Quem passa perto da Fira Gran Via, em Barcelona, não sabe o que vai lá dentro. Frase cliché, mas com fundamento. Por estes dias, neste centro de eventos da capital da Catalunha realiza-se o Mobile World Congress, a maior feira de dispositivos móveis. Os milhares que por lá passaram neste primeiro dia concordarão que o título lhe assenta bem.

Porém, desengane-se quem pensa que este é um evento virado apenas para os "Mobile", para os telemóveis. Não foi nos últimos anos, nem começaria agora.

É certo que a feira é conhecida por ser aqui que se revelam os novos smartphones das grandes marcas, normalmente, os topo de gama. Mas dentro da Fira há espaço para outras tecnologias, das comunicações à medicina, passando pela realidade virtual e pelos wearables.

Smartphones

Em primeiro lugar os telemóveis, que foi para isso que grande parte veio a Barcelona. Não podemos enumerá-los todos e as suas particularidades, ou o leitor pararia de ler antes de da parte dedicada ao resto da feira, por isso vamos concentrar-nos em quatro das grandes marcas.

Com a ausência da Samsung neste setor, que apenas vai desvendar o S8 no final de março, há duas multinacionais que, mesmo neste conjunto mais restrito, se destacam claramente: Huawei e Nokia, cada uma por razões diferentes.

A primeira trouxe a Barcelona dois dos mais avançados smartphones do mercado, os novos flagship da marca chinesa: P10 e P10 Plus. Modelos que apostam claramente no design (disponível em oito cores, desenvolvidas em parceria com a Pantone) e na qualidade da câmara, apelando ao consumidor que abandone a ideia de comprar uma profissional sendo o P10 suficiente para conseguir as melhores fotografias. 

Os modelos são parecidos ao nível do design e câmara (ambos trazem duas câmaras traseiras de 12MP + 20MP e uma frontal de 8MP), ao nível do processador (Kirin 960 octacore) e da RAM (4GB). Diferenciam-se quanto ao tamanho do ecrã (5.1’ e 5.5’), da resolução (1920x1080 e 2560x1440) e da bateria (3200mAh e 3750mAh).

A aposta no design notava-se mesmo no stand principal da marca, onde os telemóveis foram apresentados como um artigo de elegância.

A Nokia regressou ao mercado (através da HMD Global, que comprou os direitos para fabricar telemóveis com o nome da antiga líder de vendas), com três novos smartphones com sistema Android: os Nokia 3, 5 e 6 (este até agora só disponível na China). São bastante semelhantes, tanto no tamanho, design e, até, nos detalhes técnicos, diferenciando-se principalmente na resolução da câmara e no tamanho do ecrã. 

Nokia 3  5 6
Ecrã 5.0" 5.2" 5.5"
Resolução 720x1280 720x1280 1080x1920
Câmara 8MP (traseira e frontal) 13MP (T) + 8MP (F) 16MP (T) + 8 (F)
Memória 16GB 16GB 32GB
RAM 2GB 2GB 3GB
Processador 4C mediatek 6737 8C Quadcomm Snapdragon 430

Marcam o regresso da marca finlandesa ao ramo que a tornou famosa no final do século passado e início do atual, uma ocasião que a multinacional quis assinalar de forma nostálgica, ressuscitando um dos seus modelos mais vendidos (mais de 120 milhões de unidades): o Nokia 3310.

Este é já uma das estrelas do MWC 2017, uma surpresa (ou não) visto que se trata de um telemóvel “simples” e não de um smartphone. Consegue fazer tudo o que o antecessor fazia, mas agora apresenta um design renovado, é mais fino e vem em várias cores.

O ecrã é pequeno, mas desta vez é a cores. O teclado é o tradicional T9, tem internet (2.5G) (o suficiente para pesquisar ou mesmo ir ao Facebook, com dificuldades) e uma câmara de 2MP. O trunfo do telemóvel continua a ser a bateria, que agora dura um mês, ou 22 horas em chamada.

