Carlos Manuel Ascensão do Carmo de Almeida nasceu em Lisboa, no bairro da Mouraria, a 21 de dezembro de 1939. Filho de Lucília do Carmo, uma das maiores fadistas do seu tempo, e do livreiro Alfredo Almeida, Carlos do Carmo nasceu no fado e nas palavras.

Viveu a infância ao ritmo da carreira da mãe, numa Lisboa que não existe. Em 2019, quando tomou a resolução de deixar os palcos, contava à TVI como a cidade lhe corria nas veias e como inspirou músicas como “Os Putos”.

Apontando uma das ladeiras do Bairro Alto, contava: “Passávamos sabão nos caixotes, púnhamos um arame no caixote e fazíamos corridas a dois [a descer a ladeira]”.

Foi na casa de fados da mãe, A Adega da Lucília (que mais tarde mudou de nome para o Faia), precisamente no Bairro Alto, que começou a cantar. “Andava no liceu Passos Manuel e vinha a casa almoçar. Comecei a cantar. Cantei o ‘Chofer de Praça’, que era uma coisa divertidíssima. A minha mãe trazia os discos do Brasil, quando fazia tournées”, recorda.

Vivia para a família e era confessadamente apaixonado por ela. Falava de coração cheio da mulher, Maria Judite de Sousa Leal, com quem casou em 1964. Do casamento, nasceram três filhos, Gil do Carmo (também ele músico), Lucília do Carmo (produtora de televisão) e Alfredo do Carmo.

Eu sou vidrado na minha mulher, vidrado nos meus filhos, vidrado nos meus amigos”, confessou, numa entrevista ao Jornal das 8 da TVI.

Viveu e cantou Lisboa como poucos e levou a cidade aos quatro cantos do mundo. Talvez tenha sido dos fadistas mais internacionais de sempre.

Da casa de fado para os discos

Gravou o primeiro EP em 1963, “Mário Simões e o seu Quarteto Apresentando Carlos do Carmo”. No mesmo ano, gravou um disco, “Carlos do Carmo e a Orquestra de Joaquim Luiz Gomes”. E depois os discos foram-se sucedendo a um ritmo alucinante. Na década de 70, gravou dezenas de discos.

Canções como “Lisboa, Menina e Moça”, “Canoas do Tejo”, “Fado Penélope”, “Um Homem na Cidaded”, “Uma Flor de Verde Pinho” ou “Os Putos” marcam memórias musicais de gerações. Cantou as palavras de Ary dos Santos como poucos, trouxe para o fado influências do jazz e da música francesa e acrescentou-lhe muito mais do que a guitarra e a viola – Carlos do Carmo trouxe para o fado a orquestra.

Sem nunca o desvirtuar, porque tinha pelo fado confessados amor e respeito, enriqueceu-o com as influências de Frank Sinatra, de grandes nomes da bossa nova, ou de Jacques Brel e Elis Regina. 

Em 2014, foi agraciado com o Grammy Latino de Carreira. Na altura, a conquista não foi notada pelo Presidente Cavaco Silva. Carlos do Carmo (sempre discreto no que à política diz respeito, mas, com a frontalidade que lhe é conhecida, sem esconder o que lhe agradava e o que desgostava) encarou esse ‘esquecimento’ como um elogio:

Nunca gostei de Cavaco Silva. Depois chegou o Presidente Marcelo, que eu conheço desde rapaz e a primeira coisa que ele fez foi condecorar-me.”

Cantou nos principais palcos do mundo: o Olympia, em Paris, a Ópera de Frankfurt, o 'Canecão', no Rio de Janeiro ou o Royal Albert Hall, em Londres.

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A Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX aponta Carlos do Carmo como "um dos maiores referenciais" no fado. A enciclopédia destaca que, desde a década de 1970, "acentuou as inovações musicais", tornando-o "no representante máximo do chamado ‘fado novo'", com trabalhos como o álbum "Um Homem na Cidade" (1977).

Embaixador do fado no mundo

Foi um dos principais e mais determinantes embaixadores da Candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, e desempenhou um "papel fundamental na divulgação dos maiores poetas portugueses", como destacou o júri do Prémio Vasco Graça Moura de Cidadania Cultural.

