Sou jornalista há mais de 25 anos. Fiz a cobertura de vários cenários de guerra, acompanhei refugiados na sua fuga e um conjunto vasto de dramas humanos que envolveram as mais diferentes emoções que um ser humano pode sentir mas, nunca antes tinha tido o privilégio de apresentar uma grande e inédita história de amor. Confesso que esta é mais bonita história de amor que já ouvi e tem a força de ser contada na primeira pessoa. É uma história de amor dos tempos modernos, só que à antiga. As cartas de amor foram substituídas por vídeos, fotografias, mensagens de telemóvel e áudios originais mas, a pureza deste grande sentimento, não se esgota em cada linha e imagem trocadas.

Quando conheci Angela, perguntei-lhe qual era o segredo para saber amar assim, incondicionalmente e desta forma altruísta. Respondeu-me que foi o Hugo quem a ensinou. Acrescentou que não estava triste porque “a sua alma gémea” tinha-a deixado completa, a transbordar de amor. Não lhe disse mas, senti-o desde o primeiro momento.

A história de amor de Hugo, de 29 anos e de Angela, de 32, começa quando ele já estava doente com um cancro no colón. Ela conta que se apaixonou pelo Hugo, não pela doença dele. Acompanhou-o em todas as consultas até à crise final que o atira para uma cama de hospital. Casam aí, numa cerimónia simples mas cheia de significado. É também aí que ele assina uma espécie de “testamento vital” onde lhe deixa a amostra de sémen que havia crio preservado no hospital, antes dos primeiros tratamentos de radio e quimioterapia. Pede-lhe, no leito de morte, que continue o sonho de terem um filho, fruto deste grande amor entre os dois. Suplica-lhe para que não desista das consultas de procriação medicamente assistida, no hospital de S. João, no Porto, onde ela tentava engravidar.

Hugo morre 12 horas depois de casar e o sonho de ambos, transforma-se no pesadelo da viúva. A lei 32/2006, de 26 de Julho, revista em 2016, abriu as portas a que qualquer mulher sozinha, até viúva, possa engravidar de um dador anónimo, morto ou vivo. Curiosamente, a mesma lei proíbe que a Angela, a viúva, possa engravidar com o esperma do marido, o grande amor da sua vida, que morreu e que deixou essa vontade escrita. O que é que afinal esta artigo da lei quer proteger? Os direitos sucessórios, a propriedade, os bens que Angela já se disponibilizou a descarta e ainda evitar que nasçam crianças órfãs. Esquece-se o legislador dos muitos “órfãos de pais vivos” que há por aí e de que, no limite, é bem melhor nascer órfão fruto de uma grande amor e cheio desses afetos, do que de ser filho de um tubo de esperma anónimo.

Entendem os homens das leis que, no caso do recurso ao banco de esperma, são sobrevalorizados os direitos das mulheres em detrimento dos das crianças mas, no caso de um grande amor abruptamente interrompido, as futuras mães, perdem esses direitos e, como se não bastasse, têm que assistir, impávidas e serenas, à destruição do sémen do marido morto. Angela não é essa mulher. Angela está numa luta contra o tempo. Tem menos de 50 dias para escrever o final feliz desta grande história de amor, numa clínica privada em Espanha, onde esta discrepância legal não existe e a inseminação post-mortem tem o prazo de um ano para poder ser realizada.

Alexandra Borges