Onze anos depois da estreia, oito desde a última vez, os Pearl Jam regressaram ao Passeio Marítimo de Algés para brindar os portugueses com uma boa dose de "grunge", o som que há, praticamente, três décadas ajudam a espalhar pelo mundo (não são os únicos, já lá iremos). Iguais a si próprios, mas com um alinhamento muito especial, souberam dar aos fãs aquilo que esperavam: memórias de um concerto único.

Era um espetáculo que se fazia anunciar. A julgar pelas t-shirts que se viam passear pelo recinto, podia dizer-se, desde muito cedo, que a maioria dos milhares de festivaleiros que passavam as portas do NOS Alive vinham para ver Pearl Jam. A enchente que se notou em frente ao palco na hora do início do concerto confirmou a suspeita, assim como a debandada no final (quando ainda faltavam atuar os MGMT). Aliás, nunca durante os três dias de festival se viram tantos festivaleiros em frente ao palco principal, confirmava-se, por isso, que a banda não só era o grande nome do dia – os bilhetes estavam esgotados desde dezembro -, mas também da edição de 2018.

O tiro de partida foi dado por “Low Light”, tema do álbum "Yield", lançado em 1998, que serviu apenas para atrair os mais distraídos para o palco principal. Eram poucos os que acompanhavam o tema, junto com o vocalista, foi a segunda música da noite que arrancou os pés do chão dos presentes: “Better Man”, um dos clássicos da banda, que abriu o apetite para o que estava para vir.

Seguiram-se várias intervenções de Eddie Vedder, que, em bom português, foi saudando o público. Não só com um habitual “como estão?”, frase feita, utilizada por tantos outros grupos. Sempre em português, num conjunto de frases o vocalista agradeceu o convite “para o festival de verão”, referiu que estava muito contente por ver todos os presentes e que estava feliz por “regressar a Lisboa.” E não foi a única referência que fez a Portugal, mais à frente, Vedder fez questão de lembrar “uma música que tocaram há 22 anos em Cascais”, “Even Flow”, que a banda apresentou de seguida. Vale salientar, ainda, que, durante o espetáculo, foram vários os brindes dirigidos ao público, ao país e a amigos portugueses (mesmo que, por vezes, não fossem bem perceptíveis as palavras ditas na língua de Camões) e que o frontman acabou o concerto com um cachecol com as cores nacionais ao pescoço.

O repertório prosseguiu com uma mistura de temas do já longo trabalho da banda, uma mistura de temas já lançados após o ano 2000, sem esquecer os clássicos como “Daughter”, “Jeremy”, “Black” e “Alive”. Todas bem-vindas, mas já esperadas. Porém, a banda tinha surpresas na manga para o público do NOS Alive, um encore de covers que arrancou com “Imagine”, de John Lennon, passou pela “Comfortably Numb”, dos Pink Floyd, mostrou o riff da “Seven Nation Army”, dos White Stripes, e terminou com “Rockin’in the Free World”, de Neil Young. Este último tema foi já tocado ao lado de Jack White (ex-White Stripes) que subiu ao palco novamente, o mesmo que tinha deixado há pouco mais de duas horas.

Coube aos norte-americanos MGMT continuar a noite, na ingrata posição que é suceder a Pearl Jam. Ainda assim, mesmo depois da saída de milhares de pessoas, ainda conseguiram dar um espetáculo memorável. Eles que não vieram ao acaso e chegaram a Lisboa com novo álbum na bagagem (Little Dark Age), lançado em fevereiro.

 Voltando a Jack White, o ícone da guitarra veio ao NOS Alive também com álbum novo na bagagem (Boarding House Reach), aliás, fez questão de começar logo por um dos singles novos a abrir: “Over and Over and Over”. O tema tem um riff contagiante – ao estilo que o artista já habituou o seu público – que chegou para abrir um concerto que trouxe ao Passeio Marítimo de Algés uma espécie de coletânea do músico, uma parada de temas dos álbuns a solo e dos grupos a que White pertenceu como The Racounteurs e White Stripes.

White será sempre um génio da guitarra, mas os temas dos álbuns a solo não conseguiram arrastar a multidão como conseguiam em tempos os de White Stripes. Prova disso foi o encerramento do concerto, quando centenas corriam para mais perto para conseguir captar a última da noite: “Seven Nation Army”, clássico dos White Stripes. Jack White que não leve a mal ao público português, aconteceu o mesmo a Robbert Plant, que pisou o mesmo palco há dois anos, e só conseguiu acordar a multidão quando revisitou os temas dos seus Led Zeppelin.

Impacto geral tiveram os escoceses Franz Ferdinand. É incrível reparar como em pouco mais de década e meia de existência a banda já consegue fazer um concerto quase só de “hits”.

Começaram com  “Do You Want To”, antes de um “boa noite”, claro, em português. Seguiu-se “The Dark of the Matinee” e a nova “Always Ascendig”, do álbum com o mesmo nome, lançado este ano. Foram dançando entre temas novos e antigos, com carinho suficiente pelo público para não deixarem de fora músicas como “Lazy Boy”, “Ulysses” e (as últimas do concerto) “Take me Out” e “This Fire”.

É altura de voltar a referir a presença do grunge no último dia do festival. Este não é um estilo apenas dos Pearl Jam, quem também contribuiu para o seu desenvolvimento e globalização foram os Alice in Chains, que também pisaram o palco, logo pouco depois das 18:00. 

Com mais de três décadas de história, a banda que parecia irremediavelmente terminada depois da morte do vocalista Layne Staley, em 2002, anda na estrada já há 12 anos com William DuVall no papel principal (e com quem já gravaram três álbuns). O último, "Rainier Fog", está pronto, mas só sai da gaveta no próximo mês. Pouco importa, a banda tem clássicos suficientes para um bom concerto, igual ou melhor que o de 2010 (também no Alive).

Temas como “Man in the Box”, “Would?” e “Rooster” mostraram que os Alice in Chains ainda sabem mostrar ao público que há outros lados do grunge, além do popularizado pelos Pearl Jam e pelos Nirvana. A distância no alinhamento para os cabeças de cartaz não lhe retira o lugar de uma das maiores bandas do género.

Do último dia, vale ainda salientar a banda que deu o tiro de partida no palco NOS: The Last Internationale. Os norte-americanos tocaram para um recinto que ainda estava a encher, o que acabou por deitar um pouco a perder toda a energia que os caracteriza. A banda não só não é estranha por terras lusas (estiveram cá em 2016 e 2017), como dois dos membros são descendentes de portugueses, como fizeram questão de demonstrar principalmente pelas palavras em português. Algumas demasiado inapropriadas para incorporarem este texto.

O festival volta em 2019, nos dias 11, 12 e 13 de julho, no mesmo local. Aliás, o Passeio Marítimo de Algés vai ser casa do NOS Alive por mais cinco anos, pelo menos, anunciou este sábado a organização.

Élvio Carvalho