Joe Biden, 76 anos, vice-presidente dos EUA durante oito, senador durante 36, avança esta quinta-feira.

Será, pela terceira vez numa longa carreira política que já leva quase meio século, candidato à presidência dos Estados Unidos da América (a primeira foi em 1988, foi Mike Dukakis o nomeado; a segunda em 2008, sendo que o nomeado, Barack Obama, o viria a escolher para companheiro de viagem no "ticket" presidencial democrata).

Tão forte e tão fraco: tem um percurso político riquíssimo e é um dos políticos mais queridos da América, reunindo uma coletânea de amigos e aliados que cruza partidos e vai muito para além da sua família partidária; mas é também um homem imperfeito, que repete erros e ”gaffes” e demonstra pertencer a uma lógica de funcionamento que muitos consideram antiquada.

Em 2016, houve quem achasse que devia ter sido ele e não Hillary a herdar os oito anos de presidência Obama na investidura presidencial democrata. Mas Joe tinha acabado de viver mais uma tragédia pessoal, com a perda do seu filho Beau, e decidiu não concorrer.

Ainda antes de arrancar para esta tão imprevisível corrida de 2020, chegou a ter enorme vantagem nas sondagens (tanto para a nomeação como na luta final com Trump), agora baixou um pouco -- mas ainda em posição muito privilegiada para quem ainda nem sequer começou a longa viagem de uma candidatura presidencial.

Vice-Presidente dos EUA entre janeiro de 2009 e janeiro de 2017, foi número dois nos dois mandatos presidenciais de Obama.

Antes, esteve no Congresso durante quatro décadas: foi senador pelo estado do Delaware durante 36 anos.

É grande nas virtudes mas também nos defeitos.

Tem uma história de vida espantosa, de ir às lágrimas, cheia de feitos profissionais e tragédias pessoais; tem credenciais sólidas na defesa da classe média e do "trabalhador americano", apresenta trunfos na "heartland", algo que pode ser importante no combate democrata por recuperar o Midwest, que Trump "roubou" a Hillary; e é forte no eleitorado branco (e masculino) tradicional, claramente o segmento onde os democratas têm perdido a guerra eleitoral para os republicanos.

Pode ser a solução centrista, moderada e credível para amenizar a demasiada inflexão à esquerda que os democratas têm vindo a fazer desde que Donald Trump chegou à Casa Branca.

Mas depois há os defeitos: estará próximo dos 80 anos na tomada de posse (se ganhar, será de muito longe o mais velho Presidente dos EUA a começar funções); é "especialista" em gaffes, imprudências e imprecisões; e o seu estilo afetuoso, caloroso e por vezes excessivo "tátil" está a dar-lhe problemas, nestes tempos de "me too" e sensibilidades extremas.

Joe Biden faz parte da história do Partido Democrata.

Se fosse pelo CV político, nem era preciso haver primárias – Joe já tinha ganho e por muitos.

Mas a mais louca corrida do mundo, as eleições presidenciais na América, não é assim.

É preciso sofrer, combater, arriscar, suar. Trabalhar muito e dormir muito pouco.

E, muitas vezes, quem parte à frente não chega ao fim em primeiro.

 

Uma história de ir às lágrimas

Foi senador com apenas 29 anos, mas três semanas depois de ter feito história por se ter tornado o sexto senador mais novo da história americana, a tragédia bateu-lhe à porta.

Um violento acidente de automóvel, ocorrido a 18 de dezembro de 1972, em Hockessin, Delaware, roubou à vida à mulher, Neilia, e à filha de um ano, Naomi. Os meninos, Beau e Hunter, sobreviveram com sequelas de que viriam a recuperar completamente.

Joe ficou de rastos e admitiu resignar do Senado – mas o apoio de Mike Mansfield, líder dos democratas no Senado, deu-lhe força para aguentar.

Depois do luto, Joe conseguiu seguir em frente. Voltaria a casar, com Jill, professora com quem viria a ter mais uma filha, Ashley.

Mais recentemente, a 30 de maio de 2015, a tragédia voltou a abater-se sobre Joe: o seu filho Beau, procurador-geral do Delaware e possível nomeado democrata para governador do estado, morria com um cancro no cérebro.

O seu outro filho, Hunter, tem tido um percurso de vida marcado pelas drogas.

 

Ponto forte: a mensagem para a classe média

Joe tem um compromisso político acima de qualquer suspeita: defende a classe média e corporiza uma forma antiga de liderar uma plataforma de centro-esquerda na América.

Durante 36 anos, foi diariamente de comboio de sua casa, em Wilmington, Delaware, para Washington DC, representar o seu estado no Senado dos EUA.

