Falta exatamente um ano e meio para as eleições presidenciais norte-americanas de 3 novembro de 2020 e precisamente nove meses para o “caucus” democrático do Iowa (3 fevereiro 2020), arranque oficial das votações nas primárias para a escolha dos candidatos.

Sendo este um ciclo eleitoral de possível reeleição do presidente em funções, o mais normal seria que do lado republicano não se falasse sequer de primárias.

A questão é que Donald Trump não é bem um Presidente dos EUA (as últimas semanas têm-no demonstrado claramente, pela forma simplesmente inacreditável como tem desrespeitado o Congresso e a independência do poder judicial no incitamento ao não cumprimento dos “subpoenas” decorrentes do Relatório Mueller).

O sentimento de desconforto e indignação dos setores mais ligados ao conservadorismo clássico permanecem, embora o passar do tempo esteja, nestes dois anos e quase meio de Presidência Trump, a promover uma estranha “normalização” do inaceitável – aquilo que para muitos parecia incómodo e desadequado, na forma como o atual Presidente dos EUA lida com o poder, vai entrando aos nossos olhos como cada vez menos “anormal”. É uma espécie de “novo anormal” a institucionalizar-se pela via da Casa Branca.

Com níveis de aprovação no campo republicano na ordem do 85%, e numa altura em que atingiu o seu valor global de aprovação enquanto Presidente mais alto dos últimos dois anos (43% na CNN Poll, o que não o exime de continuar a ser o Presidente dos EUA menos popular das últimas sete décadas, a questão é que na comparação com outros momentos, em que teve níveis bem mais baixos, 43% para Trump parece um valor alto), Donald Trump será, sem grande margem para dúvidas ou hesitações, o nomeado presidencial republicano para 2020.

A novidade é que vai mesmo ter oposição interna: Bill Weld, ex-governador do Massachussets, é candidato à nomeação republicana, em nome da defesa de valores cruciais que considera que Trump pôs em perigo neste mandato.

Vale mais pelo peso simbólico (a votação em Weld deverá ser ínfima), mas não será de excluir que mais alguém, com maior influência política, surja do lado republicano: John Kasich, governador do Ohio e uma figura muito respeitada nos dois campos partidários, tem tido muito espaço na antena da CNN e poderá avançar nos próximos meses.

Mas a grande questão está, obviamente, do lado democrata.

Com 22 pretendentes já declarados (de longe, as primárias mais concorridas de sempre), será que o Partido Democrata vai ser capaz de fazer a melhor escolha para o que realmente está em causa – travar a reeleição de Donald Trump?

 

A confusão 2020

 

Esta corrida para 2020 tem traços muito diferentes das anteriores.

Em 2008, desde cedo o que esteve em causa no campo democrata foi uma escolha entre dois candidatos muito fortes e ambos viáveis e potencialmente vencedores: Barack Obama ou Hillary Clinton.

As diferenças entre ambos eram de estilo e de geração – mas não eram fundamentais no posicionamento ideológico ou político. Obama e Hillary situavam-se ambos no centro-esquerda, respeitando os fundamentais dos pilares do sistema político bipartidário.

Em 2016, o cenário já foi diferente: Hillary era a superfavorita, Sanders o “challenger” que partia muito de trás. Clinton venceu a nomeação, mas depois de muito desgaste e uma excessiva colagem ao “mainstream”. Bernie perdeu ganhando: assumiu o rótulo de “anti-sistema” e cavalgou uma onda algo populista de dizer mal de quem estava no poder.

De todo o modo, a escolha entre um e outro era clara

Desta vez, a situação chega a ter traços caóticos. O risco de fragmentação do discurso e da discussão política fundamental é muito grande, quando se tem 22 candidatos – sendo que pelo menos seis ou sete deles têm meios e relevância suficientes para pretenderem chegar até ao fim.

 

Biden e Sanders partem à frente

 

Joe Biden e Bernie Sanders aparecem como os dois favoritos.

São mesmo muito diferentes. Idênticos só na idade: Biden ou Sanders, qualquer deles será, de muito longe, o mais velho Presidente da história americana. Têm esse problema para enfrentar: convencer os democratas e, depois, todo o eleitorado americano de que estarem próximos dos 80 anos quando da tomada de posse não será uma barreira intransponível para derrotarem Trump.

Com exceção do BI, são diferentes em quase tudo: Biden é moderado, Sanders é radical; Joe herda o essencial dos anos Obama, Bernie elogia alguns aspetos mas é crítico da proximidade de Obama com o “establishment”; Biden defende a classe média dentro de uma visão “americana” de premiar o mérito e não carregar excessivamente nos impostos, Sanders promete agravamento fiscal que leve a que o estado tenha mais recursos para assumir uma redistribuição da riqueza mais justa.

Num ciclo político “normal”, Joe Biden ganharia a Bernie Sanders com relativa facilidade. Posicionado ao centro, tem maior espectro para onde possa recolher votos.

