O Presidente da República manifestou-se hoje contra uma crise política, apelou ao consenso e alertou os partidos para as exigências do período pós troika, seja quem for que estiver no poder, num discurso criticado por toda a oposição.

«Reafirmo a minha profunda convicção de que Portugal não está em condições de juntar uma grave crise política à crise económica e social em que está mergulhado. Regrediríamos para uma situação pior do que aquela em que nos encontramos», salientou Cavaco Silva, no discurso que proferiu na sessão solene do 25 de Abril.

O chefe de Estado apelou aos partidos para que definam as suas estratégias além dos calendários eleitorais, dizendo ser «uma ilusão pensar que as exigências de rigor orçamental irão desaparecer no fim do programa de ajustamento, em meados de 2014» e alertando que, se persistir uma visão imediatista, «de nada valerá ganhar ou perder eleições, de nada valerá integrar o Governo ou estar na oposição».

«É essencial alcançar um consenso político alargado que garanta que, quaisquer que sejam as conceções político-ideológicas, quaisquer que sejam os partidos que se encontrem no Governo, o país, depois de encerrado o atual ciclo do programa de ajustamento, adotará políticas compatíveis com as regras fixadas no Tratado Orçamental que Portugal subscreveu», defendeu, num discurso que foi sendo pontuado por vários apartes das bancadas da oposição.

Cavaco defendeu ainda existir hoje uma «fadiga de austeridade» no país ¿ mas pedindo que não se explore a ansiedade e inquietação dos cidadãos -, pediu que o desemprego seja uma «prioridade da ação governativa» e destacou, apesar das «consequências gravosas» do programa de assistência financeira, os objetivos alcançados e o sentido de responsabilidade revelado pelos portugueses.

Nas reações, a oposição foi unânime em considerar o discurso de Cavaco Silva como «partidário» e de «fação», enquanto a maioria PSD/CDS-PP considerou a intervenção equilibrada e com sentido de responsabilidade.

O líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho, acusou o Presidente da República de ter feito um discurso «claramente partidário», considerando que Cavaco Silva «apadrinhou» a política de austeridade do Governo e em nada contribuiu para o consenso nacional.

Para o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, o discurso do Presidente da República parecia o de um primeiro-ministro ou de um primeiro-ministro adjunto, enquanto José Luís Ferreira, do Partido Ecologista «Os Verdes», o equiparou uma intervenção de um membro do Governo.

Na mesma linha, o coordenador do Bloco de Esquerda João Semedo defendeu que o Presidente da República fez um «discurso de fação», citando até José Sócrates para reiterar que o executivo PSD/CDS é um Governo «de iniciativa presidencial».

Pelo contrário, o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, elogiou o discurso «equilibrado e corajoso» do chefe de Estado, enquanto o presidente da bancada democrata-cristã Nuno Magalhães salientou o «sentido de responsabilidade» de Cavaco Silva.

Nos discursos na sessão solene ¿ em oito intervenções, apenas três foram proferidas por homens ¿, PCP, BE e Verdes voltaram a pedir eleições antecipadas, enquanto o PS, pela voz de Alberto Costa, preferiu lembrar o segundo chumbo consecutivo do Tribunal Constitucional a normas orçamentais do Governo PSD/CDS.

Pela maioria, Carlos Abreu Amorim (PSD) apelou aos consensos políticos e a um travão na emigração, enquanto o CDS preferiu centrar a intervenção na situação europeia, com a deputada Cecília Meireles a manifestar-se contra «uma Europa que se arrependa de exigir o impossível».

Na sua intervenção, a presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, apelou ao combate à pobreza, que «atinge a universalidade da democracia», defendendo que «uma vida digna é indissociável de uma vida livre».

LUSA