«Balolas» é um artigo de opinião de Paulo Pereira, jornalista da TVI, que escreve neste espaço de duas em duas semanas.

Escrevo novamente a partir de casa, a grande diferença é que desta vez, aqui estou como a grande maioria dos portugueses, em tempos de confinamento e distanciamento social. No meu caso tenho a sorte de ter junto a mim os meus filhos e a minha mulher, mas como todos, aguardo com ansiedade o retorno da minha vida. A vida de todos os dias. O meu trabalho, a profissão que abracei e que amo. Ainda na semana passada regressei à redação e senti-me muito bem. Tendo em conta o cenário de condicionalismos, necessários e indispensáveis, este «breve» regresso soube-me pela vida, a mesma que já foi retirada a milhares de portugueses, às mãos da epidemia.

E para quando o regresso em pleno? Pois, essa é a resposta que ninguém tem, pelo menos para já, e parece-me que justificadamente. Quando oiço falar dos planos para o futebol, fico feliz, mas ao mesmo tempo apreensivo. Não se ponha o carro à frente dos bois, com base em argumentos que não os baseados nas principais orientações de quem sabe. Voltar por voltar não é solução, e quem joga, quem treina, não está disposto a isso.

Porque não faz sentido pedir aos jogadores que não se cumprimentem com as mãos, para depois os colocarem em campo durante 90 minutos, num jogo de contacto físico.

Agora pensem!

Num cenário cor de rosa os treinos estariam de regresso ainda durante o estado de emergência, limitados às regras vigentes. Sessões individuais, campeonatos terminados até final de julho, lista das equipas para a UEFA entregue até 3 de agosto. Será?

Para quem gosta de futebol, sim, mas para quem gosta principalmente de bom futebol, para os jogadores, para os treinadores, jogar sem público, não é a mesma coisa. E não querendo fazer futurologia, alguém acredita que com estas datas, vai haver público nas bancadas?

Para já a UEFA não admite que as federações, individualmente, atribuam os títulos de campeão. Concordo. Têm que estar todos alinhados. E temos todos a esperança de que ainda haja tempo para terminar as competições. Mas será necessária uma grande ginástica para que isso aconteça em devido tempo, e o futebol não é um desporto de grandes consensos. Temo por isso.

Temo principalmente pelos jogadores, muitos deles já assombrosamente afetados pelos efeitos colaterais da pandemia. Porque nem todos ganham milhões, e já há quem não tenha dinheiro para suportar as despesas inerentes à boa alimentação dos desportistas.

Mas, e os funcionários desprotegidos, muitos deles sem dinheiro sequer para comer. O futebol não são só os futebolistas, a indústria é muito mais que isso. Os clubes e os dirigentes que tanto dinheiro ganharam e gastaram, têm agora que se juntar para gerar consensos. E sabemos todos que não tem sido fácil no futebol português.

Paulo Pereira