"Oye, tirano, no solo hay pa' tu padre

Quе el grito republicano, tu tímpano taladre

Al oprimido amo, odio еl reinado opresor

Que coma tu familia del contenedor"

 

Estes são alguns dos versos que Pablo Hasél, de 32 anos, escreveu na infame música dedicada ao Rei emérito Juan Carlos I e que, numa tradução literal, significam “ Ei, tirano, não é só para teu pai/ Deixe o choro republicano, seu tímpano perfurar/Os oprimidos eu amo, odeio o reinado opressor/ Que a tua família coma do contentor”.

Conhecido apoiante do movimento independentista da Catalunha, Hasél não era um nome conhecido em Espanha até algumas semanas atrás.

Rapper de língua ácida e anti-establishment, é considerado poeta por alguns e punk por outros. Nos seus versos, é comum ouvir o rapper referir-se ao rei emérito Juan Carlos I como um "chefe da máfia" e um "tirano bébado", acusando também a polícia de torturar e matar manifestantes e refugiados.

 

 

No Twitter, referiu-se a um falecido membro do extinto grupo terrorista basco ETA como tendo sido "exterminado pelo Estado torturador". Em diversas composições, elogiou outros grupos terroristas e defendeu ataques de bomba à TV estatal espanhola e ao político socialista Patxi López.

 O carro do Patxi López merece explodir!", tweetou então na sua página oficial.

A acutilância das palavras trouxe-lhe vários problemas com a lei no passado, facto que rendeu mais de uma pena, embora sempre fora das grades. Pablo chegou a ser acusado de agressão, obstrução à justiça e invasão de propriedade privada.

2011 foi o ano que marcou o início do longo braço de ferro com a justiça, altura em que um tribunal declarou que o discurso de ódio nas letras do artista não podia ser contemplado nos direitos à liberdade de expressão.

Em 2017, motivado por rimas que atacavam o autarca Àngel Ros”, foi obrigado a pagar uma multa de cerca de 30 mil euros pelo tema 'Menti-ros'. Nele, Pablo escreve que o político de 68 anos merece morrer.

Mereces um tiro, vou-te esfaquear, arruinaste-me, vou arrancar-te a pele às tiras", escreveu Pablo que, no mesmo ano, foi condenado por desobediência à autoridade.

Mas o ponto de ebulição parece mesmo ter sido esta terça-feira, quando um tribunal condenou o rapper  a nove meses de prisão pelos crimes de "exaltar o terrorismo e insultar a Coroa e as instituições do Estado" pelas letras das suas canções e pelas mensagens no Twitter em que ataca a monarquia e a polícia.

Sabendo da condenação, o músico refugiou-se na Universidade de Lleida, barricando-se com uma dezena de apoiantes no dia anterior, para evitar cumprir a pena de prisão.

 

 

No entanto, os Mossos d'Esquadra conseguiram perfurar o bloqueio e levar o rapper que, até ao momento, está sob custódia das auttoridades.

Na sequência deste ato policial, protestos, inicialmente pacíficos, surgiram em várias cidades catalãs, incluindo Barcelona. Manifestantes encapuzados começaram a atirar objetos contra a polícia e a incendiar contentores de lixo para montar barricadas nas ruas. A polícia respondeu com balas de espuma e cargas de cassetete. Uma jovem chegou mesmo a perder um olho.

Em Madrid, pelo menos 19 pessoas acabaram detidas na sequência das manifestações contra a detenção do rapper. De acordo com fontes das forças de segurança citadas pela agência espanhola Efe, pelo menos 55 pessoas precisaram de auxílio médico, dos quais 35 eram polícias e três tiveram de ser transferidas para um hospital. 

As manifestações foram recebidas de forma agridoce pela esfera política espanhola. Por um lado, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, considerou inadmissível qualquer tipo de violência e garantiu que o seu executivo garantirá a segurança. Por outro, Pablo Iglesias, líder do Podemos e segundo vice-presidente, questionou no parlamento a atuação policial que culminou na prisão do rapper.

O chefe do Governo não se referiu explicitamente à atitude do partido de Pablo Iglesias, seu segundo vice-presidente, em relação aos protestos violentos, mas insistiu que não se pode admitir qualquer tipo de violência.

Também vários rappers portugueses expressaram a sua solidariedade para com o espanhol Pablo Hasél, alertando que os artistas se devem unir para defender a liberdade de todos.

A portuguesa Capicua expressou, através das redes sociais, toda a sua solidariedade para com Hasél “e com todos os outros 'rappers' espanhóis (são cerca de 15), como Valtònyc (exilado há uns anos para não ser preso), que, por criticar o estado espanhol e sua monarquia, têm sido alvo de perseguição e condenação”.

 

Toda a minha solidariedade com @pablohaseloficial (preso esta semana depois de anos de intimidação) e com todos os...

Publicado por Capicua em  Quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

 

Por seu lado, NBC, também nas redes sociais, mostrou-se surpreendido por, em 2021, ver “um poeta, escritor, a ser preso por dar a sua opinião numa música sobre o que ele acha do poder instituído em Espanha”.

Se todos os que usam a palavra tiverem que ser presos por dizer o que sentem em relação ao estado ou ao seu patrão, então todas as pessoas merecem ir presas, porque toda a gente o faz em alguma altura da sua vida. Mas em 2021, a empatia e colocar-se no lugar do outro [são] um eufemismo”, escreveu NBC.

Com mais protestos a serem convocados, o governo espanhol e as forças policiais têm a difícil tarefa de acalmar a situação nas ruas e facilitar o debate político.

O governo do primeiro-ministro socialista defendeu a polícia e reprimiu a violência, mas tem de conter a divisão com o parceiro de extrema esquerda. Até porque o facto de o United We Can evitar condenar publicamente a violência numa primeira instância, alimentou os apelos da oposição pela expulsão de seu líder do governo, um gesto que pode terminar com o governo de coligação.