Mas este não é um ciclo normal.

A política americana está tão polarizada que os extremos ganham força e o centro político passa dificuldades. Sanders aposta no discurso "sexy" de arrasar o "establishment", Biden corre o risco de ficar com o rótulo de ser o candidato do sistema (e isso, por estes dias, é perigoso para quem vai a eleições).

A grande armadilha em que os democratas podem cair será a de nomearem Bernie Sanders e, com isso, contribuírem para a reeleição de Trump.

Sanders tem propostas demasiado radicais e demasiado à esquerda para o americano comum. Num duelo final com Trump, não terá grandes hipóteses de vitórias. A escolha mais forte entre os dois, para a eleição geral é claramente Joe Biden: forte em dois segmentos onde Hillary falhou (nos homens e nos brancos), forte no Midwest (zona do mapa eleitoral onde Trump bateu inesperadamente Hillary). 

Obama não deu apoio declarado, mas já está, na prática, a ajudar Biden -- e basta olhar para o logótipo da campanha Biden para se perceber o desejo de "herança" e "continuidade" em relação aos dois mandatos de Obama que Joe Biden pretende corporizar. 

 

Buttigieg e O’Rourke, os “challengers”

 

No atual estado da corrida, há quatro nomes a olhar como possíveis vencedores, embora em diferentes estados de desenvolvimento e afirmação das respetivas candidaturas. Biden e Sanders são os “frontrunners” (todas as sondagens o demonstram para já), O’Rourke e Buttigieg são os “challengers” (ambos com potencial para crescer o suficiente até ao final da corrida a ponto de poderem ganhar, mas nesta fase com menos de metade das intenções de Biden e Sanders).

O passado beneficia a maior notoriedade de Biden e Sanders. Mas o tempo está a favor de O'Rourke e Buttigieg (geralmente as eleições americanas premeiam o "futuro").

O ex-congressista estadual Beto O’Rourke, do Texas, parecia ser a maior esperança do centro político da América para estas eleições.

Junta enorme carisma com apoios eleitores independentes e até de republicanos, com o aliciante de alargar o mapa eleitoral dos democratas para os estados do Sul, geralmente reservados aos republicanos.

Mas não está a descolar e terá sido a maior vítima do “momentum” de Pete Buttigieg, mayor de South Bend, Indiana. Buttigieg pode ser a grande surpresa destas eleições.

Casado com um homem, está a transformar esse aparente problema junto do eleitorado mais conservador num tema forte de campanha.

Tem um discurso moral, com uma componente religiosa, o que pode ser um trunfo para a eleição geral (os democratas estão a perder grande parte do voto mais religioso para os republicanos).

Com 37 anos, pretende ser o mais jovem nomeado e o mais jovem Presidente de sempre – mas a imagem que transparece é de experiência, moderação e credibilidade. Tem experiência executiva, é tenente da Marinha na reserva e veterano de guerra no Afeganistão. As últimas semanas mostraram que a sua vitória, ainda que improvável, não é impossível.

 

Kamala e Warren, as mulheres mais fortes

 

Mas ainda há Kamala Harris, senadora da Califórnia. Entrou muito forte, chegou a aparecer em segundo lugar, mas depois dos avanços de Bernie Sanders, Beto O’Rourke e agora Joe Biden, e sobretudo com a afirmação mediática de Pete Buttigieg, já quase não se ouve falar dela, embora tenha feito uma condução notável (muito bem preparada e exigente) da audição no Senado ao procurador-geral dos EUA, William Barr, a propósito do Relatório Mueller.

Sem Biden na corrida, a senadora Harris poderia surgir como o nome mais viável para juntar moderados com progressistas – parece ter para já uma argumentação mais sólida do que Beto O’Rourke, por exemplo.

Mas terá ficado sem caminho viável para atingir o primeiro lugar desta corrida. Para já, a mulher que aparece com melhores indicadores é a senadora Elizabeth Warren, do Massachussets, mas depois do avanço de Bernie Sanders ficou sem espaço de crescimento. Não acredito que obtenha a nomeação, uma vez que as sondagens dão, de forma consistente, mais do dobro das preferências a Sanders. Ambos disputam os setores mais à esquerda do Partido Democrata.

Warren teria hipóteses reais se conseguisse duas coisas nesta corrida de 2020: ser a herdeira do movimento Sanders 2016 (46% do voto democrata) e aliar a isso os créditos de ter feito perto da Administração Obama e de ter querido sair quando achou que Barack Obama não iria, afinal, tão longe quanto a esquerda americana desejaria em temas como a regulação financeira ou a reforma fiscal.

As senadoras Amy Klobuchar (Minnesota) e Kirstie Gillibrand (Nova Iorque) e a congressista Tulsi Gabbard (Havai) não deverão chegar aos 5 por cento, sequer.