A ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou a morte do músico e produtor José Mário Branco, dizendo que “resistir, em Portugal, terá sempre um disco [seu] como banda sonora”.

Numa mensagem publicada na conta oficial do ministério, na rede social Twitter, José Mário Branco é lembrado como um “nome maior da música portuguesa” e uma “voz de luta e de intervenção”.

"[A] Ministra da Cultura lamenta profundamente a morte de José Mário Branco, nome maior da música portuguesa. Voz de luta e de intervenção, o seu legado é intemporal e é património coletivo", acrescentou, na mesma mensagem.

Também o Presidente da República lamentou a morte do cantautor, lembrando José Mário Branco como "uma figura que ajudou a marcar uma viragem histórica em Portugal" que "nunca aceitou honrarias, nunca aceitou condecorações".

"Foi uma referência do período de resistência à ditadura, da revolução e pós-revolução de Abril e de uma geração que, através da sua voz, exprimiu a vontade de mudança política económica e social na sociedade portuguesa: O seu desaparecimento representa uma grande perda. Era uma pessoa muito independente, muito firme nas suas convicções e muito mobilizador por uma certa austeridade de comportamento e firmeza na luta. Foi sempre um revolucionário, um insatisfeito, desejando sempre muito mais e muito melhor", pode ler-se na mensagem publicada na página da Presidência.

Marcelo Rebelo de Sousa lembra que José Mário Branco "era um escritor de canções, e um dos mais consensuais músicos portugueses, embora tenha sempre sido um homem de convicções, mais do que de consensos".

"A sua música era trauteada e cantada por pessoas de vários quadrantes políticos, mas aquilo que marcava a sua música era um desejo de mudança profundo, sincero. A música moderna portuguesa deve-lhe não apenas os seus discos, magistrais, mas também aqueles que produziu, o trabalho de todos os artistas que, além do talento que têm, evoluíram e aprimoram com José Mário Branco a sua voz, a sua dicção, a sua arte, nomeadamente os fadistas. A sua forte consciência política, que se manifestou nas canções, nas tomadas de posição, e, em vários momentos, na militância, não o impediram de contribuir para resgatar um género como o fado de definições e constrangimentos e entendimentos redutores".

O Presidente da República deixa ainda "o seu pesar e a sua gratidão" à família, e em especial sua mulher de José Mário Branco, Manuela de Freitas.

Antifascista e figura ímpar da música de intervenção

O presidente da Assembleia da República manifestou-se consternado com a notícia da morte de José Mário Branco, considerando que foi um "antifascista", um dos maiores nomes da canção portuguesa e uma "figura ímpar da música de intervenção".

"Foi com grande consternação que acabei de saber do falecimento, aos 77 anos, de José Mário Branco. José Mário Branco é inquestionavelmente um dos maiores nomes da canção portuguesa, num percurso que começou muito antes do 25 de Abril e que durou até aos dias de hoje. E que durará, na verdade, enquanto tivermos memória", escreveu Ferro Rodrigues numa mensagem de pesar enviada à agência Lusa.

Como autor, segundo o presidente da Assembleia da República, ficarão de José Mário Branco "álbuns incontornáveis da música portuguesa, como "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (1971), "Margem de Certa Maneira" (1973), "FMI" (1982), "Correspondências" (1990) ou "Resistir é Vencer" (2004)".

"José Mário Branco foi uma figura ímpar da música de intervenção, da canção de Abril, tendo a sua música sido rica no recurso a vários géneros musicais, do cancioneiro popular à clássica, passando pelo rock, o jazz ou a música francesa. Ficarão também na memória coletiva as suas colaborações com outras figuras maiores da música portuguesa, como José Afonso, Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho, Manuela Azevedo ou Camané", referiu também Ferro Rodrigues.

Nesta sua mensagem, Ferro Rodrigues destacou também que José Mário Branco foi um "antifascista, perseguido pela PIDE" e "a sua intervenção cívica empenhada e atividade política levaram-no ao exílio em França no tempo da ditadura (em 1963), onde, apesar da distância, nunca deixou de aspirar e lutar pelo fim do regime".