Despediu-se dos palcos a 9 de novembro de 2019, com um concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, tendo recebido na altura a Medalha de Mérito Cultural, do Ministério da Cultura. O Governo português justificou a condecoração como um "gesto simultâneo de agradecimento e de reconhecimento pelo inestimável trabalho de uma vida dedicada à divulgação do Fado e da música portuguesa, difundindo em Portugal e no estrangeiro a cultura e a língua portuguesas, ao longo de mais de cinquenta anos".

A medalha foi a última, entre várias distinções que recebeu, ao longo de um percurso artístico de 57 anos.

Quando da despedida dos palcos, uma “decisão difícil”, mas “pensada”, disse, em entrevista à agência Lusa: "Fiz este meu caminho que não foi das pedras, mas que considero um caminho sempre saudável e que me levou sempre a ter uma perspetiva de ser solidário com os meus companheiros (...). Não me recordo de ter feito uma sacanice a um colega de profissão. E, para esta nova geração, estou de braços abertos".

Carlos do Carmo fez o balanço da sua carreira: "Corri sempre em pista própria e não em pista de competição, nunca competi, até porque cantar não é o mesmo que correr. Há sempre gostos. Uns gostam mais de A, outros, de B. Isso não quer dizer que A ou B cantem muito bem ou cantem mal, são os gostos das pessoas".

Em 2019, recebeu o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, que o reconheceu como "um dos maiores intérpretes de um Fado que soube renovar", detentor de "uma das mais exemplares carreiras do panorama artístico português".

O júri do galardão, que contou com personalidades como o ex-presidente do Centro Nacional de Cultura Guilherme d'Oliveira Martins, realçou que, "desde cedo, a sua voz soube quebrar fronteiras, atravessar gerações, tornando o Fado uma manifestação artística de expressão universal”.

Essa expressão universal foi determinante para a Candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, de que Carlos do Carmo foi um dos embaixadores", acrescentou o júri.

Carlos do Carmo empenhou-se na promoção do fado e do seu legado histórico-cultural.

Divulgação de poetas

Foi um dos fundadores da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, tendo sido uma das personalidades que mais apoiaram a criação do Museu do Fado, em Lisboa, que contou sempre com a sua especial atenção e dedicação.

O fadista desempenhou um "papel fundamental na divulgação dos maiores poetas portugueses" referiu o júri do Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural.

Além de Vasco Graça Moura, de quem deu a conhecer um inédito, "Mariquinhas.com", no derradeiro espetáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, Carlos do Carmo cantou Mário Moniz Pereira, José Carlos Ary dos Santos, Fernando Tordo, José Saramago, Frederico de Brito, João Linhares Barbosa, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Fernando Pinto do Amaral, José Luís Tinoco, José Manuel Mendes, entre outros.

No seu derradeiro álbum, "E Ainda?", editado no passado mês de novembro, também cantou Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner Andresen, Hélia Correia, Júlio Pomar e Jorge Palma.

Outros prémios

Em 2014 além do Grammy Latino de Carreira, o intérprete de "Duas Lágrimas de Orvalho" recebeu também o Prémio Personalidade do Ano/Martha de la Cal, da Associação Imprensa Estrangeira em Portugal.

No ano seguinte, recebeu a mais elevada distinção da capital francesa, a Grande Médaille de Vermeil.

No seu último concerto, recebeu também a chave da cidade de Lisboa, uma honra dada habitualmente apenas aos chefes de Estado que visitam Portugal.

O intérprete de "Vim para o Fado e Fiquei" foi agraciado com o Grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, a 04 de setembro de 1997, pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, e com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, a 28 de novembro de 2016, pelo atual chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa.

Aos mais novos, com quem confraternizou e partilhou estúdios e palcos, como Camané, Mariza, Marco Rodrigues, Ricardo Ribeiro ou Cristina Branco, deixou um conselho: "Quem fizer uma carreira como eu fiz - e há gente da nova geração, felizmente, que a está a fazer -, com ar paternalista, recomendo: 'cuidado com a tua saúde, vai, faz, tens todo o direito, quanto há vento é que se molha a vela, mas muito cuidado com a tua saúde, estas coisas da saúde não avisam e quando tu estiveres mal é que vais ver que o esforço é inglório'".

Manuela Micael