Quem vive há muito tempo em Bruxelas habituou-se à ideia que o Partido Popular Europeu faz a lei na cidade. Os funcionários europeus -  altos, médios e até muitos de centro-esquerda – são, talvez por definição, conservadores.

A primeira intuição foi correcta e o PPE, a força política mais votada nas eleições europeias, não aceitou ficar sem a Comissão Europeia, a jóia da coroa da máquina comunitária. Vão ser 20 anos seguidos no poder, mas, desta vez, conseguiu-o de forma estranha.

Angela Merkel aceitou dar o cargo a um socialista holandês, Frans Timmermans, mas, habituada a mandar sem contestação, não prestou atenção aos detalhes e não deu cavaco a ninguém.

Acabou por ser desafiada abertamente pela sua família política, algo impensável no passado recente. Merkel perdeu autoridade desde que anunciou a saída. O vazio deixado pela Chanceler alemã vai ser um problema para a Europa.

Um grupo de primeiros-ministros do PPE amotinou-se contra Merkel e colou-se à direita dura de Viktor Orbán, da Hungria, da Polónia, do grupo de Visegrado e de Itália.

Um dos rebeldes foi surpreendentemente o chefe do governo irlandês, Leo Varadkar. Consta que tinha interesse próprio em ser presidente do Conselho Europeu.

O ambiente foi tóxico. Com os ânimos quentes, a dado momento da cimeira, Macron pôs Varakdar na ordem perguntando-lhe se afinal a Irlanda não precisa de ser defendida do Brexit. O Irlandês calou-se mas continuou no grupo de bloqueio.

A oposição montada acabou por vencer e Timmermans foi descartado.

A solução encontrada é de recurso. Macron sugeriu uma Alemã próxima de Merkel na Comissão Europeia para segurar a autoridade da Chanceler e, em troca, conseguiu pôr uma Francesa no Banco Central Europeu. Manda quem manda, Alemanha e França impuseram-se e repartiram os dois cargos mais importantes. Um belga ficou com o Conselho Europeu. A velha Europa. Os países de leste foram castigados e não levam nada.

O PPE conseguiu manter a Comissão - o que seria sempre legítimo - mas aliando-se ao grupo de Visegrado que conseguiu derrubar Timmermans por este ter denunciado as infrações às regras democráticas na Hungria e Polónia.

Pelo meio, os chefes de governo mataram os Spitzenkandidaten, os candidatos apresentados aos cidadãos antes das eleições. Voltámos aos negócios à moda antiga, sem transparência, escolhas feitas à porta fechada.

Uma coisa não compensa a outra mas é uma conquista ter mulheres nos dois principais postos.

A aliança progressista “de Tsipras a Macron” falhou e, no final, os socialistas europeus foram o elo mais fraco na negociação. Perderam ao ficar com os mesmos lugares. O PPE ficou com o ouro, os aliados liberais acabaram por quebrar fileiras e, no final, até o espanhol Pedro Sanchez descolou de António Costa.

O Primeiro-Ministro, um dos negociadores da família socialista, emergiu cansado no final da maratona negocial. Cansado e agastado. Disse que aceitou o desfecho para não ser ele próprio um elemento de bloqueio.   

Nas muitas voltas da reunião, Costa foi sondado para ser Presidente do Conselho Europeu. Diz que recusou “desertar o país”.

Para Portugal, Timmermans teria sido um excelente presidente da Comissão Europeia. Que certamente não esqueceria o apoio que recebeu de António Costa.

Pelo sacrifício, Costa vai tentar obter o posto que quer na próxima Comissão. A pasta dos fundos europeus e desenvolvimento regional para Pedro Marques.

A União Europeia vai ter uma nova equipa que é uma espécie de última linha de defesa. Esta cimeira mostrou todos os problemas.