"Regressou a Portugal em 1974, com a liberdade, para ajudar a construir um País mais justo, propósito que nunca deixou de o inquietar. Hoje é um dia de enorme tristeza pessoal. À família (nomeadamente aos filhos e netos) e aos muitos amigos, quero transmitir, em meu nome e em nome da Assembleia da República, a expressão do mais sentido pesar, assim como reconhecer a importância da obra que José Mário Branco deixou ao país, bem como o seu exemplo de inconformismo, coerência e rebeldia", acrescentou Ferro Rodrigues.

"Que possa sempre honrar o seu exemplo"

Nas redes sociais, foram muitas as reações à morte de José Mário Branco, de várias personalidades do mundo da música e não só. 

A rapper Capicua escreveu no Facebook que teve pena de não ter conhecido pessoalmente José Mário Branco para lhe agradecer o exemplo, assinalando que espera "sempre" honrá-lo. 

Já o escritor Valter Hugo Mãe referiu-se à morte do cantautor como uma "insuportável notícia", acrescentando: "Que génio perdemos agora".

Também o músico Sérgio Godinho manifestou uma "dor muito profunda" pela morte de José Mário Branco, um autor "riquíssimo e fundamental na música portuguesa", disse à agência Lusa.

"Tenho uma dor muito profunda, de repente esta morte súbita. Sempre fomos extremamente leais. Nunca houve um desentendimento. No essencial estivemos sempre próximos e cúmplices. [...] Somos irmãos de armas. As nossas vidas tocaram-se muito e tocaram-se em muitas aventuras criativas e pessoais", afirmou o cantautor.

Sérgio Godinho recorda-se de ter conhecido José Mário Branco em Paris, onde este estava exilado: "E imediatamente desenvolvemos uma amizade. [...] Começámos a fazer parcerias e letras para aquilo que viria a ser o seu primeiro disco, e o meu primeiro disco, que foram gravados mais ou menos ao mesmo tempo".

Independentemente da amizade que os uniu ao longo de décadas - reavivada ainda no espetáculo "Três cantos", com Fausto Bordalo Dias -, Sérgio Godinho considera que José Mário Branco "teve uma importância fundamental no renovar da música portuguesa" e sublinha dois artistas com quem ele trabalharam: José Afonso e Camané.

Sérgio Godinho nomeia "a enorme etapa no desenvolvimento sonoro" dos discos do Zeca Afonso que tiveram participação de José Mário Branco e a ligação "absolutamente fulcral" com o fadista Camané. "Foi ele que impulsionou muito".

"Era alguém riquíssimo e fundamental na música portuguesa", disse o músico de 74 anos.

A última vez colaboraram foi no álbum "Nação Valente", de Sérgio Godinho, em que José Mário Branco escreveu a música "Mariana Pais, 21 anos".

Nascido no Porto, em maio de 1942, José Mário Branco é considerado um dos mais importantes autores e renovadores da música portuguesa, em particular no período da Revolução de Abril de 1974. O seu trabalho estende-se também ao cinema e ao teatro.

Foi fundador do Grupo de Ação Cultural (GAC), fez parte da companhia de teatro A Comuna, fundou o Teatro do Mundo, a União Portuguesa de Artistas e Variedades e colaborou na produção musical para outros artistas, nomeadamente Camané, Amélia Muge ou Samuel.

Estudou História nas universidades de Coimbra e do Porto, foi militante do PCP até ao final da década de 60 do século passado e a ditadura forçou-o ao exílio em França, para onde viajou em 1963, só regressando a Portugal em 1974.

Em 2018, José Mário Branco cumpriu meio século de carreira, tendo editado um duplo álbum com inéditos e raridades, gravados entre 1967 e 1999. A edição sucede à reedição, no ano anterior, de sete álbuns de originais e um ao vivo, de um período que vai de 1971 e 2004.