Contava o Raul Solnado que a maior ovação que teve na vida aconteceu no Brasil, no programa de televisão de Chacrinha.

«Vocês lá em Portugal também contam piadas de brasileiros?», perguntou o apresentador.

Sem deixar cair, Solnado respondeu: «Não, não… Nós não precisamos.»

À resposta, de uma simplicidade desarmante, seguiram-se segundos de silêncio que irromperam numa sonora gargalhada e na tal interminável salva de palmas da plateia.

Faça-se a justiça de salientar que quando Jorge Jesus chegou ao Brasil, o portuga já não era o estereótipo das anedotas: dos homens de tamanquinhos e das mulheres de buço, numa gradação que ia do ligeiramente inocente ao profundamente burro.

Ainda assim, não deixa de impressionar a forma como em cerca de cinco meses um português tenha marcado de forma tão indelével o «país do futebol».

Jesus tem cânticos e até um samba. Tem milhões de fãs e até um sósia. Tem detratores também. De Renato Gaúcho a Joel Santana, passando por Paulo César Carpegiani… A lista é longa, só para falar de técnicos brasileiros que nos últimos tempos foram tentando menorizar os feitos daquela que está bem perto de se consagrar como uma das melhores equipas da história do Flamengo.

Jesus pegou, à 10.ª jornada, numa equipa com oito pontos de atraso do líder e à 34.ª (com um jogo a mais) leva 13 de avanço sobre o segundo classificado. Quando faltam ainda disputar quatro rondas do Brasileirão, já igualou o recorde de pontos no atual formato (81), que era do Corinthians, bateu o de maior número de vitórias (25) e está em vias de fazer o mesmo com os registos de menor número de derrotas (4, neste momento tem três) e mais golos marcados (77, tem 73), entre outras marcas arrebatadoras.

Porém, mais relevante do que estes registos, são os títulos… E o que poderá acontecer no próximo fim-de-semana. O Flamengo pode, no sábado, 38 anos depois, vencer a segunda Taça Libertadores da sua história, na final em Lima frente ao River Plate, e no dia seguinte, caso o Palmeiras não vença o Grémio, pode também comemorar antecipadamente a conquista do seu sétimo campeonato brasileiro.

Sendo verdade que o «Fla» tem um plantel repleto de opções de qualidade, isto haver um treinador estrangeiro que pega no mais popular clube do futebol do Brasil e em menos de meio ano faz uma das campanhas mais bem-sucedidas de uma história centenária é coisa para colocar em cheque toda a corte de treinadores brasileiros que se revezam a cada época entre si.

Perante tal façanha, seria de esperar que o «JJ» que todos conhecemos inflasse o seu ego para lá do Cristo Redentor.

Ao invés, no último domingo, após mais uma vitória sobre o Grémio de Renato Gaúcho – desta vez em Porto Alegre e com uma equipa de recurso – Jesus apareceu aos críticos com as sandálias da humildade. Quando podia pô-los «deste tamanhinho», deu a outra face, com a simplicidade de um «não vim para ensinar» e de «não sou pior nem melhor do que ninguém».

Se em campo mostrou ser taticamente mais sagaz, fora dele adotou com perspicácia a estratégia de abdicar da fanfarronice que o tramou durante épocas a fio.

Subitamente, lá fora, Jorge Jesus mostra ter inteligência emocional até para saber cair em graça. É como se, de repente, aos 65 anos, ele tivesse descoberto a sábia vantagem de saber rir por último.

No fundo, no meio desta epopeia, a grande piada é bem capaz de ser essa.

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«Geraldinos & Arquibaldos» é um espaço de crónica quinzenal da autoria do jornalista Sérgio Pires. O título é inspirado pela expressão criada pelo jornalista e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, que distinguia os adeptos do Maracanã entre o povo da geral e a burguesia da arquibancada.

Sérgio Pires