“Vivemos num mundo de música descartável, música fast food. A música não é fogo de artifício, a música é sentimento”. Salvador Sobral acabava de regressar ao palco, depois da vitória da música portuguesa no Festival da Eurovisão e, questionado pelos apresentadores sobre o que sentia, foi igual a si próprio. A afirmação não terá agradado à audiência – ouviram-se alguns assobios - mas a frase foi destacada na imprensa mundial e por milhões de utilizadores nas redes sociais.

Na verdade, além da música “Amar pelos Dois”, várias afirmações de Salvador Sobral surpreenderam o mundo. Com uma honestidade quase desconcertante, “o sentimento” da música parece estar também nas suas respostas e nas suas afirmações. A TVI24 recolheu alguns exemplos que espelham isso mesmo.

“Vivemos num mundo de música descartável, de música ‘fast-food’ sem qualquer conteúdo. Isto pode ser uma vitória da música, das pessoas que fazem música que de facto significa alguma coisa. A música não é fogo-de-artifício, é sentimento. Vamos tentar mudar isto. É altura de trazer a música de volta, que é o que verdadeiramente interessa.”

 

“Pensar em mim como herói nacional seria um pouco esquisito”

Após atuar com irmã, Luísa Sobral, ambos dirigiram-se para a zona das conferências de imprensa e responderam às perguntas dos jornalistas. Uma delas sobre o futuro.

Só quero viver uma vida sossegada. Espero que isso possa acontecer, tenho a certeza que sim. Talvez no princípio seja um pouco agitado. Se pensasse em mim como um herói nacional seria um pouco estranho”, afirmou Salvador.

À chegada a Lisboa, numa pequena entrevista à RTP no aeroporto, o músico português reforçou a ideia.

“Não sou o novo herói nacional. Esse papel é do Ronaldo e espero que assim continue. O que eu gosto é de cantar”

Regressando a Kiev, na Ucrânia, e à conferência de imprensa na noite da vitória, Salvador insistiu na defesa da música “com conteúdo” e assumiu que gostava de trazer alguma mudança e dar a ouvir algo que as pessoas não estão habituadas: 

“Estão habituadas a ouvir o que passa nas rádios, com músicas que lhes são atiradas a dizer ‘tens de gostar disto porque eu vou tocá-la 16 vezes por dia’”

Durante a conferência de imprensa, o músico foi também questionado sobre o apelo que fez em relação aos refugiados e, sem se adiantar muito, confessou:

“Recebemos um e-mail da organização a dizer que não podia continuar a usar aquela camisola [que dizia 'SOS Refugiados']”, explicou Salvador Sobral, por não serem permitidas mensagens políticas ou comerciais: “Pensei que era estranho. E se vestir uma camisola da Adidas, é uma mensagem comercial? Era apenas humanitária. Já disse tudo o que tinha a dizer, não penso que deva apertar o mesmo botão outra vez”

A dada altura, enquanto procurava uma palavra em inglês, que lhe escapava, não escapou um palavrão bem português “Fo***-se” que muitos internautas fizeram questão de registar para a posteridade.

Já em Lisboa, após uma receção no aeroporto que os surpreendeu, Salvador e a irmã, Luísa Sobral, deram uma conferência de imprensa aos jornalistas nacionais.

De alguma forma e sem complexos, o músico assumiu:

Eu ainda não sei bem como vou lidar com isto, que acabou de acontecer”. Mas com um sentido de humor pouco habitual, que deixou todos a rir, acrescentou "se calhar temos de cobrar um bocadinho mais pelos concertos..."

Uma coisa é certa, a exposição mediática tem contras e para quem deseja tirar selfies com o músico, saiba o que ele pensa do assunto:

“É um bocado stressante para mim, as pessoas com as suas armas tecnológicas. Sentem que têm o direito de vir e tirar fotografias enquanto estamos a comer ou até enquanto estamos a dormir”

Mas uma das frases mais surpreendentes de Salvador Sobral foi, muito provavelmente, “sentia que me prostituía por estar ali

Foi com muita naturalidade que assumiu que nunca se imaginou no Festival da Canção e, até, que nunca ligou muito ao evento. Para ele, talvez mais do que o desafio, conquistou-o “a missão”:

“Nós termos ganho com uma canção assim pode querer significar mudança. E foi sempre assim que eu encarei o concurso. Eu tive momentos, e eles sabem… sentia que me prostituía por estar ali, que não tenho nada a ver com isto, o que é que eu estou aqui a fazer… O que me trazia de volta era pensar que estava numa missão musical”

As pessoas votaram a canção e não perceberam uma única palavra

Apesar de ter cantado em português, salvador Sobral, acha que a maior vitória foi da música:

“O idioma aqui, mais do que a língua portuguesa, foi a música. Isso foi obvio, porque na Europa inteira, as pessoas votaram a canção e não perceberam uma única palavra”