No meio da confusão, é preciso encontrar a simplicidade. A fórmula é de Einstein que, como ninguém, reduzia habilmente em equações e algarismos a mais difusa das realidades. Porventura, uma lógica adequada para este ano de 2017, tão imprevisível quanto perigoso.

Comecemos pelo crescimento para a economia portuguesa: 1,2%, segundo a OCDE. No fundo, já vamos em duas décadas de progressão anémica, em que não descolamos de uma média de 1%, apesar da facilidade e imensidão de crédito na primeira década; uma intervenção externa e reformas que prometiam ser estruturais, já na segunda. 

A expressão inércia ajusta-se: este é um número quase redondo que não serve para nada. Nem para o desemprego, nem para aliviar o défice, nem para confortar credores quanto a uma dívida pública que só o ano passado cresceu 10,5 mil milhões de euros. A subida dos juros vai fazendo o seu caminho. Paulatinamente. É só atentarmos no diferencial para a dívida alemã. Nenhuma se afasta tão solidamente como a portuguesa. 

Outros números interessantes para reflectirmos nestes próximos meses: sete décadas de abertura comercial estão sob ameaça. A economia americana, aquela que mais fez por uma liberalização das trocas desde o final da Segunda Guerra Mundial, quer mergulhar num proteccionismo anacrónico, desarticulando tudo o que conhecemos. 

Trump acredita que pode recuperar uma cintura industrial esquecida - da Pensilvânia ao Ohio - e que lhe valeu a vitória nas eleições. Pouco importa se os avanços da robótica, a revolução no custo dos transportes e uma economia verdadeiramente global tornam impossível recuperar aquilo que na década 60 se denominava de “Campeão Nacional”: produtos americanos, com mão de obra americana para o mercado americano.

É passado! Basta brandir mais números: o salário industrial  no México é um quinto do americano. A economia mexicana é o segundo país para onde os Estados Unidos mais vendem, logo atrás do Canadá, e importa, precisamente dos Estados Unidos, metade daquilo que consome. Este fim do NAFTA é como ter um jogador a correr para um touch-down, já sem adversários pela frente, mas que, de repente, se lembra de voltar para trás porque tinha prometido muita emoção aos espectadores! 

E Trump ainda não acicatou verdadeiramente a China, donde os Estados Unidos importam 1/5 do que consomem e onde repousa mais de metade da sua dívida externa. Mas há-de chegar a altura. Para breve. Porque, como escreveu Lenine, há décadas em que nada acontece e há semanas em que acontecem décadas. 

Pedro Pinto