce, vocalista e alma da banda, está sempre sentado, de óculos, sem se mover, sem interagir com o público. Mas isso não o impede de ter uma presença imponente, através da qual toda esta viagem é, afinal, guiada.

As músicas são tocadas pela banda com grande intensidade do início ao fim, e o coro - três mulheres - torna os poemas de ainda mais corpulentos.  E a espaços, a energia do concerto é contagiada pelo gospel e até pela soul.

O público também soube entregar-se na viagem dos Spiritualized e acabou a cantar com a banda "Oh happy day", num momento festivo. Fomos felizes, mesmo felizes em Spiritualized.

A felicidade primeiro, a salvação depois. Esta chegou com Father John Misty, o pojeto de música folk-rock que Josh Tillman abraçou em 2012, depois de ter sido baterista dos Fleet Foxes.

O cantor e compositor norte-americano, de barba farta e cabelo grande apanhado, voltou ao Vodafone Paredes de Coura, depois de ter editado no ano passado o álbum "God's Favorite Customer".

Natural de Rockville, Tillman cresceu num meio profundamente religioso e isso reflete-se nas suas canções, que são carregadas de crítica e ironia. "What's your politics, what's your religion?", começa por perguntar em jeito de provocação, em "Hangout At The Gallows".

Father John Misty é o contrário de Jason Pierce: é irrequieto, expansivo, atua descalço, dança, vai até junto do público, tem um lado exuberante e uma certa dose de loucura. E é também assim, através da forma como se apresenta em palco, que exorciza os seus fantasmas. 

Mas claro, é nas letras que a catarse realmente acontece. Como quando canta "Everything is doomed, And Nothing will be spared, Oh, I love you honeybear". Ou em "Ballad of a Dying Man", quando diz: "We leave as clueless as we came, For the rented heavens to the shadows in the cave, We'll all be wrong someday". É na música que Tillman procura a salvação. E nós, nas suas canções, encontramos a nossa.

Antes, outro regresso a Paredes de Coura, o dos Deerhunter, que atuaram antes dos Spiritualized no palco principal. A banda de Atlanta trouxe as canções do novo disco, "Why Hasn’t Evertyhting Already Disappeared?”, editado em janeiro, mas soube revisitar temas antigos como "Agoraphobia", "Desire Lines" ou "Revival". 

As canções dos Deerhunter são cheias de camadas, misturam indie rock, dream pop, pop psicadélica e as letras são introspetivas.

O grupo já é uma banda querida em Portugal, contando com várias passagens pelo nosso país, nos últimos anos. Porventura inspirado nos concertos que já deu cá, o carismático vocalista e líder da banda, Bradford Cox, tem ouvido muita música portuguesa. Cox referiu os músicos experimentais Rafael Toral e Nuno Canavarro como exemplos que constam na sua playlist.

A noite ainda não tinha caído quando Jonathan Wilson se estreou em Portugal. Wilson ficou conhecido como o homem responsável pela produção dos três primeiros álbuns de Father John Misty - precisamente o cabeça de cartaz desta sexta-feira, já aqui falamos dele - mas foi com o seu próprio projeto enquanto músico e compositor que se apresentou no recinto verde do festival minhoto.

Foi um concerto de rock psicadélico, ao pôr do sol, a fazer lembrar os anos dourados do género na década de 60 

Noutro palco, os Balthazar deram um concerto vibrante. Os belgas, que editaram este ano o seu terceiro álbum, “Fever”, foram uma das primeiras bandas a tocar, ainda não eram 19:00, mas reuniram muita gente naquela zona do recinto. 

A música do grupo mistura indie pop com rock, electrónica e até algum psicadelismo, numa combinação contagiante, que fez dançar e pular os festivaleiros. A banda tem dois vocalistas/guitarristas, que dividem protagonismo. Ambos são muito expressivos em palco e um deles, Maarten Devoldere, chegou mesmo a juntar-se ao público, para grande euforia dos fãs.

Outro dos momentos em destaque neste terceiro dia de festival também veio do palco secundário e foi protagonizado pelos britânicos Black Midi, um grupo enigmático - poucas entrevistas e atividade nas redes sociais quase inexistente - mas que tem dado que falar.

O jovem quarteto londrino, cuja atuação em Guimarães em 2018 passou bastante despercebida, editou este ano o primeiro álbum, "Schlagenheim". Um disco de rock experimental que surge depois de um grande "buzz" à volta das suas atuações, que os tornaram numa forte aposta da cena underground londrina.

E em Paredes de Coura percebeu-se o entusiasmo em torno dos seus concertos. Os Black Midi têm um ar bastante juvenil, mas são músicos frenéticos, que misturam math rock e noise, num som poderoso e impactante ao vivo. Um concerto enérgico do príncipio ao fim. 

Antes, no palco principal, atuaram os portugueses First Breath After Coma. A banda de post-rock de Leiria editou este ano o álbum “NU”, onde apostou mais nos teclados e explorou outras sonoridades. Um concerto que contou com um convidado especial: o músico Noiserv, com quem o grupo partilhou uma residência artística, subiu ao palco para tocar duas músicas.

Sábado é o último dia do Vodafone Paredes de Coura, com Patti Smith, Suede e Mitski em destaque.

Sofia Santana