Este domingo, no espaço de comentário semanal “Global”, Paulo Portas criticou a atuação do Governo de António Costa na contenção da pandemia, acusando o primeiro-ministro de minar a “credibilidade das soluções” com a aplicação de “exceções”.

O comentador da TVI reprovou ainda a atitude do chefe do executivo de permitir a realização do congresso do PCP, numa altura em são exigidas fortes restrições aos cidadãos portugueses, caindo no risco de dar a ideia de que a classe política é “uma casta à parte”.

Paulo Portas admite, no entanto, que a situação pela qual o país atravessa é complexa e que o decreto do estado de emergência é mesmo a única solução possível para conter o número de contágios, numa altura em que Portugal se aproxima dos sete mil novos casos de covid-19 diários.

Eu sou a favor do estado de emergência porque, como diria o Abade: “Presidente, não vejo remédio”. Não vejo como é possível quebrar a cadeia de contágios sem ter estado de emergência. Mas fico sempre com a sensação de que estamos a correr atrás do prejuízo e de que ficamos sempre a meio da ponte”, explicou.

O líder histórico do CDS-PP considerou justas algumas críticas que vinham a ser feitas ao Governo pela forma como tem gerido a crise pandémica e que “o problema não começou ontem”, depois de ter sido revelado que o “R” da covid-19 em Portugal está acima de 1 há mais de 80 dias.

Para o comentador, o plano de inverno levado a cabo pelo Governo não teve em conta “a evidência” científica e que o executivo ainda não faz ideia de qual é o grande foco de contágios.

“Ao fim de nove meses, o Estado português não faz a mais pequena ideia de quais são os centros de contágio. Não sabe se é na escola, se é o transporte público, se é o trabalho, se é a família, se é o comércio, não faz a mais pequena ideia”, frisou.

Para o comentador, António Costa fez um “pequeno malabarismo” ao referir uma lei de 1986 para justificar a impossibilidade do Governo em proibir o congresso do Partido Comunista Português. O antigo ministro da Defesa sublinhou que a proibição está na lei e não na constituição e, como tal, é mais fácil de ser alterada.

Se o primeiro-ministro quer ser obedecido, tem de perceber que as pessoas não podem ficar com restrições na sua vida profissional, nos seus rendimentos, na sua capacidade de vender e, depois, a política é uma casta à parte”, explicou.

Fundo de Recuperação Económico da Europa

A Europa vive momentos de grande impasse depois de a Hungria e a Polónia terem vetado o Fundo de Recuperação Económica, também conhecido como a “bazuca económica”, para responder ao impacto económico que as restrições impostas para conter a pandemia tiveram na economia.

A decisão tomada por estes dois países, a que se juntou a Eslováquia, é justificada com a contestação ao mecanismo europeu que sanciona os membros que não garantam o respeito pelas regras do Estado de Direito.

Para países como Portugal, estes fundos são absolutamente determinantes, sobretudo os subsídios a fundo perdido. Se não houver um consenso até ao fim do ano, os fundos não chegam a Portugal até ao terceiro trimestre de 2021”, explicou.

Paulo Portas considerou importante que a União Europeia zele pelo cumprimento dos direitos humanos, mas afirma que esse controlo deveria ser feito pelo Tribunal de Justiça da União Europeia e não por órgãos políticos.

O comentador considera que um dos objetivos do líder húngaro é provocar uma certa “humilhação” da presidência da chanceler alemã Angela Merkel, cujo um dos trunfos era o acordo para o Fundo de Recuperação.

Sobre uma possível solução do impasse, Portas revelou que, juridicamente, é muito difícil avançar sem o apoio da Hungria e da Polónia, uma vez que abre um precedente grave que poderá levar outros países a pensar “e se um dia isto acontece ao meu país?”.

Sublinhou também a resiliência económica destes dois países, que têm dívidas muito pequenas, o que significa que possuem margens maiores para “aguentar” o agravamento da situação económica, ao contrário de Portugal que se aproxima de máximos históricos.

Paulo Portas alerta ainda que, caso nada seja feito, Portugal está entre o grupo de países que “cresce menos”, uma vez que ocupa o 23.º lugar do ranking de recuperação económica, num universo de 28 países.

Portugal perderá, pelo menos, dois anos, se nada for alterado. Em 2022, ainda estaremos a 99% daquilo que tínhamos em 2019, acompanhados pela França, pela Espanha e pela Itália. Mas já há 19 países que, para o ano, já estarão acima da base de 2019”, explicou.

Houve ainda tempo para falar sobre a competição entre a Moderna e Pfizer na busca por uma vacina para a covid-19.