Os Estados Unidos da América têm 328 milhões de habitantes, cerca de 4% da população mundial, e 20% dos casos e 20% das mortes causadas pelo Coronavírus (317.000 até agora - mais de quatro vezes o número de mortes sofridas em doze anos de guerra no Vietname). Este simples número, que Joe Biden apenas explorou, de passagem, no primeiro dos debates presidenciais, diz tudo sobre a forma displicente, mesmo criminosa, como Donald Trump enfrentou a questão Covid. Mas se aos números acrescentarmos o facto de não estarmos a falar de um país pobre, desprovido de recursos suficientes para enfrentar a pandemia, mas sim do país mais rico do mundo, onde não falta nem dinheiro, nem hospitais, nem médicos, nem cientistas, nem investigadores, nem grandes farmacêuticas para resistir a uma crise destas, a dimensão da trágica gestão dela torna-se ainda mais evidente. No minímo, e respeitando a proporção entre população e número de mortes, Donald Trump é directamente responsável por  250.000 mortes que poderiam ter sido evitadas. Se os democratas perdessem o pudor de jogar com as mesmas armas sujas com que Trump joga, era isso que os seus cartazes e anúncios de campanha deveriam estar a gritar em todos os cantos da América. Quanto mais não seja, porque só isso, e nada mais, lhes pode evitar nova derrota frente a Trump, na próxima terça-feira.

A gestão da crise Covid pode custar a vitória a Trump, não pelo que revelou da  sua incompetência funcional, do seu desprezo pela ciência e pela verdade ou até da sua crueldade intrínseca. Tudo isso já se sabia e tudo isso é indiferente ao eleitorado que, qual rebanho a caminho do matadouro, o apoia - não apesar disso, mas justamente por causa disso: por ele ser um bandido notório. Porém, e neste caso, desde que Bob Woodward revelou no seu livro "Rage" (constituído por dezenas de entrevistas com Trump) que ele sabia desde o início que o vírus era mortal mas que optou por não o dizer nem o enfrentar a sério, para "não lançar o pânico", tornou-se clara a razão pela qual ele resistiu sempre a mandar as pessoas para casa ou a recomendar-lhes que usassem máscara. Porque, acima de tudo, Trump não queria comprometer de forma alguma quele que era o seu grande trunfo eleitoral, que eram os bons indicadores económicos. É sabido que, antes de tudo o resto, as pessoas votam com a barriga, e, foi sabendo isso, que ele quis a todo o custo evitar o fecho, ainda que temporário, da economia americana. O resultado foi que onde conseguiu convencer nos governadores a não confinarem - nos Estados Republicanos - foi onde o número de infecções e de mortes disparou sem controle. Nada disso o impediu, porém, de continuar a desprezar e até a humilhar os especialistas e os dados da ciência e a afirmar, sem vergonha, que tinha feito "a terrific job" a enfrentar a pandemia: 218.000 mortos.

Mas, apesar de tudo, há um limite para a voluntária estupidez dos eleitores e as sondagens confirmam-no: esse limite, no caso, é a percepção de uma larga maioria de americanos de que a crueldade e a ambição de vitória de Trump foi ao ponto de não hesitar em sacrificar vidas para atingir os seus fins. E um homem assim dá que pensar, mesmo entre os seus fanáticos. Que ele tenha negócios em vários países estrangeiros é estranho e perigoso; que ele seja amigo de Putin, de Kim e de vários outros ditadores, ao mesmo tempo que hostiliza os aliados tradicionais dos Estados Unidos é estranho e perigoso; que ele ataque tanto a China, mas que tenha contas bancárias na China é estranho; que não pague impostos, ao mesmo tempo que se gaba de ser um milionário de sucesso, contraria toda a ética cívica dos americanos; que nunca tenha visitado os soldados americanos no estrangeiro nem um hospital em luta contra o Covid é desagradável. Mas que conscientemente e por razões de interesse político pessoal despreze a vida dos seus concidadãos talvez já seja demais para aceitar. Veremos a 4 de Setembro.

Com a certeza de que aquilo que se vai jogar nesse dia é muito mais do que mais uma eleição de um Presidente dos Estados Unidos. É a sobrevivência de um tipo de sociedades, a que chamamos democracias liberais, e de que os Estados Unidos são parte integrante e indispensável. E que, após quatro anos de liderança de Donald Trump, já é muito mais e muito mais simples do que isso: é a diferença entre a civilização e a barbárie.