É já a 30 de novembro que o Campo Pequeno recebe uma das maiores produções de hip-hop em Portugal. Valete será o mestre de cerimónias de um concerto que percorrerá o passado, o presente e o futuro do rapper e que promete juntar a comunidade de hip-hop do país.

«O hip-hop em Portugal tem juntado pessoas de cidades diferentes e de raças diferentes. Se fores ao Campo Pequeno, vais ver gajos de Beja, Leiria, etc, e vais ver asiáticos, negros e brancos», explicou Valete em entrevista ao IOL Música.

Num concerto com pelo menos duas horas de duração, Valete será acompanhado em palco de amigos como Sam The Kid, Regula e Xeg. «Pessoal que cresceu comigo, pessoal da minha geração», disse o rapper.

Ao mesmo tempo que prepara o seu primeiro grande concerto em Lisboa, Valete tem também trabalhado em estúdio no seu terceiro álbum. Aguardado pelos fãs há já alguns anos, «Homo Libero» será um disco conceptual sobre a ideia do Homem Livre.

«Para mim, ["Homo Libero"] é o que devemos aspirar como ser humano. É um homem que tem um entendimento do planeta como uma coisa só e que a vida só faz sentido se tu seguires as coisas que te dão prazer. Viver para ter felicidade (...) e questionar as coisas que estão instituídas.»

Valete disse que abraçou esta filosofia de vida depois de conhecer «um ator de 40 e tal anos, que vive num T0, optou por não ter filhos nem casar e vive com uma média de 300, 400 euros por mês».

«Para muita gente este homem seria um frustrado, um falhado. E ele disse-me: "Valete, eu sou a pessoa mais feliz do mundo. Os compromissos que tenho são os que eu decidi ter, faço o que gosto há 20 anos e sou felicíssimo".»

«Há pessoas a receberem 3000 e 4000 euros por mês e choram todos os dias», acrescentou o rapper, que revelou não gastar dinheiro em excessos como carros ou joias.

«Calhou-nos um dos piores governos de sempre»

Entre os convidados deste novo disco contam-se os nomes de Sam The Kid, Sara Tavares, Orlando Santos e Gabriel O Pensador, rapper brasileiro que teve uma influência decisiva na escolha da carreira de Valete.

«Eu quis ser MC por causa do Gabriel O Pensador. Se calhar ele próprio não tem noção, mas ele é o pai do rap português. Antes do Gabriel O Pensador, mais de 50 por cento dos rappers em Portugal rimavam em inglês. Depois [do primeiro disco dele], quase todos começaram a rimar em português», recordou.

Após um contacto através do Myspace em 2007, em que o brasileiro elogiou a música de Valete, a colaboração de sonho acabou por tornar-se realidade recentemente através do tema «Nas Rimas».

«Nós somos mesmo o que rimamos. Se te mostrar quatro músicas de um MC, tu vais conhecê-lo. Tu vais perceber se ele é de esquerda, se é machista, se é homofóbico. Tu vais perceber tudo. Os MCs são muito reveladores», afirmou Valete sobre a faixa gravada com o rapper brasileiro.

Outro dos temas recentemente gravado pelo rapper chama-se «Meu País» e foi escrito depois de um dos melhores amigos de Valete ter emigrado para Angola.

«Eu também gosto que os álbuns sejam retratos das vidas das pessoas. Quero que este seja um álbum humano, a retratar condições humanas», explicou.

E a emigração é um dos retratos fortes em tempos de crise. Tempos difíceis para os que são forçados a procurar uma vida melhor fora de Portugal, mas também para os que querem e não têm condições para o fazer.

«Eu vivo na Damaia (...) e provavelmente estou lá com uma taxa de 60 ou 70 por cento de desemprego jovem. Todos aqueles miúdos estão a pensar em emigrar e alguns não o fazem porque nem têm dinheiro. E estão aqui desempregados, sem nenhum subsídio social, parados na esquina à espera do nada.»

«Homo Libero» tem edição prevista para abril do próximo ano.
João Silva / Paulo Sampaio (repórter de imagem)