A árvore não pode, nunca, ser confundida com a floresta, mas aos bons homens e mulheres que ainda prestam serviço no SEF, com honra e dignidade, deixem-me que vos diga: talvez sejam vocês que estão lá a mais. E já não me refiro à morte de um imigrante às mãos de inspetores, na Portela, fenómeno que se podia extinguir na bestialidade de três, quatro selvagens que envergonham a farda e são repelidos pelos pares. Não. Falo de algo que consegue ser ainda mais grave no contexto de uma organização que por acaso é policial – a associação criminosa. Quando só três ou quatro são capazes de matar, em princípio, mas muitos outros são capazes de calar, esconder, disfarçar e, sabemos agora, também ameaçar. Em nome da corporação e sem olhar a meios criminosos para atingir um fim. O da sobrevivência enquanto instituição.

Quando uma testemunha é anunciada em tribunal, no Campus da Justiça, em Lisboa, e ao fim de uma hora está a receber em casa uma visita do SEF, na zona de Leiria, isto já nos leva para outra dimensão. Do crime organizado, ao estilo da máfia. Não falo sequer de alguém, um voluntarioso, que seja amigo dos três inspetores julgados em Lisboa e que os quisesse ajudar – o que seria gravíssimo. Falo de algo muito pior. Do facto de existir uma articulação no seio do SEF que tenha permitido acionar um inspetor de uma delegação na região Centro, que mais rápido chegasse à dita testemunha, para a mandar calar. Uma instrução de serviço, que mais não é do que um crime, ou vários, que alguém cumpre com zelo num Órgão de Polícia Criminal.

Depois a ameaça não é direta, qual Cosa Nostra. Entram em casa de uma mulher especialmente vulnerável, imigrante em processo de regularização da sua situação no país, e recordam-lhe que são eles, SEF, quem decide as autorizações de residência… “Nem todos são a favor do que aconteceu lá (no aeroporto), mas fique longe…. Não se meta com essa gente”, sopra-lhe o inspetor ao ouvido. Teve azar, têm todos azar, porque apanharam pela frente uma mulher de coragem, que teme mas não cala. Exerce o seu direito e dever de denúncia. Denúncia do que viveu na própria pele e na dos outros. Os que durante dois meses viu serem humilhados e espancados gratuitamente por esta gente cobarde que representa o Estado e a todos nós.

Soubemos em março de 2020 que é possível polícias matarem uma pessoa no principal aeroporto do país; ficamos agora a saber que é também possível, em Portugal, um ano depois ameaçarem testemunhas desse homicídio para as tentarem calar. O que é que anda a fazer o ministro que tutela esta gente e, sobretudo, onde está o Estado de Direito?

Henrique Machado