A passagem de Greta Thunberg em Portugal foi um dos temas em análise no programa Circulatura do Quadrado, desta quarta-feira, com os habituais comentadores António Lobo Xavier, Jorge Coelho, José Pacheco Pereira e com a moderação de Carlos Andrade. 

Relativamente à cobertura mediática feita à chegada da jovem ativista sueca a Lisboa, Pacheco Pereira disse que tem de haver "equilíbrio e bom senso" e considera "completamento incompreensível" a transmissão em direto durante horas por parte das televisões portuguesas. 

O que para mim é completamente incompreensível é televisões portuguesas a transmitir durante horas diretos da chegada dela a Lisboa” e acrescenta “é um desequilíbrio que mostra uma fragilidade da nossa comunicação social”.

Para o comentador, aquele momento não tinha uma relevância editorial tão grande que justificasse horas de diretos. Afirmou ainda que se viesse a Portugal em prémio Nobel, não teria "nem um décimo desta atenção"

Para concluir, defendeu que a comunicação social "vai atrás de modas" sem olhar para a importância do factos e que a curiosidade dos espectadores em relação à chegada da Greta não existiu, a curiosidade, disse o comentador, era dos jornalistas e isso refletiu-se nas audiências.

Na ótica de António Lobo Xavier, a ativista de 16 anos "resolveu fazer da sua campanha um espetáculo”. Ainda assim, não é contra e percebe que é realmente preciso fazer um alerta para o "problema sério" das alterações climáticas. 

Ressalva, no entanto, que este tipo de "fanatismos" pode dar aso a atitudes contrárias. 

Quanto à cobertura mediática, disse que "em Portugal se fazem coisas que não se vê fazer em lado nenhum” e deu como exemplo a interrupção de notícias em horário nobre para dar em direto a chegada de um treinador. 

Jorge Coelho chamou a atenção para o facto das alterações climáticas serem, aquilo que considera, um dos problemas mais graves da humanidade e que a comunicação social ajuda a desviar as atenções do cerne da questão.

Tudo o que faça desfocar a resolução deste problema gravíssimo, é estar a não contribuir para aquilo que o mundo precisa”.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, considerou que as notícias que têm sido dadas foram sobre "fait divers" da ativista e não sobre os problemas e a resolução dos mesmos. 

Em jeito de conclusão, apontou as duas abordagens que "não suporta" em relação à forma como é vista a campanha de Greta Thunberg. 

Há duas coisas que eu não suporto. Primeiro é a questão do culto. Está-se a criar à volta desta ativista a ideia de que ela vem salvar o mundo. Quem pode salvar isto é a humanidade, são as instituições, são os governos. Em segundo lugar, isto não pode ser visto pelo conjunto da sociedade com um ar paternalista”.

 

O "carimbo" da desigualdade social

Sobre o relatório PISA, Pacheco Pereira afirmou, no programa “Circulatura do Quadrado”, que, analisando comparativamente e cronologicamente o estado da educação de 2015 a 2018, Portugal exibe uma melhoria contínua do conjunto de indicadores analisados, que colocam o país acima da média da OCDE.

No entanto, o comentador crê que na vida social existe um “carimbo” que tem vindo a agravar as condições sociais e económicas, tal como as desigualdades e o aumento da pobreza. 

Esse carimbo é mostrado claramente no relatório”, diz Pacheco Pereira, argumentando que todos os indicadores que remetem para problemas da ordem social remetem também para “os anos do lixo” da troika.

Pacheco Pereira defendeu ainda que o relatório exibe um recuo social manifestado na degradação dos serviços públicos e que existem dois fatores que atrasam o país: “o desfasamento das escolas em relação à sociedade e o agravamento da performance escolar resultado de fatores sociais”.

Lobo Xavier discorda com Pacheco Pereira e acredita que, no relatório PISA, não existe algum indicador que impute alguma coisa à troika. O comentador afirma, no entanto, que o que é preocupante é os indicadores relacionados com o bem-estar dos alunos.

Lobo Xavier destaca também que o relatório evidencia que o ponto mais fracos dos estudantes portugueses foi as ciências, “curiosamente onde não há exames”. O comentador afirma ainda que o relatório mostra que três quartos dos alunos dizem que estudam melhor quando a nota conta para as suas médias.

Já Jorge Coelho diz que a educação é um área onde as repercussões não são imediatas e que é difícil classificar protagonistas como heróis ou vilões, mas que, geralmente,os políticos que assumem as pastas da Educação têm desenvolvido um bom trabalho.

O comentador desmentiu o argumento de que os alunos que têm um melhor desempenho na escola são provenientes de famílias ricas, afirmando que existem muitos pais qualificados que, no tempo da troika,  foram penalizados pelas condições sociais e agora são equiparados a ricos.

Muitos não são ricos, apenas têm uma boa relação educacional com os filhos”, diz, reiterando que as desigualdades sociais têm um reflexo enorme na área da educação