Ao quinto disco, Ana Moura apresenta «Desfado», um trabalho que reúne fados tradicionais e outras canções que desconstroem o fado. Um retrato atual de uma cantora que nos últimos anos tem percorrido caminhos musicais fora do fado nas colaborações com os Rolling Stones ou com Prince.

«Eu canto sempre como fadista, mas depois, de repente, tenho outros instrumentos [fora do fado] a acompanhar-me. E isso despertou em mim uma curiosidade e estimulou-me para fazer outras coisas diferentes, explorar outros universos», explicou a cantora em entrevista ao IOL Música.

A produção do álbum gravado em Los Angeles esteve a cargo de Larry Klein, responsável por discos de Joni Mitchell e Herbie Hancock.

«Ele consegue fazer com que tudo soe muito natural e muito humano. Desde os instrumentos que ele decidiu usar, como a bateria com um som vintage ou os pianos que foram usados, os toy pianos ou os musettes, que têm esta particularidade de um som quentinho e orgânico», contou Ana Moura, fã confessa da produção de Klein.

«Aliás, aqui não houve afinações - se estava com uma rouquidão era porque fazia parte da interpretação do momento. Eu adoro tudo isso, essa autenticidade. E, portanto, este trabalho com ele foi fantástico», acrescentou.

Cantar em inglês ao som do piano de Herbie Hancock

O próprio Herbie Hancock surge como um dos convidados musicais de «Desfado» num dos três temas cantados por Ana Moura em inglês. A participação do pianista norte-americano em «I Dream of Fire» acabou mesmo por ser uma surpresa para a cantora.

«Nós estávamos já em Los Angeles a gravar [o disco] e o Vasco Sacramento, que é o meu manager, disse ao Larry Klein que eu era grande fã do Herbie Hancock. O Larry enviou-lhe as músicas que estávamos a gravar em estúdio (...) e a resposta do Herbie foi que havia duas artistas que ele ouvia em casa e uma delas era eu», recordou Ana com orgulho.

Outra das canções em inglês que fazem parte do álbum é «A Case of You», um original de Joni Mitchell que foi mesmo sugerido pelo próprio Larry Klein. Ele que, para além de produtor, foi também casado com a falecida cantautora.

«Eu fiquei surpreendida. Nunca surgiria da minha parte eu pedir-lhe para gravar um tema da Joni Mitchell. Mas, quando a sugestão veio dele, eu senti-me honrada por ele pensar que eu poderia fazer, de facto, alguma coisa diferente naquela música.»

Novos letristas para desmistificar o fado

Num disco arrojado e ambicioso, Ana Moura contou ainda com a ajuda preciosa de vários compositores pouco habituados a escreverem para uma fadista, casos de Pedro Abrunhosa, Luísa Sobral, Manel Cruz e Márcia.

«Quando se escreve para um fadista as pessoas ficam muito assustadas, porque é um fado, é quase intocável, quase religioso. E, portanto, eu não queria que eles tivessem essa preocupação», afirmou Ana Moura.

«Obviamente, eu sou a fadista, os temas iam ter a minha interpretação, iam ter um cheiro a fado, mas, em termos de arranjos e de instrumentos, [o disco] iria ser uma coisa totalmente diferente. Portanto, eu não queria que eles se sentissem de forma alguma castrados», explicou, enaltecendo a experiência de partilha entre músicos de sonoridades distintas.

A digressão de apresentação de «Desfado» já está na estrada e o próximo concerto acontece no dia 23 de novembro em Portimão. Em 2013, Ana Moura volta a partir à conquista da da Europa e da América do Norte, mas não sem antes passar pelos coliseus de Lisboa e do Porto a 25 e 26 de janeiro, respetivamente.
João Silva