Manuela Ferreira Leite criticou fortemente as declarações polémicas do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que esta semana saltou para as manchetes dos jornais por ter utilizado uma metáfora controversa para se referir aos países do sul da União Europeia.

[As declarações são de] uma grosseria sem dimensão. Tendo participado em muitos Eurogrupos [nunca ouvi esta linguagem]”, afirmou.

Em declarações a um jornal alemão, Jeroen Dijsselbloem afirmou: durante a “crise do euro, os países do norte da Europa mostraram-se solidários com os países afetados pela crise. Como social-democrata, atribuo à solidariedade uma importância extraordinária. No entanto, quem pede ajuda também tem obrigações. Não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda".

Isto levou a que várias vozes tenham pedido já demissão de Dijsselbloem do cargo de presidente do Eurogrupo, incluindo o líder dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu, o primeiro-ministro português, o Presidente da República e o líder do Parlamento Europeu, Antonio Tajani.

A comentadora da TVI considerou que o presidente do Eurogrupo perdeu todo o respeito necessário para o desempenho das duas funções, e garantiu que não se sentaria à mesma mesa que Dijsselbloem se participasse numa reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro. Ferreira Leite afirmou, mesmo, que o presidente do Eurogrupo se devia demitir.

Uma pessoa para desempenhar um certo tipo de funções tem de ser respeitada. Penso que [Dijsselbloem] perdeu o respeito de qualquer pessoa minimamente equilibrada. Se ele não se demitisse e eu fizesse parte desse grupo, saía eu da sala. Não me sentaria ao lado de uma pessoa que não tem noção da responsabilidade [de um cargo destes]”.

A ex-ministra das Finanças admitiu que as crises financeiras, que aconteceram em países como Portugal, foram provocadas em parte por “erros” nacionais, mas lembrou que muita da culpa foi das instituições europeias, incluindo do Eurogrupo.

Quando rebentou a crise financeira, a orientação das instituições europeias foi: façam despesa. No nosso caso, por exemplo, estávamos a entrar em campanha eleitoral e foi o que o primeiro-ministro da altura quis ouvir. ‘Façamos despesa, é o que nos estão a mandar’. (…) Não se fez mais porque muitas [ideias] foram travadas, desde o TGV aos aeroportos, tudo tinha surgido. Já não havia projetos, inventavam-se. O erro também é das instituições europeias.”

Ferreira Leite acrescentou que o Banco Central Europeu teve um papel fundamental em resolver algumas questões, evitando conflitos maiores que pudessem criar um sentimento de desintegração na União Europeia.

A comentadora TVI mostrou-se, ainda, incrédula que várias personalidades apoiem as palavras do presidente do Eurogrupo, tendo em conta os sacrifícios que milhões de pessoas fizeram para que os programas de ajustamento fossem cumpridos.

É espantoso como há pessoas que concordam com ele. Tenho ouvido muitas dizer que [Dijsselbloem] ‘tem toda a razão’. Para concordar com ele é preciso esquecermos os sacrifícios que todos fizeram. Que fizeram de uma forma pacífica, cívica. (…) Esquecem-se os sacrifícios das pessoas? Esquece-se tudo, considerando que anda tudo com os copos? É um desrespeito profundo.”