"Trump derrotou-se a si próprio. Esta terá sido a 'crise de emergência nacional' mais breve, curta e fácil de resolver." 

David Frum, em artigo em “The Atlantic” 

Donald Trump está a bater contra um muro. 

Mas não é o que tanto deseja construir na fronteira sul dos EUA com o México – é mesmo o muro da sua total incapacidade política.

Amarrado a uma argumentação frágil, mentirosa e falaciosa, o Presidente dos EUA insistiu esta madrugada na suposta “urgência” de se resolver o que considera ser um “um problema de segurança nacional”. 

Trump insiste em associar diretamente a imigração com a criminalidade e não hesita em paralisar todo um sistema político em nome de um muro que não é desejado pela maioria dos americanos (ainda ontem, sondagem mostrava que 59% dos norte-americanos não concordam com a construção do muro nos moldes que o Presidente propõe).

A verdade é que Trump não dá sinais de cedência – muito menos os democratas que, no Congresso, querem retomar a liderança da agenda política na América.

Não se atreveu, no discurso desta madrugada, a declarar emergência nacional para obter financiamento para o muro (se o fizer, estará a passar por cima do poder fiscalizador do Congresso e isso terá consequências), mas também não afastou esse cenário.

Raul Grijalva, congressista democrata do Arizona, representante de uma das zonas mais afetadas pela questão da “fronteira sul com o México”, nem hesitou em acusar, em entrevista à CBS:

“Esta é uma crise inventada pela Administração Trump. Toda a gente concorda que a segurança é fundamental. Mas pensar que isto se resolve com um muro gigantesco é errado. E é ridículo”.

 

 

O problema existe mas Trump nunca quis a solução

 

David Frum, em artigo publicado na “Atlantic” poucas horas depois do discurso, nota: “Há um problema real de imigração na fronteira. O sistema de asilo está sobrelotado e ultrapassado, as autorizações demoram meses ou anos – e muito antes disso, os imigrantes que entretanto entram sem legalização são absorvidos pelo mercado laboral norte-americano, que está em ebulição. A solução para isto não é a construção de um muro fortíssimo e enorme. A solução para isto é obter mais autorizações, é ter um sistema de asilo mais eficaz e diligente. Se os casos forem resolvidos mais rapidamente e, com isso, a pressão da imigração ilegal diminui. Foi isso que aconteceu em 2015, durante a Administração Obama, depois da crise de 2014 na fronteira sul. Mas Trump nunca quis procurar a solução. Quis sempre a divisão, a exploração do medo e a assunção pessoal do tema. Trump nunca esteve disposto a negociar com os democratas”. 

A atitude de Trump em todo o discurso desta madrugada inscreve-se nesta análise certeira de David Frum. O Presidente não quer a solução real – apenas quer fixar-se no modo tacanho e errado como explora o problema. 

Com a frontalidade que o caracteriza, Bernie Sanders, senador democrata do Vermont e possível candidato presidencial democrata em 2020, desmontou assim a demagogia de Trump em relação a este tema: “Não, sr. Presidente. Não são apenas ‘criminosos’ que se opõem ao seu muro racista. É a maioria do povo americano. Não vamos desperdiçar cinco mil milhões de dólares a construir uma infraestrutura errada, quando os nossos veteranos estão a dormir nas ruas e quando 30 milhões e americanos não têm seguro de saúde. É irresponsável gastar milhares de milhões de dólares para satisfazer uma campanha pessoal de um presidente divisivo, com uma postura política xenófoba. Temos outras prioridades”.

Enquanto isso, os EUA estão já num dos três “shutdown” mais longos da sua história, colocando quase um milhão funcionários públicos sem receber e sem poder trabalhar. Sondagem libertada ontem pela CNN refere que 50% dos americanos culpam Trump pelo prolongamento do “shutdown”, 35% culpam os democratas e 5% culpam os republicanos no Congresso. 

Ao mesmo tempo, agravam-se os sinais do envolvimento de pessoas muito próximas do Presidente na Russia Collusion (o relatório final de Mueller estará quase a ser divulgado), incluindo Paul Manafort, diretor da campanha presidencial de Trump. A Comissão Mueller acredita que Manafort partilhou dados internos da campanha Trump com Konstantin Klimnik, um agente russo alegadamente envolvido com os serviços de inteligência de Moscovo.

A poucos dias de chegar apenas a meio do seu mandato de quatro anos, o Presidente está preso nas suas próprias mentiras perdeu todos os elementos que davam alguma credibilidade à sua administração, não dá mostras de ter fôlego político para incluir figuras de topo que lhe incutam melhores soluções, vê o cerco da Comissão Mueller a apertar-se e tem, pela primeira vez, que lidar com uma maioria democrata na Câmara dos Representantes. 

A coisa está a ficar feia para Donald Trump.