Destaque também para a LG e a Sony. A primeira trouxe a Barcelona o novo G6, o substituto do mal-amado G5, o telemóvel modular que não convenceu o público e obrigou a LG a voltar aos smartphones imutáveis.

O G6 segue a tendência da concorrência e vem com duas camaras traseiras (13MP + 13MP) e uma frontal melhorada (5MP). É resistente à agua e a poeiras e tem uma bateria de 3300mAp. No interior, tem um processador Qualcomm Snapdragon 821, 4GB de RAM e 32/64GB de memória, que podem ser aumentados ate 2 terabytes com cartão de memória.

A japonesa Sony não quis ficar para trás e revelou em Barcelona o novo Xperia XZ Premium. Um smartphone resistente à água e poeiras com um ecrã de 5.5” e resolução 4K HDR. Tem uma câmara “Motion Eye” de 19 MP. Traz um Qualcomm Snapdragon 835, com 4GB de RAM e 64GB de memória.

Neste MWC ainda não foi possível testar o telefone em mão, que deverá ser lançado algures na primavera.

Menções honrosas também para a Lenovo (Motorola), Wiko, HTC e ZTE, que têm em exposição bons produtos (veja na galeria de fotos), mas que devem continuar a ter pouca expressão no mercado português.

Os produtores de smartphones não deixam de lado os ecrãs maiores e dão destaque também aos phablets e tablets. Neste campo já entra a Samsung, que no domingo apresentou o Galaxy Tab 3, um tablet de última geração com um ecrã de 9.7” sAmoled (2.048x1536), processador Snapdragon 820, quadcore, com 4GB de RAM, 32 GB de memória (até 256GB com cartão de memória) e uma bateria de 6.000mAh, e que acaba por ser o destaque deste campo.

5G

Como era esperado, um dos grandes temas deste Mobile World Congress é o futuro das comunicações, o 5G. Uma tecnologia que deverá chegar em força nos próximos anos e que promete velocidades nunca alcançadas.

Velocidades que vão abrir portas além das telecomunicações e vão produzir novas maravilhas da engenharia para a indústria, robótica e medicina.

  

No stand da Ericsson é possível observar um desses “testes” ao 5G. Um braço robótico controlado à distância por uma mão que poderá revolucionar a forma como se realizam cirurgias. Um médico poderá operar um doente, mesmo a milhares de quilómetros, com a mesma sensibilidade que teria no bloco operatório.

O 5G entra aqui na parte da velocidade das transmissões de dados e imagens, que permitirá um atraso na transmissão praticamente indetetável.

Veja a demostração no vídeo abaixo, com a explicação de José Araújo, da Ericsson.

Realidade Virtual e Wearables

O CEO do departamento de telemóveis da Huawei, Kevin Ho, disse à TVI24 que a aposta da empresa chinesa nos próximos anos passará pela realidade virtual (VR) e não foi por acaso. Quem entrou no MWC hoje percebe essas declarações perfeitamente. O VR, principalmente, os óculos VR estão espalhados por todo o lado, assim como outros gadgets de realidade aumentada.

Exemplo perfeito disso é o Yoga Book da Lenovo, pensado para um nicho específico, mas que deixa a sensação de estarmos a anos-luz da tecnologia que existia no início do século. Trata-se de uma mistura de tablet e computador portátil que consegue ler escrita manual. Com uma folha sobre o teclado, é possível escrever à mão e o Yoga Book deteta na perfeição aquilo que desenhámos.

As marcas não esquecem os wearables, isto é, os relógios e braceletes inteligentes, e colocam os últimos modelos à vista dos visitantes do MWC, como se peças da tradicional joalharia se tratassem.

Neste setor, vale destacar o Huawei Watch 2, apresentado no domingo, que coloca a barra alta para a concorrência do setor ao combinar funções de vários dispositivos de fitness, como contador de passos e medidor de pulsação, com a possibilidade de realizar chamadas, ouvir música e, o item mais inovador, fazer pagamentos. Tudo isto aliado a uma bateria, que com uma utilização normal deverá aguentar dois dias e no modo que apenas mostra as horas, cerca de um mês.

 
Élvio Carvalho / Em Barcelona