Quando penso em Tires lembro-me sempre das imagens de Gilbert Ondongo, o feliz ministro do Congo fotografado pela Polícia Judiciária a descer calmamente as escadas de um jato privado com uma mala em cada mão. No interior, presume a PJ, os quase nove milhões em notas mais tarde apreendidas numa casa na Quinta da Marinha. Mas quem pense que essas imagens são de um qualquer sistema de videovigilância, numa lógica preventiva e de fiscalização no principal aeródromo do país, desengane-se. Foram feitas porque existia uma investigação, que deu origem à operação Rota do Atlântico. Ou teria sido só mais um dia em Tires. O mais tranquilo dos desembarques, sem incómodos, perante um gigantesco esquema de branqueamento de capitais associado a crimes de corrupção no mercado internacional. Descer do avião, entrar no carro, e adeus.

Vem isto a propósito do famoso jato agora apanhado na Bahia, Brasil, com 578 quilos de droga, e que tinha como destino, imagine-se, Tires. Quem diria? E vem seguramente a propósito de tantos outros que ali levantam ou aterram, carregados de tudo, abaixo de qualquer radar e a salvo de qualquer chatice ou notícia. 

De que nos serve, então, tanta pompa na malha apertada da Portela, para voos comerciais, com os passageiros sujeitos a detetores de tudo, já descalços e de malas abertas, em filas intermináveis, desde o fantasma do 11 de Setembro, quando ali ao lado o país oferece este paraíso chamado Tires, espécie de offshore para a livre circulação de pessoas e bens, como quem diz criminosos procurados e toda a espécie de carga ilícita? Qual carta 'livre da prisão', no jogo do Monopólio. 

Num país que por razões geográficas é porta de entrada na Europa, e que por isso faz parte das rotas do tráfico internacional, quer do norte de África, quer da América do sul, isto não faz soar campainhas… há anos e anos? Estou a ver mal, e não há ali problema nenhum de segurança a exigir uma estrutura decente, ou há afinal um problema e muita incúria… ou é só ingenuidade minha porque o paraíso de Tires interessa a muita gente? Ontem, dinheiro sujo, hoje, droga, amanhã... uma bomba.

Henrique Machado