Miguel Sousa Tavares criticou, esta segunda-feira, a detenção de Bruno de Carvalho. No comentário semanal no "Jornal das 8" da TVI, o jornalista defendeu que “as pessoas são detidas depois de ouvidas por um juiz, quando o juiz entende que há indícios suficientes para manter em prisão preventiva”.

Para o também escritor, não faz sentido que o ex-presidente do Sporting tenha sido detido a um domingo para ser ouvido apenas na terça-feira, quando há um mês se voluntariou para prestar declarações no DCIAP e no DIAP. 

Ser detido previamente é um abuso, é uma violência injustificada, é uma humilhação injustificada e, sobretudo para o comum das pessoas que não está a par das minudências jurídicas, isto insinua logo uma culpabilidade sobre a pessoa que ainda nem sequer foi ouvida. Isto é absolutamente inaceitável e inadmissível e repete-se sistematicamente", começou por afirmar.

"Não se pode chegar a casa das pessoas e levar tudo"

Para Miguel Sousa Tavares é também "um abuso total" a GNR ter levado o computador da filha de Bruno de Carvalho para investigar e procurar possíveis provas. O comentador sublinhou que se trata de "uma adolescente e que não vai ser arguida".

Não se pode chegar a casa das pessoas e levar tudo indiscriminadamente. Tem de haver o mínimo de decoro e de respeito pela privacidade alheia, que nesse caso, pelo que está à vista, não houve”, defendeu.

"Acusação de terrorismo é totalmente descabida"

Miguel Sousa Tavares criticou ainda o facto de o ex-presidente do Sporting ser acusado de terrorismo no âmbito do processo do ataque a Alcochete, em maio. Para o comentador, a acusação de terrorismo, um dos 56 crimes que consta no mandado de detenção de Bruno de Carvalho, não faz o menor sentido.

A acusação de terrorismo aqui é totalmente descabida, como está no mandado de captura. Destina-se a permitir dizer que o processo é de especial complexidade e pode demorar indefinidamente. A meu ver este processo não é de complexidade nenhuma. Pelos factos que estão à vista, é muito fácil saber o que se passou, quem foram os autores morais, quem foram os mandantes (…) Parece que estamos a brincar com coisas sérias. Terrorismo é coisa séria, isto não tem nada a ver com terrorismo".

"Bruno de Carvalho ganhou o Sporting como Bolsonaro ganhou no Brasil"

Sobre a possibilidade de Bruno de Carvalho emergir como possível mandante do ataque a Alcochete, Miguel Sousa Tavares sublinhou que respeita a presunção de inocência, mas admitiu que as suspeitas são fortes.

O comentador disse não ter dúvidas de que o que se passou em Alcochete, a 15 de maio, “só pode ter acontecido com cumplicidade vinda de ao mais alto nível”, uma vez que se permitiu que os agressores entrassem livremente na academia.

Para Miguel Sousa Tavares, havia indícios, não de que Bruno de Carvalho tenha sido propriamente o mandante do ataque, mas que, “pelo menos alguém, muito colocado altamente, achou que o presidente do Sporting não se importaria muito que os jogadores levassem um susto”.

O comentador sublinhou que, desde o início do mandato no Sporting, “parecia evidente que Bruno de Carvalho era um demagogo”.

E salvo as devidas comparações, ele ganhou o Sporting como Bolsonaro ganhou as eleições no Brasil. E, portanto, se Bruno de Carvalho é o autor moral do que aconteceu em Alcochete, o autor moral de Bruno de Carvalho são os 90% de sportinguistas que ainda ultimamente o sufragaram quando ele propôs os estatutos para se entronizar como um ditador no Sporting”, defendeu.

Miguel Sousa Tavares referiu ainda nomes de pessoas que nunca pensou que “sufragassem uma pessoa como Bruno de Carvalho”, como por exemplo Daniel Sampaio e Eduardo Barroso.

O jornalista conduziu uma entrevista no “Jornal das 8” a Eduardo Barroso, médico e antigo presidente da Mesa da Assembleia-Geral do Sporting, a quem perguntou: “O que é que o levou a achar que Bruno de Carvalho era o homem certo para resgatar o Sporting e se é que o pensou até ao fim? E se não o pensou até ao fim, o que que o levou a deixar de pensar isso?”.

Veja AQUI a resposta de Eduardo Barroso.

"A TAP está pior, como todas as empresas públicas que foram privatizadas”

Miguel Sousa Tavares teve ainda a oportunidade de abordar o tema da recompra pública da TAP para dizer que a reaquisição pelo Estado “foi acertada” e sublinhar que não tinha concordado com a privatização.

Para o comentador, a passagem da transportadora aérea nacional para as mãos de privados deixou marcas menos positivas naquela que Miguel Sousa Tavares chegou a considerar ser uma das melhores companhias que conhecia e que, comparada com outras companhias hoje em dia, parece “uma empresa do terceiro mundo em termos de comodidade para os passageiros”.

Para nós consumidores, a TAP está pior, como como ficaram piores todas as empresas públicas que foram privatizadas. Todas sem exceção. E essa era uma das coisas porque eu me opunha à privatização da TAP. E de facto nós só privatizámos aquilo que era bom. Com exceção das Águas de Portugal, tudo o que era bom foi privatizado e ficou tudo pior“, salientou.

"Caravana de sul-americanos não diz só respeito a Trump"

Sobre a pobreza, a violência e a instabilidade política que levaram milhares de pessoas da América Central a colocarem-se em marcha rumo aos Estados Unidos, Miguel Sousa Tavares alertou que não se trata de um assunto que “diga respeito só a Donald Trump”. O jornalista realçou que a forma como presidente norte-americano vai resolver a situação “estabelecerá um padrão que, mais tarde ou mais cedo, nós todos vamos ter de nos confrontar com ele.”

Sobre a caravana de migrantes que partiu há um mês de San Pedro Sula, nas Honduras, um dos países mais violentos do mundo, onde quase dois terços da população vive na miséria, Miguel Sousa Tavares explicou que "não são simples emigrantes económicos (…) são famílias inteiras (…) gente desesperada não apenas para encontrar trabalho e melhores condições de vida, mas desesperada para encontrar simples condições de sobrevivência humana. Porque vêm de um país sem Estado, um país falhado”.

Para o comentador, faça Donald Trump o que fizer, estas pessoas “vão continuar a bater-nos à porta” até que o Norte rico se vire para os problemas do Sul, seja na América, seja na Europa, e perceba tem de ir à origem do problema e erradicar desses países a corrupção, a miséria, o tráfico de droga e gerar desenvolvimento.

Donald Trump não é nem um humanista, nem um estadista, agora se ele acha que consegue varrer 11 mil hondurenhos de volta para o México não está resolver o problema”, afiançou.

“Redes sociais dão efeito multiplicador a notícias falsas"

A fechar o comentário semanal, Miguel Sousa Tavares analisou o tema das “fake news”. As notícias falsas cresceram exponencialmente nos Estados Unidos e no Brasil. Para o ano, podem mesmo vir a influenciar as eleições em Portugal.

Miguel Sousa Tavares admite que se auto-exclui das redes sociais, mas concorda que elas não deixam de ser uma preocupação permanente, até porque, sublinha, estão intimamente ligadas às “fake news”. O jornalista apontou que as redes sociais podem matar a democracia devido ao efeito multiplicador que dão a uma notícia falsa e também à irresponsabilidade com que essa notícia é partilhada.

Alguém que coloca uma notícia falsa numa rede social é como um incendiário que pega fogo a uma floresta”, comparou.