Manuela Ferreira Leite, no seu espaço de comentário na 21.ª Hora da TVI24, comentou as metas para o défice português, depois de a Comissão Europeia ter pedido ao Governo mais medidas de controlo orçamental por duvidar do cumprimento das metas até agora estabelecidas. No Programa de Estabilidade para 2019-2023 apresentado em abril, o Executivo de António Costa manteve a meta de défice de 0,2% do PIB para 2019, prevendo um excedente para 2020. Para além da questão do défice, a comentadora falou ainda da suposta crise política à direita.

Começou por pôr fim à teoria de existir medidas de direita e medidas de esquerda no que toca ao equilíbrio das contas públicas. 

O engenheiro Sócrates fez tanto, ou tão pouco, que além de um défice excessivo levou a que tivesse havido uma intervenção da troika. E passamos pela crise, que teve de ser corrigida pelos governos seguintes, e agora vem este Governo que, claramente, até mais posicionado à esquerda dado o apoio que tem tido. E o aspecto que é inesperado nesta questão da direita-esquerda, é que este Governo que tem o apoio parlamentar completamente à esquerda, foi aquele que tomou como bandeira a correção do défice. Uma bandeira que era, supostamente, dos governos de centro-direita”

Apesar das preocupações em ter um défice zero, em ter as contas públicas equilibradas e de ser contra o desperdício ser uma ideologia, normalmente, de centro-direita, Manuela Ferreira Leite defende que nestas questões não pode existir uma direita e uma esquerda. Independentemente de um político ser de esquerda ou de direita, não pode deixar de considerar que as contas públicas deverão estar equilibradas.

Não há nenhum equilíbrio possível, nem nenhum Governo possível, que não tenha as contas equilibradas" e acrescentou "Nós somos um país, ou um povo, de extremos. Do tudo ou nada. Ou bem que se é a favor do défice, ou bem que se é contra o défice. Ora, aqui não há a favor nem contra. Todos somos contra o défice, contra contas públicas desequilibradas"

 

No entanto, alertou que as medidas políticas tomadas não podem ignorar as condições reais em que o país se encontra, nem as consequências políticas que essas medidas possam ter. Neste contexto, aproveitou para deixar críticas a Mário Centeno. 

Anunciamos um ministro que está a tentar chegar a um equilíbrio de contas públicas semelhante ao da Alemanha. Eu pergunto se há algum português que julga que vive na Alemanha? Ou se as condições que nos rodeiam têm alguma coisa a ver com a Alemanha?”

E acrescenta que fica "espantada" que um Governo de esquerda tome medidas cujas consequências são negativas para as pessoas e para o país. Desde a saúde, aos transportes, ou aos serviços públicos de um modo geral.

Está sempre tudo a ser cortado e em cativações permanentes” para se atingir os tais objetivos do défice, em contrapartida de uma “elevadíssima carga fiscal”.

Reforçou a ideia dizendo que o défice português não é sustentável e que é conseguido “à custa de uma enorme carga fiscal e um corte excessivo na despesa pública. Tão excessivo que os serviços públicos não funcionam”.

Defendeu que a realidade económica do país exige um aumento de despesa, um maior investimento, e uma redução nos impostos porque existe margem para isso. Apesar destas medidas serem ideologicamente de esquerda, deixou um recado à oposição.

A direita não tem de se envergonhar de dizer que deve tomar medidas, por mais que elas pareçam esquisitas, que é aumentar a despesa e reduzir os impostos, quando isso é em nome de dar um crescimento sustentável ao país e melhorar a vida dos portugueses”

Já numa nota final, Manuela Ferreira Leite alertou que o crescimento económico de Portugal está a abrandar, como no resto da Europa, e voltou a sublinhar que o decreto de execução orçamental ainda não está publicado e que acredita que nesse documento existe uma linha enorme de novas cativações que continuam ocultadas.