A segunda-feira, 16 de Março de 2020, foi um dos dias mais difíceis desta pandemia. Nesse dia, como em todos os que se seguiram até finais de Maio, os corredores das consultas externas do hospital estavam vazios, silenciosos, tristes, amedrontados. Quem por eles circulava, fazia-o de passo acelerado, decisivo, isolado, tenso. Como quem espera uma tempestade anunciada.

De Março a Dezembro vai uma eternidade. Não creio que os números patentes num calendário possam fazer jus à intensidade com que se viveu este período de tempo em 2020, particularmente para quem trabalha em saúde.

No domingo, 27 de Dezembro de 2020, os mesmos corredores encheram-se de rostos entusiasmados e determinados. A azáfama e o frenesim foram incomparáveis. Havia barulho, conversa, expectativa, ânimo. Neste domingo, os corredores encheram-se como nunca antes se tinham enchido, para que nunca mais sintamos de volta aquele gélido, tenso e incessante silêncio.

Há dias, perguntaram-me se queria a vacina. Disse que sim. Perguntaram-me se podia ser este domingo. Disse que sim. Não posso dizer que não houvesse alguém, algures, que precisasse ou merecesse mais do que eu. Com toda a certeza, sim. Mas perguntaram-me se queria e eu tinha de dizer que sim.

A minha vez chegou para lá da hora prevista. 17:18. A administração da vacina foi tal como imaginava: rápida e indolor. A glória tinha sido antes. A glória de uma comunidade que resistiu (e resiste) estoicamente às restrições necessariamente impostas. A glória de um serviço de saúde que se adaptou para dar resposta a um problema desconhecido. A glória de uma comunidade científica que conseguiu desenvolver esta tecnologia. Chamamos-lhe vacina mas aparentemente são uns meros 0,3 mililitros de solução incolor para nos relembrar que, se existe mecanismo capaz de nos tirar definitivamente desta agonia colectiva, esse mecanismo é a evidência científica.

Comunicar em ciência nunca foi fácil e, em tempos de pandemia, atinge níveis de dificuldade nunca antes vistos. Somos confrontados diariamente com uma panóplia de mitos e manobras de desinformação, cujos objectivos me abstenho de discutir neste texto, que podem dificultar este processo. Ter comparecido neste domingo é também uma forma de mostrar confiança – confiança nas pessoas, nas instituições e na ciência. Partilhar a minha visão e a minha experiência pessoal não é um exercício de ostentação. É uma forma de transmitir confiança. Casos reais, pessoas reais, vidas reais.

Para o futuro, é necessário ressalvar que, embora se tenha dado um passo importante, isto não acaba aqui. Muitas das medidas de protecção individual terão de ser mantidas até o plano de vacinação atingir as metas a que se propõe. É fulcral que estas mensagens de ânimo não sejam entendidas como uma ode ao relaxamento e ao facilitismo. Contudo, hoje abre-se uma porta para uma nova fase da pandemia. Esperamos agora ter um reforço de energia, ânimo e segurança para percorrer, todos juntos, o caminho restante. E esperemos ter sempre nesse caminho a mais sólida evidência científica para nos ajudar.

/ Nuno Teixeira Tavares (Oncologista)