«4x4x3» é um espaço de análise técnico-tática do jornalista Nuno Travassos. Siga-o no Twitter.

O último mês passou a imagem de um Benfica com a bússola estragada, tanto dentro como fora de campo, e a necessidade de (re)encontrar o caminho certo aparentemente entregue à fé.

Um novo adeus precoce à Liga dos Campeões, consumado com uma goleada em Munique, veio acentuar o impacto de um ciclo negativo que começou em Amesterdão e que regista apenas duas vitórias em sete jogos.

E se em tempos (igualmente difíceis) Rui Vitória até chegou a passar por teimoso, tal a firmeza com que se agarrou a algumas convicções, desta vez parece não saber ao certo onde procurar a luz ao fundo do túnel. É essa a sensação deixada por um conjunto de opções periclitantes, patentes não só na definição da identidade da equipa, como também numa rotatividade maior do que em épocas anteriores. Um “baralha e volta a dar” que atira jogadores do «onze» para a bancada, ou vice-versa, e que em nada ajudou a equipa a estabilizar.

O Benfica joga mal e ganha pouco, por estes dias, mas Luís Filipe Vieira decidiu reforçar o voto de confiança que já tinha dado ao técnico no final de outubro, numa entrevista à TVI em que também abriu a porta a um regresso de Jorge Jesus.

Passou um mês, e o presidente do Benfica tinha tanta legitimidade para seguir essa linha como para entender que já não tinha condições para segurar o treinador. Mas ao assumir que esta foi a solução extraída de uma reunião da cúpula encarnada, mas invertida pelo próprio após uma noite mal dormida no Seixal, Vieira colocou Rui Vitória numa situação ainda mais fragilizada. Até internamente, com o detalhe revelado que Tiago Pinto, diretor para o futebol, «ficou muito perplexo» com a mudança de ideias.

Nada do que se passou nas últimas horas reforçou a posição de Rui Vitória junto dos jogadores, e muito menos entre os adeptos, que continuarão de lenço no bolso para a próxima ocasião.

«Foi uma luz que me deu», justificou o presidente do Benfica, assumindo a decisão contrária à que tinha saído da reunião, na qual até foram discutidos sucessores para Rui Vitória. Como sempre o tempo irá avaliar esta decisão de Vieira, mas a conferência de imprensa deixou a ideia de que é mais uma questão de fé do que convicção.

Mas quanto à bússola, que nesta altura parece estragada, talvez seja preciso esperar pelo dia em que Rui Vitória partir para se perceber se o rumo pretendido na Luz ainda é aquele que Vieira tem apontado insistentemente.

Nuno Travassos