Manuela Ferreira Leite considerou, esta quinta-feira, no seu espaço de opinião na 21.ª Hora da TVI24, que as relações familiares entre membros do Governo não são ilegais, mas podem condicionar o normal funcionamento do Conselho de Ministros, uma vez que se trata de um "órgão de debate, de controvérsia, de analise de diplomas que tem a ver com o país e que muitas vezes são incompatíveis entre uns e outros".

Falando no seu espaço de opinião, a antiga ministra das Finanças referia-se em específico ao caso do Ministro da Segurança Social, Vieira da Silva, e da Ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, pai e filha com assento no Conselho de Ministros.

"Olho para isso com os olhos não tão facciosos quanto muitas vezes têm sido feito na opinião publica. (...) Aquilo que está em causa, que deverá ser ponderado é se no mesmo Conselho de Ministros deverá estar pessoas tão intimamente ligadas por laços familiares. (...) Nada disto é ilegal, mas aquilo que se percebe é que havendo relações intimas tão próximas «quem o feio ama bonito lhe parece» e, portanto, com alguma dificuldade uma filha critica o projeto que o pai leva a conselho de ministros e vice versa. O debate, a controvérsia, o contraditório perde-se ou pelo menos enfraquece", considera a antiga ministra.

Para Manuela Ferreira Leite, a existência de tantos familiares no governo socialista são resultado da falta de opções do primeiro-ministro e da "criminalização" dos cargos políticos. 

"Costa não tem opções, não foi capaz de captar um professor da universidade, ou ir buscar alguém a cultura, que alargasse o leque de propostas para o país e uma outra visão mais equilibrada e provavelmente diferente relativamente ao país quando as coisas não se passam tanto em termos de natureza de amizade e familiar. Mas penso que este problema - que poderá ser empobrecedor do Conselho de Ministros e do que poderá ser a visão e a discussão politica para o país - não é um problema que não vá ter continuidade. Acredito que o primeiro-ministo desejasse ter outro tipo de composição e que no fundo só conseguiu que fosse para o conselho de ministros ao seus próximos, os amigos, que por amizade não dizem que não. E, portanto, não teve outra solução senão de certeza que a teria adotado. E não vai ter ele essa solução nem os próximos que venham porque é este o ponto que eu acho mais grave. É que o ambiente, a legislação, tudo o que se tem criado à roda do que são os políticos...", conclui.

Brexit: “É a imprevisibilidade das consequências que está a amedrontar os cidadãos”

Já quanto ao impasse vivido no Reino Unido, Manuela Ferreira Leite considera é uma questão em que "ninguém se entende" porque as "consequências são imprevisíveis" e "ninguém previa como é que se saía nem ninguém consegue prever quais são as consequências".

"Não tenho duvidas de que as consequências são imprevisíveis e é por serem imprevisíveis que dirá que ninguém se entende. E isto é uma coisa que tem origem já de algum tempo. O Reino Unido sempre foi um parceiro da União Europeia que se sempre se comportou como a Europa é aquela ilha e os outros e sempre foi, porque é um país rico, como um contribuinte líquido da União Europeia. Ser contribuinte líquido significa dar mais, contribuir mais do que aquilo que recebe. Isso era um ponto que sempre os incomodou bastante porque só se habituaram a fazer os cálculos só com os números quanto dou e quanto recebo em dinheiro e nunca contabilizaram, provavelmente, nem nunca avaliaram com grande profundidade, os benefícios que existem na União Europeia".

Para a comentadora da TVI24, "toda esta imprevisibilidade, que não se sabe como vai acabar" faz com que se perceba que "a construção da União Europeia não é tão frágil quanto se pensava".

"Há quem olhe para a União Europeia como uma construção um bocadinho fantasiosa, artificial, com pouca solidez… e, no entanto, agora percebe-se que as interdependências que estão criadas entre os diferentes países da União Europeia são de tal forma fortes e solidas que mexer-lhes não é fácil. É algo de muito mais complexo, com muito mais consequências, com interdependências bem fortes e bem sólidas e talvez esteja aí o motivo – houve essa perceção na altura da Grécia –. Perceberam que era o tipo de decisão que não sabiam as consequências. É evidente que isto é algo de muito complexo porque ninguém previa como é que se saía nem ninguém consegue prever quais são as consequências. E eu acho que é a imprevisibilidade das consequências que está a amedrontar os cidadãos", reitera.

/ AM