A noite, uma das mais quentes do ano, era de celebração do sucesso da estreia a solo de Rita Redshoes. Ao longo dos últimos 14 meses, as canções de «Golden Era» foram ficando no ouvido de muitos portugueses e esta seria a altura certa para um concerto especial em Lisboa.

Os bilhetes para o espectáculo no Cinema São Jorge rapidamente esgotaram, para a surpresa da própria cantautora, e foi acrescentada uma segunda data. As expectativas à volta dos dois concertos aumentaram e Rita prometeu duas noites bem especiais.

Sapatos vermelhos à espera de Dorothy?

Na sala emersa em fumo, as luzes apagaram-se 20 minutos depois das 22h00. Ficou apenas um foco, iluminando dois sapatos vermelhos de salto alto, à espera da sua Dorothy. Rita Redshoes, de vestido preto, não percorreu uma estrada de tijolos amarelos, mas desceu uma escadaria desde o cimo de um piso onde se avistavam as silhuetas de quatro Ritas.

A verdadeira, calçou os sapatos com um sorriso nos lábios e lançou o primeiro «boa noite» já de guitarra ao ombro. Por trás, nas laterais de um palco pintado em tons de vermelho, dois R's enormes que pareciam retirados de um letreiro de casino de Las Vegas. E a juntar à banda que habitualmente a acompanha, Rita teve quatro alegres dançarinas.

Arranque com novo tema

A celebrar o sucesso de «Golden Era», mas de olhos postos no futuro, Rita deu início à sua actuação com «Stupid Song», tema com fortes probabilidades de ser incluído no segundo disco da cantora.

O público começou a ser conquistado pela simpatia tímida da ex-Atomic Bees e por «Dream On Girl», «Your Waltz» e «Choose Love», este último o mais recente single e ainda bem fresco nas rádios.

Passagem pela country de pés descalços

A primeira versão surgiu ao quinto tema. O norte-americano Ricky Nelson foi recordado através de «Lonesome Town» e a atmosfera country serviu de rampa de lançamento para outro dos grandes êxitos da menina dos sapatos vermelhos - «The Beginning Song».

Antes de continuar pelas sonoridades do sul dos EUA com uma bem alegre «Love, What Is It?», Rita, já descalça, confessou o desconforto em andar de saltos altos, fruto de uma queda no metropolitano. «Preciso de um cócix novo», brincou.

Rita foi Nancy de botas vermelhas

A atmosférica «Minimal Sounds» abrandou o passo, mas nem por isso foi menos bem recebida pelo público, já então rendido à voz da cantora. Já depois de dançar ao som de «Oh My Mr. Blue», Rita surgiu de vestido e botas vermelhas.

Era a altura para uma nova cover, desta feita de «These Boots Are Made For Walkin'», de Nancy Sinatra, transformada na letra em «these shoes are made for walkin'». Um dos melhores momentos do espectáculo e aquele em que, talvez por encarnar uma personagem diferente, Rita se libertou totalmente de qualquer insegurança e revelou o potencial que tem para se tornar numa frontwoman ao nível de PJ Harvey, Tori Amos ou Cat Power.

«Ring of Fire» e repetições escusadas

Até ao final do concerto, destaque para «Hey Tom», a apresentação de outro novo tema - «Waves of Emotion» -, e nova versão: «Ring of Fire», de June Carter e popularizada por Johnny Cash. Rita tocou-a num autoharp, instrumento de estimação comprado na visita ao Texas durante o festival South By Southwest.

Escusados, foram os dois últimos temas do alinhamento - as repetições de «The Beginning Song» e «Choose Love», que provavelmente não tiveram o efeito desejado para um final em apoteose.

Foi um concerto morno, que, apesar do saldo positivo, mostrou que ainda existe espaço para melhorias. Nada que não se resolva com «mais estrada», porque o talento, esse, está lá sem dúvida alguma.