Nos oito anos como número dois de Obama na Casa Branca, manteve com Barack (líder muito mais profundo, racional e calculista que Joe) uma autonomia marcada, acima de tudo, por uma profunda lealdade para com o seu número um.

Tem sido das vozes mais críticas, nestes estranhos anos trumpianos, daquilo que considera ser uma ameaça séria à democracia americana: “O comportamento de Trump está abaixo do que é exigido a um Presidente. Indignarmo-nos contra isto é uma obrigação moral de todos os que amamos esta magnífica democracia”.

 

Ponto fraco: ele mesmo, o “velho e querido” Joe

Donald Trump chama-lhe uma “tragédia em dois atos”, “uma piada” e “louco Joe”.

O atual presidente dos EUA jura que não vê em Joe Biden uma ameaça séria na corrida para 2020. Mas não é isso que as sondagens dizem.

Biden mostra-se o possível nomeado democrata com melhores condições de disputar com Trump os estados do Midwest que foram decisivos para a derrota inesperada de Hillary em 2016: Pensilvânia, Michigan, Wisconsin e Ohio.

Mas há pontos fracos que Joe pode vir a ter muitas dificuldades em contornar.

Uma é a idade. Muitos setores do Partido Democrata têm sérias dúvidas sobre se a melhor opção para travar a reeleição de Trump venha a ser um homem branco ainda mais velho que Donald.

Se é verdade que não há limite de idade para se ser presidente dos EUA, é também verdade que a história eleitoral nos mostra que ninguém com mais de 70 anos venceu uma eleição presidencial na América em primeiro mandato.

Ora, Joe estará a apenas duas semanas de completar 78 quando os norte-americanos foram às urnas escolher o Presidente para o ciclo janeiro 2021/janeiro 2025.

Será o bilhete de identidade uma condenação para as aspirações de Biden?

O outro grande problema para Joe é o seu jeito caloroso e demasiado “tátil” de tratar homens e mulheres.

O tema, difícil de analisar porque na verdade não há uma resposta “correta” para se dizer qual é o comportamento certo ou errado, já foi lançado nas últimas semanas quando ficou claro que Joe ia mesmo avançar.

Entendamo-nos: nunca, nestas décadas de vida pública ao mais alto nível, Joe foi acusado de assédio sexual ou de outro crime qualquer. Mas algumas mulheres com quem trabalhou e que dirigiu alegam terem-se sentido “desconfortáveis” com a proximidade física que Joe promove.

Há uns anos, este tema não era chamado para a discussão presidencial. Em 2019, pode ser uma adversidade complicada para Biden.

Mas, caramba, não nos esqueçamos que na Casa Branca está alguém que proferiu a frase “grab them by the pussy”. A inimputabilidade política de que Donald Trump goza sem se perceber bem porquê chega a tanto?

Joe pode deixar de bater Trump porque gosta de tratar homens e mulheres por “my dear” e lhes pega na mão e abraça? A sério??

Em artigo publicado na “Time”, com o título, “I worked with Joe Biden. Here’s What to Know About the Frontrunner Myth Growing Around Him” (Trabalhei com Joe Biden. Eis o que é preciso saber sobre o mito que cresceu em torno do ‘frontrunner’), Jennifer Palmieri -- diretora de comunicação da campanha presidencial de Hillary Clinton e da Casa Branca durante o segundo mandato de Barack Obama – escreve: “Estou um pouco surpreendida que as pessoas estejam surpreendidas com o caminho duro que Joe Biden tem vindo a sentir nas últimas semanas. As questões com que se tem debatido – relacionadas com as demonstrações de afeto – eram inteiramente previsíveis. Imagino que ele próprio as tenha previsto. (…) Quando era diretora de comunicação do Presidente Obama, vi as expressões de afeto físico que Joe tinha com mulheres e homens. Frequentemente, ele abraçava e até dava um beijo na testa. Era um comportamento inusual num local de trabalho, sim. Mas denotava, essencialmente, as marcas de alguém que tinha sofrido perdas pessoais na sua vida desde muito cedo e que veste no seu coração emoções e sentimentos. Pela minha experiência, o seu afeto expresso acima do normal era a sua forma de pôr mais amor e apoio no seu mundo. Esta é a minha leitura mas não era, no entanto, a interpretação de todas as mulheres com quem Joe trabalhou. Ele pôs algumas delas desconfortáveis com isso – e agora está a enfrentar as consequências”.  

Uma coisa é certa: a partir desta quinta-feira, temos todos que contar com Joe Biden – tão forte e tão fraco, o “velho e querido” Joe toda a gente conhece há décadas na política americana.